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1968 - o cinquentenário do ano que abalou o mundo

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Imagem: AFP

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

1968 é conhecido como um período que abalou o mundo. Um ano-chave para a história mundial e do Brasil, com acontecimentos políticos, sociais e culturais que mudaram a história do século 20 e reverberam até hoje no imaginário popular.

Nas décadas que se seguiram após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo começou a experimentar um novo tipo de conflito - a Guerra Fria (1947-1991). O período é caracterizado pela divisão ideológica entre duas superpotências, os Estados Unidos, que defendia o capitalismo, e a União Soviética (URSS), que defendia o socialismo. O cenário era marcado pela constante tensão militar, conflitos políticos e competição tecnológica entre países capitalistas e comunistas.

No contexto da Guerra Fria, a década de 1960 viu surgir movimentos de contracultura, como o movimento hippie, que influenciou a contestação de modo de vida e da sociedade vigente. Também foi o ápice dos movimentos estudantis, que começaram a criticar abertamente os regimes políticos da época. Deu-se uma espécie de insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções.

No campo da comunicação, novas tecnologias aceleraram o processo de globalização- os satélites e a televisão diminuíram as distâncias e a velocidade da troca de informações no mundo. Foi o satélite que ofereceu a todos, a transmissão da chegada do homem à Lua em 1969.

Para o cientista político e historiador norte-americano Charles Tilly, o ano de 1968 foi o início de uma onda mobilizadora até então inédita na história contemporânea - nascem os chamados “novos movimentos sociais”, que iriam se desenvolver nas próximas décadas, como os movimentos ecologistas, feministas e de direitos humanos. Os eventos e protestos revelam uma crise mundial sem precedentes, em que rebeliões sociais questionadoras da ordem reinante atingiram todos os continentes.

Relembre alguns episódios marcantes do ano de 1968.

Ofensiva do Tet no Vietnã (Vietnã)

1968 significou um “antes e um depois” na guerra do Vietnã. O envolvimento estadunidense no conflito vietnamita havia começado em 1964, tendo como justificativa a “teoria do dominó” para o bombardeio sistemático. Segundo os EUA, se todo Vietnã caísse nas mãos comunistas, o restante da Ásia seguiria a tendência. Mas aparticipação americana no conflito gerou muitas críticas por usar armas químicas e atacar civis em pequenas aldeias no interior do país. Em janeiro de 1968, durante o feriado Tet (Ano Novo) as milícias vietcongues surpreenderam os EUA com a Ofensiva do Tet, a maior ofensiva coordenada de todo o conflito. Os ataques provocaram grandes baixas nas tropas norte-americanas e na população local. A partir daí, o movimento pacifista dentro dos EUA se fortaleceu e o apoio popular à Guerra do Vietnã começou a cair. No ano seguinte, o presidente Lyndon Johnson perdeu a reeleição para Richard Nixon, que prometeu estabelecer uma “paz com honra” no Vietnã. Quando os EUA se preparavam para deixar o país, em 1975, os vietcongues lançaram a ofensiva final, a Tomada de Saigon, que marcou a derrota definitiva dos americanos e a ascensão do governo comunista.

Assassinato de Martin Luther King (EUA)

Em abril, o ativista negro Martin Luther King foi assassinado por um segregacionista branco na cidade de Memphis, nos Estados Unidos. Vencedor do prêmio Nobel da Paz, o pastor era a principal liderança da luta pelos direitos civis nos EUA. Ele ajudou a propor a lei dos direitos cívicos, assinada em 1964 pelo presidente norte-americano Lyndon Johnson. A lei, que proibia a segregação e a discriminação racial, representa uma das conquistas mais importantes na História dos Estados Unidos.  Logo após o assassinato de King, uma onda de distúrbios e protestos atingiu as grandes cidades americanas. Poucos dias depois, Johnson assinou o Ato dos Direitos Civis de 1968, que proporcionou oportunidades de moradia iguais independentemente de raça, cor, religião, sexo, deficiência, status familiar ou origem nacional.

Maio Francês (França)

Em maio de 1968 a França foi palco de uma onda de manifestações de estudantes universitários. Eles tomaram as ruas e montaram barricadas na cidade de Paris.Tudo começou com estudantes que protestavam contra a reforma educacional imposta pelo governo do presidente Charles de Gaulle, visto como autoritário. A violência policial fez com que outros movimentos aderissem às mobilizações, como a classe operária, que realizou uma greve geral e a ocupação de dezenas de fábricas. A greve geral chegou a parar o país e como consequência, o movimento quase derrubou De Gaulle. Um dos marcos do período foi o uso das ruas como espaço de mensagens políticas, como os grafismos e cartazes. O slogan famoso que ganhou os muros franceses trazia a frase “é proibido proibir”. Rapidamente o espírito do Maio Francês se espalhou pela Europa e outros continentes. O movimento simboliza a construção de uma identidade de juventude - uma geração marcada pela rebeldia, ruptura com os costumes e a busca da liberdade e das utopias.

Primavera de Praga (Tchecoslováquia)

Nos países da chamada Cortina de Ferro (Tchecoslováquia, Romênia, Alemanha Oriental, Polônia e Bulgária), vigorava a influência do comunismo soviético. Na Tchecolosváquia, o líder do governo checo Alexander Dubcek lançou um plano de reformas para democratizar o sistema e construir um “socialismo com face humana” no país, que incluía a integração ao mercado mundial capitalista. Em agosto, a Rússia e os países-membros do Pacto de Varsóvia invadiram o país para reprimir o governo e prender os principais dirigentes. Em uma semana, a Primavera de Praga foi esmagada pelas tropas. Como consequência, os partidos comunistas da Europa ocidental distanciaram-se de Moscou e criaram o chamado “eurocomunismo”, que criticava o autoritarismo soviético. O episódio contribuiu para a abertura democrática nos regimes socialistas da Europa do Leste.

Consolidação da Grande Revolução Cultural Proletária (China)

Na China, Mao Tse-tung desencadeara desde 1965 a chamada Grande Revolução Cultural Proletária, uma campanha que buscava mudar os rumos da política que que ele mesmo havia implantado. Mao promoveu uma enorme mobilização da juventude urbana da China, organizando grupos conhecidos como Guardas Vermelhos, unidade paramilitar que chegou a ter 11 milhões de integrantes. Mao exigia a destruição dos "Quatro Velhos": velhos pensamentos, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos. Mas na prática, a campanha resultou em uma reeducação doutrinária e na perseguição política. Houve a destruição de templos, monumentos históricos, escolas e bibliotecas - construções que representavam “a velha China”. Os professores escolares e universitários foram forçados a prestar “confissões” e tiveram suas residências devastadas. Posteriormente, os operários e grande parte da população urbana aderiram à revolução. Em outubro de 1968, o líder comunista Liu Shaoqi foi deposto. Afim de restaurar a ordem, Mao Tse-tung acionou os militares, que começaram a perseguir e a prender os cidadãos que questionavam o novo regime. Qualquer oposição era abafada. Os membros das guardas que não acatavam as novas lideranças ou eram enviados para reeducação no campo, ou sumariamente executados.

Massacre de Tlatelolco (México)

No dia 2 de outubro, dez dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos no México, a polícia abre fogo contra estudantes e trabalhadores que protestavam na Plaza de las Tres Culturas, na Cidade do México. Segundo fontes oficiais, o ataque deixou 36 mortos, mas até hoje o verdadeiro número de vítimas é desconhecido. O protesto era uma reação contra a invasão das forças armadas na Universidade Nacional Autônoma, em uma manobra que buscava conter os protestos e greves estudantis. Meses antes, houve uma intensa mobilização estudantil e de trabalhadores contra o governo do presidente Gustavo Diaz Ordaz (1964-1970). O presidente era criticado pelo autoritarismo e centralização e reprimia os movimentos sociais alegando que eram influências “comunistas”. Após o massacre, as lideranças estudantis foram criminalizadas e muitos jovens foram para o exílio.

Passeata dos Cem Mil (Brasil)

Em março, um tenente da Polícia Militar mata com um tiro o estudante Edson Luís de Lima. O crime foi cometido durante a invasão policial a um restaurante estudantil, onde os estudantes protestavam contra a má qualidade da comida. Um novo movimento estudantil ganhou força como resposta à violência e repressão policial. Em 26 de junho, a cidade do Rio de Janeiro (RJ) foi palco da maior manifestação contra a ditadura militar desde que o regime foi implantado em 1964. A passeata foi organizada por estudantes e contou com a participação de artistas, religiosos e intelectuais. O ato ficou conhecido como Passeata dos Cem Mil. Dias antes, a grande manifestação fora marcada pelos jovens e proibida pelo governo. Mas eles confirmaram a passeata e diante da iminência de um banho de sangue, o regime militar foi obrigado a recuar. Nas reivindicações, os manifestantes pediam mais verbas para a educação pública, criticavam a censura, a repressão às liberdades e o “imperialismo americano”, com os EUA acusado de apoiar a Ditadura.

Batalha da rua Maria Antônia (Brasil)

No dia 3 de outubro de 1968, alunos da então chamada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP entraram em conflito com estudantes da Universidade Mackenzie. A briga foi parar na rua e terminou com um jovem morto a tiros e no incêndio e destruição do prédio da Faculdade de Filosofia. Na época, ambas as instituições eram vizinhas e localizadas na Rua Maria Antonia, região central de São Paulo. O embate foi motivado por questões políticas que representavam a tensão da ditadura militar. Muitos uspianos eram ligados à União Nacional dos Estudantes (UNE). Do outro lado da rua, o Mackenzie contava com universitários integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Motivado por questões políticas, o embate — que ficou conhecido como “Batalha da Maria Antônia”, representa um marco para a história da democracia brasileira.

AI-5 (Brasil)

O ano de 1968 assistiu a uma série de greves, passeatas e manifestações dos estudantes e da sociedade civil em defesa de liberdade. Em nome da “segurança nacional”, no dia 13 de dezembro, o presidente da República, marechal Costa e Silva, decretava o Ato Institucional número 5, o instrumento jurídico que endureceu as ações repressivas da ditadura militar no Brasil. Com o AI 5, o governo militar ganhou poderes absolutos e iniciou o período de maior repressão a seus oponentes. O ministro da Justiça, Gama e Silva, anunciou as novas medidas em pronunciamento na TV à noite. O regime teve plenos poderes para fechar o Congresso Nacional, intervir em estados e municípios, cassar o mandato de juízes e parlamentares, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão e suspender o direito de habeas corpus para crimes políticos. No dia a dia, jornais e manifestações culturais passaram a ser censurados de forma mais intensa. O AI 5 vigorou até o fim de 1978.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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