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Intolerância: Coexistir com as diferenças é um desafio?

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

Você gosta do partido A ou B? Cuidado. Provavelmente a resposta pode gerar algum tipo de discórdia. É cada vez mais comum no Brasil brigas por causa de partidos ou posições políticas. Militantes são hostilizados nas ruas, políticos são vaiados em locais públicos e amizades se desfazem na rede social.

Um episódio recente envolveu o cantor Chico Buarque, agredido em frente a um restaurante no Rio de Janeiro por um grupo de pessoas contrárias ao PT. 

A saída seria deixar de falar de política? Certamente não.

A palavra política surge na Grécia Antiga como uma tradição que estimula o debate e a liberdade no pensar e no agir. Uma cultura democrática é uma cultura do diálogo. A democracia é um sistema de governo baseada no diálogo da sociedade civil. O problema é quando não existe o debate de ideias, mas o pensamento único que leva ao ódio e ações violentas. 

O radicalismo do debate político é apenas uma das faces da intolerância da sociedade brasileira. Basta espiar as notícias e perceber a violência contra o outro em diversas esferas: uma apresentadora de TV foi ofendida na internet por ser negra. Nas favelas do Rio de Janeiro, traficantes convertidos em evangélicos proíbem umbanda e candomblé em territórios que estão sob seus domínios. Em São Paulo, motoristas do aplicativo Uber foram agredidos por taxistas.

A tolerância acontece quando existe uma convivência respeitosa entre as diferenças. Já a intolerância é um comportamento que se materializa pela violência física ou simbólica, motivada pelo ódio ao outro. Trata-se de uma violência que é usada no cotidiano contra pessoas e povos, baseada na dificuldade de entender e aceitar as diferenças. Ela pode ser étnica, política, de gênero, de classes, religiosa, sexual, cultural e social. O desafio do mundo contemporâneo é o de que todas essas identidades consigam conviver juntas e em paz. 

A lista de crimes e barbáries contra a humanidade baseada na intolerância é vasta. Basta recordar a inquisição da Idade Média, a escravidão, o holocausto judeu, este último, apenas um dos conflitos motivados pela intolerância religiosa e o racismo no século 20. 

No século 16, a palavra tolerância tinha uma carga negativa. Tolerar era sofrer ou suportar pacientemente um mal necessário. Por outro lado, a intolerância designava uma virtude, uma espécie de integridade moral ou firmeza para com os preceitos morais. 

A noção de tolerância que temos hoje tem raízes no Iluminismo. Em 1689, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) escreveu a Carta sobre a Tolerância, que trouxe importantes argumentos na defesa da tolerância. 

Naquela época, eram comuns massacres recíprocos entre católicos e protestantes na Europa. Na Carta, Locke defende a preservação de certos direitos dos indivíduos e afirma que os homens não têm o direito de infligir tortura por motivo religioso.

Locke rejeita a conversão da fé à força. Ele acredita que ninguém pode mudar sua fé pelo simples comando de outro. Para ele, as perseguições religiosas provocam ainda mais intolerância. Por outro lado, o respeito pela consciência alheia disseminaria a paz na sociedade. 

As reflexões dos filósofos iluministas influenciaram a criação de leis que reconhecem todos como iguais. Após a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a ONU assinou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. O primeiro artigo da Declaração diz que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Os indivíduos têm direitos porque são seres humanos, e não por sua condição social. 

A Constituição brasileira também assegura que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza e garante aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. 

A importância da alteridade 

A palavra alteridade, originária do latim possui o prefixo alter (o outro) que significa compreender o lugar do outro e ter consciência que ele existe. A convivência com a alteridade é uma forma de pensar, escutar e dialogar com o outro. 

No entanto, o exercício da alteridade não é fácil. Começamos a olhar o outro como um estranho, mas não como um “outro”. A visão de alteridade é ser capaz de olhar o outro como um sujeito visível, próximo, e não como um inimigo. Sair de sua própria visão de mundo para entrar na existência da outra pessoa. 

Hannah Arendt (1906-1975) acreditava que a pluralidade fazia parte da condição humana. Para ela, não nascemos iguais, mas nos tornamos iguais. A igualdade seria uma construção que poderia existir somente na esfera pública da vida, na liberdade pública e no acesso a direitos. Arendt reconhece que o totalitarismo obstrui a experiência do outro, para focar na dominação e supressão do outro. Quando o mundo perde a capacidade de relacionar as pessoas, o poder cede lugar à força e à violência. Nesse caso, o sujeito cidadão desaparece. 

A questão da alteridade é investigada pelo filósofo lituano Emmanuel Lévinas (1906-1995). Para ele os homens contemporâneos mantêm suas relações com o próximo de uma forma egoísta e sem responsabilidade, preocupando-se apenas com o seu ser.

Lévinas acredita que nosso papel não é complementar ou somar com o próximo, mas simplesmente entender que não estamos sozinhos no mundo e que precisamos ter responsabilidade e uma relação ética com o Outro, independente de quem seja. É necessário não um olhar de medo, mas de respeito em relação ao espaço do outro. 

Intolerância política e à diversidade humana 

Para o cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004), a intolerância que se baseia na crença da verdade absoluta é, em geral, de caráter religioso ou político. A tolerância seria, assim, uma forma de prevenção contra o dogmatismo, para que este não vire fanatismo (pessoal), fundamentalismo (religião) e totalitarismo (Estado).

Os fundamentalistas de qualquer religião querem impor um único modelo de vida, num mundo onde prevalece a pluralidade. Bobbio ressalta que o fascismo, centrando-se no autoritarismo do poder político, não admite as discussões que podem fazer prevalecer a razão. Só existem tolerância e intolerância em sociedades livres. Numa sociedade de pensamento único, não existe a possibilidade de livre escolha dos cidadãos. Nesse contexto, todos que se opõe a esse pensamento único são considerados inimigos e contra eles é exercida a intolerância em diversos graus, da exclusão ao uso da violência. Mas em uma sociedade livre, o diálogo é uma prática de não-violência. 

Já a intolerância que se baseia em diferentes tipos de preconceitos tem como característica atentar contra a diversidade humana. Do ponto de vista de sua origem, a palavra preconceito significa pré-julgamento, ou seja, ter uma conclusão sobre alguma coisa que ainda não se conhece. Na prática, a palavra preconceito foi consagrada como um pré-julgamento negativo a respeito de uma pessoa ou de alguma coisa.

Para Michael Walzer, intelectual e pensador norte-americano, “a coexistência pacífica de grupos de pessoas com histórias, culturas e identidades diferentes” é o próprio conceito de tolerância. Walzer identifica e classifica diferentes posturas como tolerância. Assim, encontra quatro possibilidades que são comumente relacionadas à tolerância: 1) aceitação resignada da diferença; 2) indiferença bondosa em relação aos outros; 3) reconhecimento dos direitos dos diferentes e 4) abertura e curiosidade para com a alteridade (ideia de que todo o homem social interage e interdepende do outro, agindo de forma a considerar sempre o outro). 

Tolerar a intolerância? 

O pensador Karl Popper (1902-1994) acreditava que a intolerância não devia ser tolerada. Devemos, portanto, reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Essa formulação não implica que devemos sempre suprimir as filosofias intolerantes, contanto que possamos combatê-las por argumentos racionais.

Ele apresenta uma interessante síntese de sua teoria da falsificabilidade científica a partir de três princípios: 1) Eu posso estar errado e você pode ter razão; 2) Conversando racionalmente sobre as coisas talvez nós possamos corrigir alguns de nossos enganos e 3) Se discutirmos racionalmente sobre as coisas, talvez ambos possamos ficar mais próximos à verdade. 

Para Popper, a intolerância é fruto de um processo de diálogo que favorece a compreensão da razão. Assim, o diálogo não é a conversa entre iguais, mas a conversa real e concreta entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento. No caso de preconceito contra as diferenças, a intolerância se torna ação necessária, o que sugere que a tolerância deve existir até certo limite. Mas como definir esse limite?

O escritor israelense Amós Oz, para quem a tolerância é a questão fundamental do século 21, propõe uma pergunta para pensarmos a relação tolerância/intolerância: “A tolerância deve se tornar intolerante para se proteger da intolerância?”. 

BIBLIOGRAFIA 

  • Carta sobre a Tolerância, John Locke (Hedra, 2007)
  • Contra o Fanatismo, Amós Oz (Ediouro, 2004) 
  • Da Tolerância, Michael Walzer (Martins Fontes, 1999)
  • A Condição Humana, Hannah Arendt (Forense Universitaria, 2014)
  • Entre Nós. Ensaios Sobre a Alteridade, Emmanuel Lévinas (Editora Vozes, 2010)
 

Carolina Cunha

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