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América Latina: México elege presidente esquerdista em vitória histórica

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Getty Images

    Andrés Manuel López Obrador, futuro presidente do México, comemora a vitória

    Andrés Manuel López Obrador, futuro presidente do México, comemora a vitória

O mexicano Andrés Manuel López Obrador, conhecido pelas iniciais AMLO, venceu a eleição presidencial do México no início de julho. Ele foi eleito com o maior respaldo popular do país, com 53% dos votos. O novo presidente só assume em dezembro e vai ter um mandato de seis anos.

Enquanto a América Latina caminha para governos de centro-direita, o México segue na contramão. A vitória de López Obrador representa uma histórica guinada à esquerda, que governará o país pela primeira vez. Seu triunfo põe em xeque a atuação dos partidos tradicionais (PAN, PRI e PRD), que se alternam no poder há três décadas. O histórico PRI, por exemplo, governa o México desde a Revolução Mexicana (1910-1920).

López Obrador tem 64 anos e ganhou projeção política após ser prefeito da Cidade do México, a capital do país. Depois, havia tentado concorrer duas vezes pela Presidência. “Estamos a ponto de realizar uma transformação sem derramamento de sangue”, disse López Obrador durante o comício de encerramento da campanha.

O novo presidente prometeu uma verdadeira mudança social, tendo como base de seu projeto político o combate à pobreza, violência e corrupção, cujos índices estão entre os maiores do mundo. Esses temas representam os principais desafios do novo mandato.

O partido de López Obrador, o Movimento Regeneração Nacional (Morena), também governará a capital e conquistou cargos de governadores em vários estados. Em uma eleição sem precedentes, o bloco vai presidir com a maioria no Senado e na Câmara dos Deputados.

O Morena foi fundado para disputar a última eleição e muitos analistas já consideram que ele representa a maior ruptura política mexicana moderna. Enquanto os partidos tradicionais estão em declínio, a inesperada coligação de esquerda surge como uma nova força política no México.

O fenômeno AMLO

A imprensa chama López Obrador de “fenômeno” e o compara a um “tsunami” pela sua popularidade. Nas eleições, ele nunca caiu nas pesquisas e teve uma rápida ascensão.

AMLO já foi classificado como um líder populista, ao estilo do venezuelano Hugo Chávez e do brasileiro Lula da Silva. O mexicano tem uma ligação forte com movimentos sociais e sindicatos e promete fazer um governo que olhe para as camadas mais pobres.

Analistas avaliam que seu sucesso reflete um clima de ceticismo social e político no país. O México está enraizado pela corrupção e a persistente desigualdade social. O cenário também foi alimentado pelo descrédito dos partidos tradicionais e de todo o sistema partidário, visto como ineficaz. 

AMLO fez uma campanha em que reforçou a imagem de um “político honesto”. Seu discurso também foi marcado pelo nacionalismo, que resgatou a memória da revolução nacional mexicana e o sentimento de que o mexicano comum pode ter maior protagonismo.

Violência

O México vive uma grave crise de segurança. A violência dos carteis de narcotráfico e do crime organizado cresceu de forma avassaladora. O ano de 2017 foi considerado o mais violento da história do país, com mais de 25 mil homicídios registrados.

O medo e a tensão vivida diariamente pelos mexicanos também se refletiu nas eleições. Durante a campanha eleitoral, 132 políticos e candidatos foram assassinados no México.  O processo eleitoral foi considerado o mais sangrento da história. 

Reduzir os níveis de violência é uma das promessas de López Obrador. Para isso, ele terá que mudar as estratégias com que se combate o crime organizado. Os índices de assassinatos aumentaram desde 2006, quando o governo federal iniciou uma política de guerra contra os traficantes. Essa política fragmentou as organizações criminosas em grupos menores e mais violentos, que disputam entre si o controle do mercado de drogas e praticam o terror nas cidades onde atuam. 

Corrupção

O ex-presidente Enrique Peña Nieto deixará a presidência após um governo manchado por escândalos de corrupção e utilização indevida de dinheiro público. Um dos casos mais polêmicos envolve sua esposa, Angelica Rivera. A primeira-dama comprou uma casa de sete milhões de dólares de um empresário e não conseguiu explicar a origem do dinheiro.

O combate à corrupção foi a principal bandeira da campanha de Obrador, que prometeu expulsar “a máfia do poder”. O novo presidente terá o desafio de criar medidas que façam valer a lei e castiguem a corrupção, até então marcada pela certeza da impunidade.

Pobreza

López Obrador prometeu ajudar os mais pobres e promover a igualdade social no México. Para isso, ele deve aumentar os gastos sociais. Dados do Conselho Nacional de Avaliação das Políticas de Desenvolvimento Social (Coneval) revelam que 46,3% dos mexicanos vivem na pobreza e 7,6%, na extrema pobreza.

Economia

O México representa a segunda maior economia da América Latina. O mercado financeiro mexicano já chamou López Obrador de “enigma” por temer que sua eleição levasse o país a uma espiral de aumento de gastos públicos e crise financeira. Mas durante a campanha, López Obrador procurou acalmar o mercado e usou um discurso moderado, dizendo que não seria um “perigo” ao México. Ele prometeu estabilidade aos investidores e empresários, com medidas austeras na economia.

Relação com os Estados Unidos

O México é vizinho dos Estados Unidos e as questões de migração e comércio são importantes para os dois países. Está em pauta a promessa do presidente americano de fazer o México pagar por um muro fronteiriço, a política de imigração e a renegociação do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta). Os EUA correspondem a 80% das exportações do México. Sobre Donald Trump, o presidente norte-americano, López Obrador declarou que busca uma “relação de amizade e cooperação”.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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