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Meio ambiente - Nova tentativa de despoluir o rio Pinheiros

A poluição do rio Pinheiros, em São Paulo, impacta a vida de quem tem que conviver perto dele - Isadora Brant/Folhapress
A poluição do rio Pinheiros, em São Paulo, impacta a vida de quem tem que conviver perto dele Imagem: Isadora Brant/Folhapress

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

Imagine fazer uma caminhada ecológica ou passear de barco pelos 25 km do rio Pinheiros de São Paulo? No século passado, era ali que muitos paulistanos costumavam pescar, nadar e praticar remo. A transformação do rio começou na década de 1930, para aumentar a geração de energia elétrica na Usina Henry Borden.  

As obras das décadas seguintes mudaram o curso do rio e o transformaram num canal com pouca vazão de água. Para piorar, suas margens foram limitadas com a construção de rodovias expressas, o que estimulou o assoreamento do solo e as enchentes.  

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Com o tempo, a urbanização desenfreada e sem planejamento trouxe graves problemas ambientais. O maior deles é o despejo diário de toneladas de lixo e esgoto sem tratamento. Atualmente, 80% da água do rio é composta por esgoto. Sua bacia hidrográfica recebe efluentes líquidos de 290 indústrias e 400 mil residências da Região Metropolitana de São Paulo. 

Hoje, o Rio Pinheiros é considerado biologicamente morto, pois sua vida aquática é praticamente zero. A qualidade da água é considerada péssima e apenas organismos que não precisam de oxigênio conseguem sobreviver ali. 

Os poluentes na água estimularam o processo de eutrofização, quando a grande quantidade de minerais (como fosfato e nitrato) induz à multiplicação de microrganismos, como as algas e bactérias decompositoras, que se alimentam da matéria orgânica e reduzem o teor de oxigênio dissolvido.

Em excesso, esses microrganismos também podem deixar a água turva, dificultando a entrada de luz e a fotossíntese de plantas. O resultado é a redução da oxigenação na água. Sem oxigênio dissolvido, os peixes e seres aeróbicos morrem e o número de bactérias anaeróbias (que vivem na ausência de ar) se eleva. 

Além de matar a vida aquática, os poluentes são responsáveis pelo mau cheiro que incomoda quem passa pelo Rio Pinheiros e mora na região. O odor de ovo podre é resultado da decomposição de material orgânico por bactérias anaeróbicas que liberam toxinas, principalmente o gás sulfídrico. Inalado por muito tempo, esse gás pode causar problemas de saúde como dor de cabeça, náusea e tonturas. 

A qualidade de uma água pode ser medida por aspectos físicos como a alteração na cor, a presença de sólidos, a temperatura e turbidez. Variáveis biológicas, como o conjunto de organismos vivos, toxicidade (efeitos tóxicos letais como pesticidas) e presença de coliformes fecais. Variáveis químicas, como a alteração do índice de pH (potencial hidrogênico das águas), o índice de oxigênio dissolvido, a presença de nutrientes (nitrogênio e fósforo) e a concentração de metais pesados (cádmio, chumbo, cobre, mercúrio, entre outros).

É possível recuperar o rio Pinheiros

Desde a década de 1970 o Rio Pinheiros tenta diminuir sua poluição. Em 2001, a prefeitura testou um projeto de despoluição pelo sistema de flotação, que consistia em injetar produtos químicos e oxigênio na água. Assim, a sujeira subiria para a superfície, formando um lodo que seria removido mecanicamente pelos técnicos. A intenção do governo era levar a água despoluída para a represa Billings, principal reservatório da cidade. O projeto teve investimento de R$ 160 milhões e foi cancelado em 2011-- o volume de sujeira era grande demais para ser retirado e, mesmo com remoção, a água continuava contaminada com outros resíduos, como nitrogênio, amônia e fósforo.   

Em janeiro de 2013, a prefeitura criou um edital para receber possíveis propostas de empresas para a recuperação do Rio Pinheiros. A prioridade do governo estadual é diminuir o mau cheiro do rio provocado pelo gás sulfídrico, o que afeta a saúde pública e pode ser perigoso para as margens, já que o gás também possui propriedades explosivas. 

As propostas recebidas serão testadas até fevereiro. O sucesso delas determinará qual será o tratamento adequado para as águas do Rio Pinheiros. Entre as tecnologias utilizadas nessas propostas estão:

Técnica microbiológica: os microrganismos atuam no processo de consumo da matéria orgânica. A técnica consiste em aplicar, diretamente nas águas, produtos feitos a partir de fungos, bactérias ou leveduras específicas. Estes microrganismos utilizam os poluentes orgânicos como fonte de energia e liberam gases menos nocivos à saúde humana. 

Tratamentos físico-químicos: a remoção da sujeira pode ocorrer por meios físicos, como a remoção do lixo em uma unidade de gradeamento ou sedimentação, e por meios químicos, como a aplicação de produtos para alterar as características das águas. A remoção dos contaminantes é feita pela adição de produtos químicos que contém elementos com propriedades oxidantes (ozônio, dióxido de cloro e radical hidroxila) e que podem reagir com as moléculas poluentes.  

Os principais processos físico-químicos de tratamento de água e efluentes envolvem uma série de operações como a coagulação (reação química), floculação (o contato com o reagente coagulante provoca a formação de flocos), decantação (os flocos ganham massa e tendem a sedimentar devido à força da gravidade) e filtração (remoção dos sólidos). 

Recuperar um rio como o Pinheiros não é um desafio impossível. A cidade de Londres, na Inglaterra, conseguiu revitalizar o rio Tâmisa, considerado o mais sujo da Europa no século 19. Os ingleses instalaram uma eficiente estação de tratamento que removeu quase 100% do esgoto jogado no rio. Hoje, o local é um importante ponto de lazer da cidade. O rio Neiva, em Portugal, e o rio Sena, em Paris, na França também são exemplos de rios que eram poluídos e foram recuperados com sucesso.

Se a técnica escolhida tiver sucesso, num futuro próximo, o Rio Pinheiros pode ter seu mau cheiro reduzido. Mas é somente com um sistema de saneamento básico eficiente, o tratamento de efluentes nas indústrias e a conscientização da população para não jogar lixo no local que o rio poderá ser recuperado de verdade. 

DIRETO AO PONTO

O Rio Pinheiros costumava ser um local de lazer em São Paulo. Mas a urbanização desenfreada e sem planejamento trouxe graves problemas ambientais para a cidade, comprometendo o rio. Hoje, o rio é considerado biologicamente morto e tem 80% da água composta por esgoto.

 

Os poluentes reduzem a oxigenação no local e apenas organismos que não precisam de oxigênio conseguem sobreviver ali. O odor de ovo podre é resultado da decomposição de material orgânico por bactérias anaeróbicas que liberam toxinas, principalmente o gás sulfídrico. Inalado por muito tempo, esse gás pode causar problemas de saúde.

 

Agora, novas propostas estão sendo estudadas para uma tentativa de recuperar o rio. A anterior, pelo sistema de flotação, não se mostrou eficaz. Entre as tecnologias que podem ser usadas para reiniciar essa recuperação estão técnicas microbiológicas, onde os microrganismos atuam no processo de consumo da matéria orgânica, e tratamentos fisíco-químicos, onde a remoção da sujeira pode ocorrer por meios físicos ou químicos.

 

Se a técnica escolhida tiver sucesso, num futuro próximo, o Rio Pinheiros pode ter seu mau cheiro reduzido. Mas é somente com um sistema de saneamento básico eficiente, o tratamento de efluentes nas indústrias e a conscientização da população para não jogar lixo no local que o rio poderá ser recuperado de verdade.

 

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