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Direitos humanos: 50 anos da morte de Martin Luther King

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • AFP

Há 50 anos, em 4 de abril de 1968, o norte-americano Martin Luther King era assassinado com um tiro, na sacada do quarto de um hotel, em Memphis, no estado do Tennessee. Ele tinha apenas 39 anos e entrou para a história como um símbolo da luta contra o racismo nos Estados unidos.

O assassino era Earl Ray, que cometeu o crime por acreditar que Luther King era um traidor que influenciava multidões nas suas manifestações para enfraquecer o país a nível político e econômico. Ray foi preso e condenado a 100 anos de prisão.

Martin Luther King Jr. era um carismático pastor da igreja Batista que havia se tornado o líder do Movimento pelos Direitos Civis. Ele nasceu em Atlanta, cidade conhecida como o “portal de entrada para o Sul”. Criado em uma família de pastores, desenvolveu a habilidade da oratória desde cedo, sendo reconhecido por seus sermões e discursos emocionantes.

Oito meses antes de morrer, em agosto de 1963, Luther King proferira um dos discursos mais marcantes da história, intitulado "I have a dream". Ele aconteceu diante de uma multidão de 250 mil pessoas, em Washington, como parte da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade. Um dos sonhos era que os quatro filhos fossem julgados apenas pelo caráter, jamais pela cor da pele.

Além de atuar na Igreja Batista, King se formou em sociologia e fez doutorado em Teologia, tendo uma trajetória acadêmica de destaque. Era um leitor voraz de filosofia e literatura. Entre suas principais influências, estão o pensamento do escritor Henry Thoreau (1817-1862) e seu conceito de “Desobediência civil”. Ele também foi inspirado pelo líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), por sua filosofia de resistência pela não violência.

King adotou a não-violência como uma estratégia de ação social. Para ele, ser pacifista não significava não agir, mas ter um enfrentamento corajoso do mal pelo poder do amor. Em 1964, o reverendo se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz. Ele era preocupado não apenas em combater o racismo, mas qualquer fonte de injustiça contra o ser humano. 

Ao receber o prêmio, afirmou que “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça de todos os lugares.”

A falta de direitos e a segregação racial

A luta de Martin Luther King é uma das consequências da longa duração da escravidão na América e no mundo. No século 19, houve uma sangrenta Guerra Civil nos Estados Unidos. A Guerra de Secessão (1861-1865) resultou no fim do regime escravagista no país em meio à vitória dos estados do Norte contra os estados do Sul.

Com o final da guerra, a 13ª emenda da constituição dos EUA foi aprovada. Ela garante que ninguém pode ser submetido à escravidão ou ao trabalho forçado, protegendo assim, os escravos recém-libertos e permitindo direitos iguais às pessoas negras.

Mas os Estados do Sul rejeitaram a concessão de direitos e instauraram um sistema de segregação racial que mantinha a população negra separada da branca. As conhecidas Leis de Jim Crow, promulgadas nesses Estados, institucionalizaram a separação racial e étnica. Elas vigoraram entre 1876 e 1965 e quem não as seguia poderia ser preso.

Além das leis, haviam os crimes de ódio. Inconformados com o fim da escravidão, sociedades secretas como a Ku-Klux-Klan e os Cavaleiros da Camélia Branca pregavam a supremacia branca e começaram a perseguir comunidades negras, criando um clima de terror e medo. 

Um dia desses vou colocar meu corpo onde está minha alma

Em Atlanta, terra natal de King, o sistema de segregação era muito severo. Negros e brancos estudavam em escolas separadas. Crianças negras não podiam ir a nenhum parque público, não podiam frequentar lojas, cinemas ou lanchonetes que não fossem para negros.

King cresceu em uma família de classe média, com relativo conforto. Ele tomou consciência do racismo pela primeira vez aos seis anos de idade, quando foi impedido de brincar com um amigo branco. Outro episódio marcante aconteceu aos 8 anos, quando estava em uma loja de Atlanta e levou um tapa de uma mulher que disse “você é aquele crioulo que pisou no meu pé”.

O sistema de transporte também tinha regras de segregação. Os brancos sentavam-se na parte da frente e os negros eram obrigados a se sentar nos fundos, mesmo havendo lugares vazios. Muitos dos sermões de King remetem a lembranças pessoais. “Eu era obrigado a ir para a parte traseira do ônibus com meu corpo, mas sempre que pegava o ônibus deixava minha alma na parte da frente. Eu dizia a mim mesmo: um dia desses, vou colocar meu corpo onde está minha alma”, diz o reverendo.

Quando era estudante no Ensino Médio, King ganhou um concurso de oratória, com o tema “O negro e a Constituição”, exigindo direitos iguais. Na juventude, King foi estudar no Norte, onde tomou contato com um sistema mais igualitário. Em carta ao pai, ele escreveu “aqui vamos aonde queremos e nos sentamos aonde queremos”.

A chama em Montgomery e o Movimento dos Direitos Civis

Em 1954, Luther King se muda para Montgomery, capital do estado do Alabama, para assumir o comando da Igreja Batista da Dexter Avenue. Voltar para o Sul foi um choque. “Nunca consegui me adaptar a salas de espera separadas, restaurantes e lanchonetes separados, sanitários separados, em parte porque separado significava desigual, e em parte porque a própria ideia de separação mexia de alguma forma com meu senso de dignidade e respeito próprio”, lembra King.

Mas os tempos estavam mudando e o movimento pela igualdade já se articulava na cidade sulista. Em dezembro de 1955, a ativista Rosa Parks recusou-se a deixar seu assento quando um motorista de ônibus ordenou que ela ficasse de pé para dar o lugar a um passageiro branco. Ao se recusar, foi presa pela polícia. 

Como reação à prisão de Parks, igrejas e organizações afro-americanas de Montgomery se mobilizaram para realizar um boicote da população negra aos ônibus, exigindo mudanças nas regras de segregação. “Estamos cansados de ficar segregados e humilhados. Não temos alternativa a não ser protestar”, pregou King, que se tornou o líder do movimento.

Os trabalhadores negros, que representavam 75% dos passageiros, aderiram em massa. Quase 50 mil pessoas deixaram de usar transporte público. Para manter o boicote, que duraria um ano, lideranças comunitárias organizaram um eficiente sistema de caronas, que contou com a ajuda de motoristas voluntários. Era comum ver pessoas optarem por andar a pé, como símbolo de resistência. 

Um ano depois, o boicote resultaria em uma decisiva ação judicial. Em 1956, a justiça de Montgomery aboliu a lei de segregação no transporte no Alabama, alegando que ela feria a Constituição. A cidade recorreu e o caso foi parar na Suprema Corte Americana, que reiterou o fim da segregação no transporte público. 

A decisão da Suprema Corte não foi acatada sem violência. Dois dias depois da revogação da lei na cidade, a casa de King em Montgomery foi baleada e adolescentes negros foram espancados nas ruas. Em 1957, bombas destruíram cinco igrejas de comunidades negras.

A ação bem-sucedida em Montgomery foi o estopim para um movimento maior e King se transformaria na principal liderança do Movimento de Direitos Civis, que buscava reivindicar a cidadania dos afro-americanos.

O Movimento dos Direitos Civis teve origem na década de 1950 e seguiu com força até meados de 1968. Durante esse período, diversos grupos sociais se uniram para organizar protestos e traçar estratégias de mobilização. A resistência não-violenta era o método, ao lado de ações na Justiça e articulações políticas.

Em 1963, um mês depois da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, quatro meninas negras morreram quando uma bomba explodiu em uma Igreja Batista. O episódio emocionou os Estados Unidos.

Em julho de 1964, Lyndon B. Johnson, o vice-presidente que assumiu após o assassinato do   presidente Kennedy, sancionou a Lei dos Direitos Civis, que acabou com a discriminação em espaços públicos dos Estados Unidos e mudou a história da população negra no país.

Outra bandeira marcante foi a luta pelo voto. No Alabama, os negros encontravam a resistência de funcionários brancos na hora de realizar o registro de eleitor. Isso impedia que eles pudessem votar e escolher seus representantes. Em 7 de março de 1965, aconteceu o evento conhecido como Domingo Sangrento, quando 600 manifestantes pró-voto foram atacados violentamente pela polícia local.

Como resposta, Martin Luther King organizou uma marcha da cidade de Selma a Montgomery, pela igualdade de direito ao voto. Escoltados por 2 mil soldados do Exército, os manifestantes percorreram a rota a pé, até chegarem à Assembleia Legislativa do Alabama.

Este movimento foi fundamental para sensibilizar a opinião pública mundial e conduzir à aprovação no mesmo ano, da Lei dos Direitos ao Voto, que estabeleceu o fim das práticas eleitorais discriminatórias.

A não violência era uma forma de atuação inovadora para a época e era seguida à risca pelos ativistas. Formas de protesto e de desobediência civil incluíram boicotes, marchas e sit-ins (paralisação geralmente de funcionários ou estudantes em que se recusam a sair do prédio/local até que suas exigências sejam atendidas).

Apesar das conquistas, a atuação na militância pelos direitos humanos era considerada perigosa. Na década de 1960, além de Luther King ter sido assassinado, outros dois líderes negros dos direitos civis também foram executados: Medgar Evers (1925-1963) e Malcolm X (1925-1965).

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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