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Política - a polarização radical no Brasil

Marcelo Bassul/AFP
Imagem: Marcelo Bassul/AFP

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

Em 2016, durante as manifestações do Impeachment, pela primeira vez na história de Brasília (DF) um muro de metal dividiu ao meio a Esplanada dos Ministérios. Ele foi instalado para tentar manter a segurança de manifestantes de posições contrárias (pró e contra governo). A divisão em frente ao Congresso Nacional simbolizou a escalada das tensões, num muro que representava também a divisão ideológica do país.

Desde 2013 o país vive uma crise política marcada por momentos-chave: os protestos de junho de 2013, os panelaços antigoverno, o Impeachment de Dilma Rousseff (2016), a prisão do ex-presidente Lula (2018) e a greve dos camioneiros (2018). Muitas manifestações reverberaram  o nível de descontentamento e frustração social de grande parte da população. De lá para a cá, a tensão política no Brasil aumentou progressivamente e atingiu um grau inédito em nossa história recente, que culminou com as eleições deste ano.

É natural da democracia a divergência de pensamentos entre grupos. A construção política representa uma constante rotina de discussão de ideias e diálogo com o outro. Mas num cenário de polarização radical, a tendência é que não exista espaço para o diálogo e a tolerância. As divergências se tornam hostis e os grupos podem ter “medo” do outro lado ou desenvolver um sentimento de raiva ou pânico. Muitas vezes, basta o outro ter um pensamento diferente para ser considerado inimigo.

Num cenário de intolerância, a reação do eleitor não é racional. Ela é movida pelo afeto e paixão. Essa intensidade emocional pode virar uma “paixão cega” e prejudicar o verdadeiro debate político, pautado por ideias e projetos em diferentes setores como educação, economia, moradia, saúde, transporte, entre outros. Assim, o debate político fica menos focado em propostas e mais propenso a ofensas pessoais, no ataque e difamação do oponente e na defesa cega do candidato (sem um olhar crítico). O resultado é o esvaziamento das pautas políticas.

Nos últimos anos, o aumento da tensão levou à prática do discurso de violência e ódio nas redes sociais e também nas ruas. Agressões verbais e físicas por motivações políticas têm sido constantes no noticiário. Há relatos de pessoas que brigaram com a família, que foram hostilizadas na rua, atacadas por vestirem camisetas associadas a partidos ou que tiveram carros quebrados em carreatas. E quando a intolerância atinge determinados níveis de intensidade, pode levar a graves atos de violência física e verbal.  
                                  
Em setembro deste ano, o candidato de direita Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado durante um ato de campanha em Minas Gerais. O assunto também repercutiu nas redes, que foram dominadas por grupos que, de um lado, questionavam a veracidade do atentado e, do outro, demonstravam solidariedade a Bolsonaro e culpavam a esquerda pelo que havia acontecido.

No dia das eleições presidenciais de 2018, o artista Rosário da Costa, 63 anos, foi esfaqueado num bar de Salvador, em briga por discussão política. Segundo a família, ele acabou esfaqueado por outro morador da localidade após se mostrar contrário ao candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). O réu confessou à polícia que o motivo do crime foi a divergência política.

O que levou a esse cenário?

Muitos motivos foram apontados como causas para o acirramento da opinião pública: a corrupção, a falta de representatividade política, a crise econômica (que provocou o desaceleramento da economia e o aumento do desemprego), a participação dos evangélicos na política nacional (que influenciam na pauta de debates morais), a disseminação de notícias falsas em massa e a própria radicalização dos discursos de políticos, como o de Jair Bolsonaro (PSL).

Um dos gatilhos para a polarização foi a recente crise política do Brasil. Com a Operação Lava-Jato, dezenas de políticos da base de governo foram presos ou acusados de corrupção. Surgiu em parte da sociedade um sentimento antipetista, no qual o partido que governou o país por quase 15 anos se viu atacado por novos grupos de oposição que clamam por mudanças. O impeachment da presidente Dilma Rousseff acirrou ainda mais o cenário.

Os partidos são responsáveis pela ligação entre o mundo político e a vida das pessoas. A desilusão com políticos leva a uma sensação de falta de representatividade, tanto no Executivo quanto no Legislativo. A descrença com as instituições políticas também aumenta a pressão sobre o ambiente de hostilidade.

A chamada crise de legitimidade na democracia representativa pode ser traduzida por cidadãos que se cansaram do sistema político e que não acreditam mais em seu funcionamento. São pessoas que já não se veem representadas pelos partidos e ou pelos políticos e por isso, buscam novos representantes ou novas maneiras de chegar ao poder.

Em 2017, uma pesquisa de opinião pública realizada pela FGV/DAPP observou um desencanto político que pode levar à descrença com o presente do país e também com o futuro. A pesquisa apontou que a insatisfação dos brasileiros no atual contexto se reflete numa falta de confiança generalizada no presidente (83%), nos políticos (78%) e nos partidos (78%), expressa em todas as regiões, faixas etárias e de renda. A consequência disso seria um aumento no processo de polarização da sociedade brasileira.

Fake news, perfis falsos e robôs

A internet também contribui para a divisão política. Os meios digitais têm sido um importante palco para campanhas eleitorais, já que se tornaram plataformas de acesso à informação política, discussão e mobilização. Mas a internet e as redes sociais como o Facebook e o WhatsApp podem ser um território livre para a manipulação, a desinformação e a disseminação de boatos. 

A disseminação de notícias falsas, as chamadas Fake News, representam um grande desafio para a credibilidade do debate político. Durante as eleições de 2018, uma enxurrada de conteúdo fraudulento foi compartilhado nas redes sociais para manipular a opinião pública, que não costuma questionar e nem checar a veracidade das fontes.

Mas por que esse tipo de notícia é compartilhada? Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) verificou que esse tipo de conteúdo falso tem mais chance de viralizar. Eles avaliaram que entre 2006 e 2017, as notícias falsas se espalharam mais rápido do que as verdadeiras. Isso, independentemente do teor: matérias de política, saúde, ciência, economia ou sobre tragédias e fenômenos naturais. O motivo? Elas apelavam para as crenças, emoções e medos do leitor.

Um dos maiores problemas da última eleição é o uso de robôs e a criação de perfis falsos para disseminar notícias e memes nas redes sociais. Bots são programas feitos para realizar atividades automaticamente. Eles podem disseminar informações de forma rápida e para milhares de pessoas, inundando grupos e páginas em poucos segundos. Esses programas podem até mesmo interagir com um usuário real e “conversar” com ele a partir de aprendizados de inteligência artificial.

Num contexto político, os robôs são usados de forma indiscriminada para influenciar opiniões pessoais e o debate público como um todo. Também são usados para “turbinar” um perfil com um número artificial de seguidores. Os conteúdos que os bots publicam geralmente são ataques políticos a adversários, notícias falsas e posts favoráveis ao nome que apoiam.

Na eleição presidencial deste ano, os robôs nutrem-se da divisão do debate nas redes. A FGV DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas) monitora o fluxo de informações no Twitter e no Facebook. Um recente estudo da instituição analisou as postagens de presidenciáveis nas eleições 2018 e observou o uso intenso de bots nas campanha, durante o período de 08 e 13 de agosto. A análise detectou que três redes de robôs foram responsáveis por 1.589 publicações durante o período. No total, foi detectada a presença de 6 mil contas automatizadas que geraram 19,8 mil posts, a maioria sobre o Bolsonaro e o então candidato petista, Lula. 

O fenômeno da “bolha narrativa” também colabora para a polarização política. As redes sociais possuem algoritmos que direcionam conteúdos para o usuário. Se eu gosto de um conteúdo compartilhado por um amigo, o algoritmo faz com que eu visualize posts semelhantes. Como resultado, forma-se uma “bolha narrativa”, que me isola de posições políticas diferentes. Ao consumir conteúdos que reforçam nossas crenças, uma quantidade cada vez maior desse material é repercutida entre as mesmas pessoas, muitas vezes sem um olhar crítico. E quanto mais conteúdo agressivo circula em determinado grupo, maior é a probabilidade de se inflar um sentimento de ódio.

Democracias frágeis e o autoritarismo no mundo

Diante desse vazio de representação política, quem ocuparia o espaço? Muitos cientistas políticos apontam que a sociedade busca “alguém de fora para corrigir o sistema”, os chamados “outsiders”, que não fazem parte da política tradicional e são vistos como “líderes fortes”. Isso poderia explicar a ascensão de políticos populistas, nacionalistas ou autoritários.

O populismo pode se encaixar em qualquer espectro no debate político. No Brasil, tanto ex-presidentes de esquerda, como Luiz Inácio Lula da Silva, quanto candidatos de direita, como o deputado Jair Bolsonaro, já foram chamados de populistas.

Segundo o cientista político Benjamin Moffitt, um verdadeiro líder populista diz representar a "vontade unificada do povo". Ele geralmente se apresenta em oposição a um tipo de inimigo, que pode ser o sistema atual. Ele pode se apresentar tanto como uma vítima ou como um “salvador da pátria”, em uma lógica do “bem contra o mal”.

Nessa lógica, o político precisa fazer o eleitorado acreditar que o mal está crescendo e que existe um “caos” que será reordenado por ele. Para Monff, o populismo de direita, por exemplo, se baseia sempre em algum discurso de ódio quanto a alguma minoria e em combate ao “Sistema” e seus valores amorais.

O Brasil está longe de ser o único país onde a política foi capturada por uma polaridade e discursos radicais. Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores da Universidade Harvard, passaram os últimos vinte anos estudando o colapso dos regimes democráticos na Europa e na América Latina. Para eles, sociedades polarizadas tendem a enfraquecer o sistema de democracia.

Os cientistas afirmam que atualmente o sistema de democracia representativa está em crise no mundo todo. No livro “Como as Democracias Morrem”, eles criticam a polarização. “O enfraquecimento das normas democráticas está enraizado na polarização sectária extrema — uma polarização que se estende além das diferenças políticas e adentra conflitos de raça e cultura. A polarização mata democracias”. Como consequência, eles também apontam que o enfraquecimento desse sistema pode levar ao crescimento gradual do autoritarismo.

Para os cientistas, a ascensão de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos pode ser comparada a exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos: da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970. Outros exemplos recentes desse fenômeno são o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e o avanço do populismo em países como Hungria, Filipinas, Turquia e Venezuela.

Levitsky e Ziblatt acreditam ainda que o mundo atual não precisa mais de uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar para uma democracia plena desaparecer. Agora a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas (como leis) de longa data.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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