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Oriente Médio: Estreito de Ormuz vira ponto de instabilidade entre Irã e potências ocidentais -

Guarda Revolucionária Iraniana é responsável por patrulhar região do Estreito de Ormuz - AFP
Guarda Revolucionária Iraniana é responsável por patrulhar região do Estreito de Ormuz Imagem: AFP

Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

No dia 19 de julho, a Guarda Revolucionária do Irã capturou dois navios britânicos perto do Estreito de Ormuz, no Oriente Médio. Segundo a imprensa iraniana, a embarcação "violou regras internacionais". Os petroleiros seguiam para portos na Arábia Saudita. O ex-secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Jeremy Hunt, denunciou a ação como um "ato de pirataria do Estado" e defendeu o direito à liberdade de navegação.

A captura é vista como uma retaliação de Teerã aos britânicos. No dia 4 de julho, um petroleiro iraniano foi capturado por forças britânicas na costa de Gibraltar, um enclave do Reino Unido na Espanha. Na ocasião, os britânicos afirmaram que o navio estaria levando petróleo para a Síria, violando sanções impostas ao país árabe pela União Europeia. Na ocasião, o presidente do Irã, Hassan Rohani, disse que a apreensão em Gibraltar teria "consequências".

No dia 11 de julho, as autoridades britânicas revelaram que um de seus petroleiros quase foi bloqueado, mas a atuação de um navio de guerra inglês, o HMS Montrose, impediu que fosse levado para águas iranianas.

Após a recente detenção das duas embarcações britânicas, os EUA anunciou que vai criar uma operação multinacional para garantir a navegação livre e segura nas principais rotas de navegação no Oriente Médio. A chamada Operação Sentinela visa aumentar a vigilância e a segurança das principais vias aquáticas e prevê a escolta de navios abandeirados.

De acordo com o comunicado do governo norte-americano, o objetivo da Operação Sentinela é "promover a estabilidade marítima, garantir a passagem segura e reduzir as tensões nas águas internacionais ao longo do golfo Pérsico, do estreito de Ormuz, do estreito de Bab-el-Mandeb e do golfo de Omã".

O Reino Unido também quer criar uma força europeia de proteção no Golfo Pérsico e a Marinha Real já escolta navios britânicos que navegam pela região. "A liberdade de navegação é crucial para o sistema comercial global e a economia mundial, e faremos tudo que pudermos para defendê-la", diz um comunicado do governo britânico.
A importância do Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz é uma pequena faixa de navegação entre o Irã e o Omã. Por sua localização geográfica, possui importância estratégica mundial. O local é a única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos.

A faixa representa uma das mais importantes rotas comerciais do mundo. Centenas de petroleiros atravessam diariamente a passagem, que tem apenas 33 km entre as duas margens e seu ponto mais estreito. Por ela, passam cerca de 20% de todo o petróleo produzido do mundo.

Cinco importantes membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) - Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque - exportam sua produção pela área. O Catar, principal exportador de gás natural liquefeito do planeta, envia quase todo o seu produto por Ormuz. O transporte de petróleo é feito por mar para consumidores na Ásia, na Europa e na América do Norte.

Nos últimos meses, com a tensão entre EUA e Irã no Golfo Pérsico, aumentou a preocupação com a segurança dos navios que passam pela região, especialmente com os petroleiros.

O Estreito de Ormuz já foi chamado pela imprensa internacional como "a maior arma do Irã". Isso porque o país persa representa a potência dominante na região. O potencial bloqueio do estreito pode impactar o transporte marítimo e a economia global.

Sabotagens e drones

Em 2019, o Estreito de Ormuz está no centro das atenções, porque se tornou cenário de uma série de incidentes envolvendo Irã e Estados Unidos.

Na semana do dia 21 de junho, o Irã abateu um drone norte-americano no Estreito de Ormuz. O país persa justificou o ataque ao defender que o aparelho havia entrado em seu espaço aéreo em missão de espionagem. Os EUA negam a alegação e afirmam que a aeronave estava realizando tarefas de reconhecimento em águas internacionais.

O presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a aprovar um ataque seletivo contra o Irã em resposta à derrubada do drone. Mas a ordem foi suspensa antes que o Pentágono a executasse.

No Twitter, Trump disse que a operação foi cancelada porque seria uma resposta "desproporcional" ao incidente, pois o número de potenciais vítimas seria em torno de 150 pessoas. Após os recuos, o presidente norte-americano disse acreditar que o ataque iraniano não foi proposital. "Eu acho que provavelmente o Irã cometeu um erro enorme", escreveu.

Fontes iranianas oficiais confirmaram que a República Islâmica recebeu uma mensagem sobre um "ataque iminente norte-americano". O Irã respondeu aos EUA que vai responsabilizar o país por qualquer ataque ao seu território.

"Os Estados Unidos impõem seu Terrorismo Econômico ao Irã, levaram adiante ações clandestinas contra nós e, agora, avançam sobre nosso território", tuitou o chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif. Ele também disse que "não buscamos a guerra, mas defenderemos com zelo nossos céus, terras e águas".

De maio a junho deste ano, seis navios petroleiros foram bombardeados enquanto navegavam pela área. Ainda não se sabe a origem dos incidentes e o Irã nega a autoria.

Em maio, uma investigação multilateral apresentada ao Conselho de Segurança da ONU concluiu que explosivos foram colocados por mergulhadores conhecidos como "homens-rã", mas os culpados não foram achados.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, acusou o Irã pelas sabotagens contra os navios. A Arábia Saudita é aliada dos Estados Unidos, outro país que tem culpado Teerã pelos ataques.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse à imprensa que "o governo dos Estados Unidos acredita que o Irã é responsável pelos ataques no mar de Omã". Ele também afirma que os iranianos pretendem impedir a circulação no estreito para perturbar o mercado global. Segundo Pompeo, os EUA farão o necessário para proteger o transporte marítimo e garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.

O Irã negou qualquer participação nas sabotagens, assinalando que as acusações foram feitas "sem provas factuais ou circunstanciais". Teerã acusou os Estados Unidos de serem "uma grave ameaça à estabilidade" regional e mundial.

As imagens de navios em chamas no Estreito de Ormuz influenciaram no aumento do preço internacional do petróleo e fizeram disparar os custos para o transporte e seguro marítimo na região. Além disso, companhias aéreas europeias cancelaram rotas que cruzam o espaço aéreo do estreito.

A tensão crescente na região fez surgir o temor de hostilidades mais graves no Oriente Médio. Caso novos ataques aconteçam, a situação pode provocar um conflito armado real. Outro medo é um possível bloqueio do estreito, que pode perturbar o abastecimento do mercado global de petróleo e gás.

Depois dos incidentes, os EUA decidiram aumentar sua presença militar no Golfo Pérsico. Mas as bases regionais e o porta-aviões norte-americano estão dentro do alcance dos mísseis iranianos. Trump disse esperar evitar uma guerra com o Irã. Já o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que não pretende travar uma guerra com os Estados Unidos, mas vai resistir a qualquer pressão.

O Estreito de Ormuz é um local estratégico para as exportações iranianas. Como parte de um jogo estratégico, o país persa ameaça fechar a via. Em julho, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, advertiu que o Irã poderia suspender o comércio no Estreito de Ormuz, caso novas sanções comerciais dos EUA aconteçam. O que antes consistia em ameaças verbais, agora representa riscos concretos de um conflito.

O aumento da tensão entre Irã e Estados Unidos

Irã e Estados Unidos possuem uma relação história de tensões. Em 1979, o Irã realizou a chamada Revolução dos Aitolás, que marcou a ascensão dos clérigos xiitas ao poder e o rompimento das relações diplomáticas entre o Irã e os EUA.

Em 2015, os países chegaram a um consenso, quando foi firmado um acordo nuclear entre o Irã e as principais potências globais - Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China.

No acordo, o Irã havia concordado em ter a quantidade de enriquecimento de urânio limitada, em troca de alívio das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, a União Europeia e a ONU.

O nível de enriquecimento de urânio influencia na capacidade de um país de produzir ou não armas atômicas.

A relação entre as potências piorou em maio de 2018, quando o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015. Trump criticou o rival Obama por fazer um acordo com "inimigos" e diz temer que o regime islâmico obtenha a bomba nuclear.

Na época, Israel, aliado dos EUA no Oriente Médio, acusou o país persa de ter um programa nuclear secreto. Israel e Irã são rivais históricos e ambos possuem presença militar na Síria, onde já entraram em conflito.

Com a retirada unilateral dos EUA do trato, as sanções americanas contra Teerã voltaram a vigorar, impactando a economia iraniana. Trump citou uma campanha de "pressão máxima" e chegou a ameaçar com sanções econômicas as empresas que fizessem negócios com o governo iraniano. Ele também designou a Guarda Revolucionária do Irã como grupo terrorista.

O Irã condena a saída unilateral dos EUA e defende a permanência do acordo. Em 2019, após o anúncio de novas sanções de Washington, Teerã anunciou que voltaria a enriquecer urânio em nível mais alto, caso as potências europeias e os outros signatários do acordo não protejam o país das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Países da União Europeia, como o Reino Unido, defendem que o acordo nuclear seja retomado e são pressionados tanto pelo Irã quanto pelos EUA a tomar decisões mais efetivas.

Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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