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América Latina - onda de protestos na Nicarágua abala governo sandinista

Alfredo Zuniga /AP Photo
Imagem: Alfredo Zuniga /AP Photo

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

A Nicarágua é o maior país da América Central e o segundo mais pobre da América Latina. Em abril, uma forte onda de protestos estremeceu a região pressionou o governo do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Segundo organizações de direitos humanos, o choque entre manifestantes e policiais deixou ao menos 50 mortos nos últimos dias.

A violência na Nicarágua mobilizou a comunidade internacional.  O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediu que "as autoridades nicaraguenses assegurem que haja investigações profundas, independentes e transparentes sobre essas mortes o mais rapidamente possível".

No dia 22 abril, após a repercussão dos protestos, Daniel Ortega revogou a lei de reformas que provocou o estopim do conflito. Ele admitiu que as propostas criaram “uma situação dramática”. Mesmo com a revogação, o clima permanece tenso e parte dos manifestantes já pede a saída do presidente do poder.

Origem dos protestos

A crise começou após o presidente realizar um decreto para reformar a Seguridade Social, que tinha medidas como aumentar a taxa de contribuição para trabalhadores formalizados e aplicar um imposto sobre as pensões de aposentados.

O argumento do governo era que a reforma previdenciária era necessária para equilibrar as contas públicas e o crescente déficit do país. Mas a população contrária à reforma temia que as medidas pudessem gerar mais desemprego, menos consumo e uma perda de competitividade econômica.

As primeiras manifestações surgiram nas universidades de Manágua, capital do país. Os estudantes ocuparam os campi e realizaram protestos, que foram duramente reprimidos pela polícia. A Juventude Sandinista, grupo de jovens pró-governo, também se mobilizou e se envolveu em choques violentos contra os estudantes. A violência agravou o conflito e fez com que outros setores aderissem aos protestos, como operários, agricultores e empresários.

Nos dias que se seguiram, ruas foram tomadas por barricadas e em paralelo, houve saques de lojas, depredação nas ruas, ataques a prédios governamentais e incêndios de casas. Dezenas de manifestantes foram presos e centenas ficaram feridos.

A Igreja Católica possui uma forte influência na sociedade nicaraguense e atuou como mediadora no diálogo dos manifestantes com o governo. Alguns estudantes foram mantidos em cativeiro em prisões de segurança máxima e foram libertados após pedido do arcebispo de Manágua, o cardeal Leopoldo Brenes.

Daniel Ortega também é acusado de violar a liberdade de expressão, ao ordenar o bloqueio da transmissão de quatro canais de televisão que cobriam os protestos.

Em comunicado, o governo de Donald Trump, tradicional crítico de Ortega, considerou "repugnante" a violência política empregada. “O governo se une à comunidade internacional nos apelos a um diálogo amplo e no apoio ao povo da Nicarágua, que almeja a liberdade de expressão política e as verdadeiras reformas democráticas que tanto merece", anunciou a Casa Branca em comunicado.

A força das redes sociais

A Nicarágua testemunhou uma inédita demonstração de força e as redes sociais foram o principal meio de mobilização para os protestos. Pelo Facebook, Twitter e Youtube os manifestantes faziam convocações, denúncias, coberturas ao vivo e buscas a companheiros desaparecidos. A força das redes furou a tentativa do governo de controlar a informação em veículos de comunicação.

Um passado revolucionário e críticas ao autoritarismo

Em seu quarto mandato como presidente da Nicarágua, o socialista Daniel Ortega é considerado como a principal liderança política do país. Ex-guerrilheiro, Ortega foi líder da Revolução Sandinista que, em 1979, derrubou a ditadura de Anastásio Somoza após uma guerra civil. Uma junta formada por sandinistas e liberais assumiu o poder e estabeleceu um regime inspirado no existente em Cuba.

Em 1984, Ortega foi eleito presidente da República. A partir de 2007, ele foi eleito ininterruptamente e com forte investimento em programas sociais, sua força política parecia indestrutível.
Uma das marcas dessa época foi a forte cooperação com a Venezuela, em parceria iniciada por Hugo Chávez. Com o dinheiro oriundo do petróleo, a Venezuela investiu em diversos projetos de desenvolvimento na Nicarágua. No entanto, com a recente crise venezuelana, esse apoio entrou em colapso, afetando também a economia nicaraguense.

Ortega foi reeleito na última eleição, em 2016, mesmo com as suspeitas de uma votação manipulada. Ele tem como vice Rosario Murillo, sua esposa. Isso levantou a discussão sobre nepotismo no governo.

Os sandinistas controlam 90% das prefeituras e têm maioria no Legislativo. Segundo críticos, Ortega controla todos os poderes, incluindo o Judiciário, que é acusado de proteger a corrupção do governo. A oposição acusa Ortega de querer instalar uma dinastia política na Nicarágua e compara seu governo a uma ditadura semelhante ao governo de Somoza, que ele tanto combateu no passado.

Analistas políticos consideram que a crise vivida na Nicarágua mostrou o descontentamento de diversos setores da sociedade com as tendências autoritárias do governo de Ortega, com a recente crise econômica e com a necessidade de mudanças estruturais.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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