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Carnaval - Por que a data muda todo ano?

Nelson Antoine/UOL
Imagem: Nelson Antoine/UOL

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

O Carnaval é a maior festa popular do Brasil. Mas por que o Carnaval ocorre em datas diferentes a cada ano? Pouca gente sabe que a folia, de origem pagã, tem o seu calendário definido a partir de um sistema de cálculo criado pela Igreja Católica.

A palavra carnaval deriva da expressão latina carne levare, que significa abstenção da carne. A Igreja Católica incorporou o Carnaval em seu calendário, para designar a véspera da Quarta-Feira de Cinzas, dia em que se inicia a exigência da abstenção de carne, ou jejum quaresmal. Assim, a festa marca os três dias que antecedem a abstinência de carne requerida pela quaresma.

A data do Carnaval é sempre definida em relação à Páscoa, data cristã que marca a ressurreição de Jesus Cristo, ocorrida três dias depois de sua crucificação. E a Páscoa deve acontecer sempre num domingo, numa determinada data do ano.

O cálculo da data da Páscoa é importante para a marcação de todos os feriados móveis cristãos. Por exemplo, a terça-feira do Carnaval ocorre 46 ou 47 dias (se o ano for bissexto, como neste ano) antes do domingo de Páscoa. A Quaresma, marca os 40 dias entre o Carnaval e o domingo de Ramos. Já o domingo de Pentecostes acontece 49 dias depois da Páscoa.

Quando cai a Páscoa?

O primeiro passo para se calcular a data do Carnaval é descobrir quando cai a Páscoa —ela é celebrada no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre depois do equinócio de Primavera no hemisfério norte (ou no outono, no hemisfério sul). Determinada esta data, retrocede-se 46 dias no calendário e chega-se à Quarta-feira de Cinzas. Os três dias anteriores correspondem ao período do Carnaval.

A Páscoa católica é uma festividade que remonta à comemoração da Pessach judaica - festividade que lembra o êxodo do Egito, quando os judeus foram libertados da escravidão e do domínio egípcio. O êxodo aconteceu numa época de lua cheia e no início da Primavera. A celebração acontece no dia 14 do mês de Nisan do calendário hebraico, que começa na Lua seguinte ao equinócio da primavera.

Os equinócios marcam o início das estações primavera (no Norte) e outono (no Sul) e estão relacionados à incidência dos raios solares e à inclinação da Terra. Nesse evento, nenhum dos hemisférios está inclinado em relação ao Sol, iluminando então, igualmente, os dois hemisférios. Os dias e as noites têm a mesma duração. Esse fenômeno ocorre em dois momentos do ano: em março e em setembro. No hemisfério norte, as datas aproximadas costumam ser nos dias 20 e 21 de março.

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A definição da data da Páscoa cristã ocorreu ao longo de vários séculos. Ela ganhou importância para a religião cristã uma vez que Cristo foi morto e ressuscitou quando foi comemorar a Páscoa hebraica. Acontece que, segundo os Evangelhos, a ressurreição deu-se num domingo.

No ano de 325, os bispos realizaram uma reunião, o Concílio de Niceia (atual Iznik, na Turquia), onde decidiram padronizar a data. Naquele tempo, a festa da Páscoa cristã estava ligada à celebração do Pessah e alguns cristãos queriam desatrelar esse rito do calendário judaico, formando uma celebração com elementos próprios. Por exemplo, parte da comunidade cristã defendia a comemoração apenas no domingo, dia em que Jesus teria ressuscitado. No calendário judaico, a Páscoa poderia acontecer em um dia de Lua Cheia em qualquer dia da semana.

A Igreja definiu o critério de que a Páscoa deveria coincidir com o primeiro domingo após a entrada da Lua Cheia da Primavera no hemisfério norte, ou do Outono no hemisfério sul. No entanto, a determinação do cálculo de quando a celebração deveria acontecer gerou uma série de controvérsias e levou séculos para ser consolidada.

Mudança de calendário

Um dos motivos é que a Igreja adotava o calendário juliano, que remonta ao Império Romano. Mas o calendário juliano não garantia uma proximidade entre a realidade e a previsão dos fenômenos astronômicos. Assim, a Páscoa acontecia mais próxima ao meio do ano e várias comunidades católicas ao redor do mundo não comemoravam no mesmo dia.

Dado sua imprecisão, em 1572 o papa Gregório 13 (1502-1585) reuniu estudiosos, como matemáticos e astrônomos, para corrigir o calendário juliano, criando-se o calendário gregoriano, adotado no Ocidente. Este calendário assegura o comprometimento no prognóstico dos movimentos relativos à translação da Terra ao redor do Sol e da Lua ao redor da Terra.

O calendário Gregoriano excluiu os anos múltiplos de 100 de serem bissextos (por exemplo, 1700,1800 e 1900 etc.), a menos que fossem múltiplos de 400 (ano 1600, 2000 etc.). Com a reforma, a Igreja definiu que o equinócio pode ser observado no dia 21 de março.

Mas a cada ano, as fases da lua ocorrem em datas diferentes. Como os calendários lunar e solar não se conciliam, o dia da Páscoa nunca cai em uma só data. A partir do calendário Gregoriano, a Páscoa ficou definida para acontecer sempre no primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia que ocorre após o dia 21 de março.

Dessa forma, a Páscoa pode acontecer a partir de 22 de março, e no mais longo dos cenários, pode prolongar-se até 25 de abril. Se o Carnaval acontece 47 dias antes da Páscoa, o Carnaval pode cair entre os dias 4 de fevereiro a 9 de março.

Para o cálculo do dia de Páscoa, existem várias fórmulas matemáticas. Por exemplo, a fórmula do matemático alemão Karl Gauss (1777-1855) ou a do astrônomo francês Jean Baptiste J. Delambre (1749-1822).

Carolina Cunha

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