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Saúde: vacinação em queda pode aumentar o risco de doenças já erradicadas no Brasil

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Foto: Diego Nigro/JC Imagem

A vacinação propõe imunizar o corpo humano contra doenças infecciosas. Mas você já recebeu alertas no seu celular sobre o perigo de tomar vacina? Nos últimos meses, dezenas de mensagens contra a imunização apareceram nas redes sociais e aplicativos como o WhatsApp.

Frases apelativas como “A vacina é mortal”, “Essas doses já mataram milhares” e “Não vacine seus filhos. É um risco.” foram amplamente compartilhadas no Brasil e ajudaram a disseminar o medo. Também ficaram famosas notícias falsas como afirmar que a vacina para a febre amarela era um golpe para reduzir a população mundial ou que a vacina contra o HPV estimulava meninas a iniciar uma vida sexual.

Os boatos prejudicam a proteção contra doenças e já preocupam médicos. A desinformação é tanta que em julho, o Governo e entidades médicas divulgaram um manifesto chamando a atenção da população sobre a importância de manter a vacinação em dia para evitar doenças e suas sequelas.

O documento, assinado pelas Sociedades Brasileiras de Pediatria (SBP), Imunizações (SBIm), e Infectologia (SBI), em parceria com o Rotary Internacional, alerta a população e profissionais de saúde para a real possibilidade de retorno da pólio e do sarampo em território nacional.

“Diante do quadro atual, há necessidade da união de esforços de todos para a manutenção do país livre dessas doenças. As coberturas vacinais ainda são heterogêneas no Brasil, podendo levar à formação de bolsões de pessoas não vacinadas”, diz o documento. 

O Ministério da Saúde observou queda nas coberturas vacinais do país e também está preocupado com o risco de retorno de doenças erradicadas. Em 2017, a vacinação de bebês e crianças no Brasil atingiu o índice mais baixo em 16 anos.

A meta é imunizar 95% das crianças com idade até dois anos, mas os índices ficaram mais baixos, entre 71% e 84%. Entre as vacinas com redução na cobertura estão aquelas que protegem contra poliomielite, caxumba, rubéola, sarampo, difteria, varicela, rotavírus e meningite.

Quais seriam os motivos para a queda nos índices de vacinação? Segundo o Governo, uma série de fatores compromete o sucesso da imunização no país, como a divulgação de fake news via redes sociais, a falta de conhecimento sobre doenças consideradas erradicadas e problemas estruturais, como o desabastecimento de vacinas nos postos de saúde e os horários limitados de funcionamento.

As fake news, por exemplo, podem ser a causa do baixo nível de cobertura vacinal contra a febre amarela no Brasil. O ideal seria que pelo menos 80% da população estivesse vacinada, mas o número atual é de 55%. Em 2017, boatos alarmistas espalharam que essa vacina poderia levar uma pessoa a ficar doente e até causar a morte.

Atualmente o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece 19 vacinas a toda a população, em mais de 35 mil postos da rede pública. Para combater os baixos níveis de cobertura, o Ministério da Saúde estuda ampliar a vacinação nas escolas e com isso, atingir as crianças que não foram vacinadas. O órgão reforça que a imunização continua sendo a melhor ferramenta na promoção e manutenção da saúde da população brasileira.

Quando a taxa de vacinação cai, o risco é que aumente o número de casos de doenças consideradas erradicadas. Em 2016, por exemplo, o sarampo era considerado erradicado no Brasil. Mas no primeiro semestre de 2018, um surto da doença assustou a população dos estados do Amazonas e Roraima, com 500 casos confirmados e mais de 1,5 mil em investigação. A origem do surto pode vir dos venezuelanos que vieram ao Brasil fugindo da crise no país vizinho, mas a doença também se espalha entre os brasileiros que não foram vacinados.

O movimento antivacina

A vacinação da população no Brasil começou em 1904 e gerou uma enorme polêmica na cidade do Rio de Janeiro. Naquele ano, o governo brasileiro decidiu vacinar a população contra a varíola, em um esforço coordenado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Mas a população não tinha informações sobre como funcionam as vacinas e havia o boato de que a injeção transmitia sífilis. Temendo a vacinação obrigatória, milhares de cariocas montaram barricadas e protestos nas ruas da cidade. O episódio é conhecido como a “Guerra da Vacina”.

Atualmente a vacinação em massa representa uma das principais políticas públicas na área de saúde. O Brasil tem o maior programa público de vacinação do mundo e aqui, a obrigatoriedade da imunização está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ou seja, deixar de imunizar menores de idade é ilegal no país.

Apesar disso, existem pessoas que ainda desconfiam dos benefícios das vacinas. No Facebook, por exemplo, existem alguns grupos antivacinação, formados por pais preocupados com os efeitos da vacinação em seus filhos. As razões para isso várias, desde questões religiosas à adoção de terapias medicinais alternativas.

Na década passada, notícias falsas também alarmaram o mundo, afirmando que as vacinas seriam responsáveis pelo autismo em crianças e a vacina de gripe fazia mal porque contém mercúrio. A grande desconfiança de hoje são os supostos efeitos colaterais que possam comprometer a saúde das crianças. Esses grupos antivacinas também questionam as doses recomendadas pelo Ministério da Saúde e a idade em que são ministradas.

Como a vacina funciona? As vacinas estimulam o sistema de defesa do organismo a desenvolver anticorpos contra determinados vírus ou bactérias, tornando o organismo imune às doenças causadas por esses agentes. Para tanto, utiliza-se o próprio micróbio causador da doença, morto ou atenuado em sua virulência (fraco o suficiente para não conseguir causar sintomas relevantes).

Quem é contra a imunização também argumenta que o excesso de vacinas poderia sobrecarregar o sistema imunológico e enfraquecer as respostas do corpo a outras ameaças. Há quem acredite que a sobrecarga de vacinas recebidas pelas crianças podem ser os responsáveis pelo surgimento de doenças autoimunes (provocadas por respostas anormais do sistema imunológico contra o próprio organismo). No entanto, essas hipóteses ainda não foram comprovadas por estudos científicos.

As autoridades sanitárias afirmam que nenhuma vacina é 100% segura. Como qualquer medicamento, existe o risco de efeitos adversos. A vacina contra a febre amarela, por exemplo, assusta por seus fortes efeitos colaterais. Quem defende as vacinas argumenta que tais efeitos seriam tão raros que se tornariam insignificantes diante dos benefícios proporcionados pelas vacinas, que protegem milhões de pessoas.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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