Topo

Pesquisa escolar

Atualidades


Crise na Ucrânia - Um país dividido entre a Rússia e a União Europeia

David Azia/AP
7.mar.2014 - Mulher coberta com a bandeira nacional ucraniana deposita e observa, nesta sexta-feira (7), flores e mensagens deixadas aos mortos nos confrontos recentes na praça da Independência, em Kiev Imagem: David Azia/AP

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

Nem sempre os políticos calculam bem as consequências de suas decisões. No caso do presidente afastado da Ucrânia, sua última escolha lhe custou o cargo e a tranquilidade de toda a população ucraniana que hoje está no centro de um conflito com a Rússia. A crise na Ucrânia começou em novembro.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Tudo começou em novembro de 2013, quando o então presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, decidiu abandonar um acordo de livre comércio com a União Europeia para se alinhar à Rússia, país que dominou a Ucrânia por gerações quando esta fazia parte da União Soviética. O acordo estratégico com os russos incluía uma ajuda financeira, descontos no preço do gás produzido pela Rússia e comprado pela Ucrânia e a promessa de uma zona de comércio livre. 

Desejando a integração com a União Europeia e temendo a influência russa, parte dos ucranianos foi às ruas para se manifestar contra a decisão. A quebra do acordo foi o estopim para um governo que já sofria desgastes com problemas como a economia sem crescimento, corrupção endêmica e a falta de reformas políticas. 

O gás natural produzido pela Rússia tem papel relevante na crise. Hoje, a Europa importa 30% do gás russo, número que já foi de 45%. A Ucrânia está entre os dez países que mais consomem gás natural no mundo e também redistribui o produto. Em seu território, passam 80% do gás russo vendido aos europeus por meio de seus gasodutos. 

No controle dos preços do gás natural, os russos com frequência ameaçam suspender seu fornecimento aos ucranianos. Em 2006 e em 2009 os dois países entraram em crise devido a um desentendimento no valor do gás e a suspeitas de que a Ucrânia havia desviado o gás destinado a países vizinhos. Neste cenário, o desconto de US$ 2 bilhões anuais no preço do gás natural oferecido pelo presidente russo Vladimir Putin para o governo ucraniano abandonar o acordo com a União Europeia funcionou como atrativo.

A violenta repressão policial às manifestações fez crescer o movimento e as críticas ao governo, e alterou a pauta de reivindicações: os protestos não pediam apenas o alinhamento à União Europeia, mas também a saída do presidente. Houve invasão de prédios públicos e os confrontos entre manifestantes e policiais deixaram um saldo de dezenas de mortes. 

Após três meses de protestos, o Parlamento votou pela destituição do presidente Viktor Yanukovich e anunciou eleições presidenciais antecipadas para 25 de maio. Aleksandr Turchinov, presidente do Parlamento, assumiu como presidente interino. Países da União Europeia prometeram uma ajuda financeira para a Ucrânia empreender reformas econômicas e planejar as eleições presidenciais. Refugiado na Rússia, Yanukovich defende que continua sendo presidente do país.

Seria o fim da crise? Não exatamente. Enquanto o Ocidente apoiava o novo governo, a Rússia criticou o país vizinho e o governo provisório, prometendo sanções econômicas como retaliação. 

Na Crimeia, república autônoma da Ucrânia, confrontos entre militantes prós e antirrussos acirraram o conflito. A Rússia, que mantém uma base naval no litoral da Crimeia, no sul, enviou tropas militares para executarem manobras na fronteira.  O número de soldados russos no local chegou a 30 mil. 

Localizada estrategicamente ao lado do mar Negro, a Crimeia é um Estado autônomo e 60% da população é de origem russa. A influência do país soviético é forte não apenas na península, mas também nas regiões leste e sul da Ucrânia, que mantém a língua e a cultura. 

No final de fevereiro, o Parlamento em Simferopol (capital da Crimeia) foi invadido por separatistas com bandeiras da Rússia. Os parlamentares da Crimeia criaram um referendo para a população decidir se deseja pertencer à Ucrânia ou Rússia. Historicamente, a região nunca pertenceu de fato à Ucrânia e foi anexada durante a Guerra Fria porque a União Soviética controlava as duas regiões. Se aprovado pela Rússia, o referendo deve ser votado no dia 16 de março. 

Para o presidente interino da Ucrânia, a ação é ilegal, pois pela constituição ucraniana, a decisão de rever fronteiras só poderia ser examinada com um referendo nacional. Turchinov ainda alertou para a atuação similar da Rússia durante a intervenção na Geórgia no conflito separatista da Abkházia e da Ossétia do Sul, que têm uma grande população de etnia russa, em 2008. A guerra com a Geórgia durou cinco dias, e a Rússia permanece no controle da Abkházia e da Ossétia do Sul até hoje, mesmo que a ONU e a maioria dos países considere-os como parte da Geórgia. 

Um país com um passado de lutas

A Ucrânia é uma nação em processo de mudança. Com 46 milhões de habitantes, o segundo maior país da Europa tem um território maior do que a França e foi palco de intensos conflitos ao longo da história. 

No século 19, a Ucrânia foi anexada ao Império Russo. No século 20, após a Segunda Guerra Mundial, o país pertenceu à União Soviética e era um dos seus principais produtores agrícolas. A região leste sempre foi mais próxima da Rússia e a oeste, aos poucos foi se alinhando ao Ocidente. 

Em 1991, após o colapso da União Soviética, a Ucrânia manteve relações próximas com a Rússia e permitiu que sua frota naval operasse em águas ucranianas. A Ucrânia também é rota para os gasodutos russos que exportam gás natural para a Europa. 

Em 2004, os ucranianos fizeram seu primeiro grande levante popular devido às suspeitas de fraude nas eleições que colocaram o presidente afastado, Viktor Yanukovitch, no cargo. As fraudes foram comprovadas pela justiça, e um segundo pleito deu a vitória a Victor Yushchenko na primeira eleição presidencial democrática do país. Durante as eleições, o candidato chegou a ser envenenado e sobreviveu. 

Quando o antigo regime tentou anular a eleição, milhares de pessoas foram às ruas da capital e acamparam na Praça Maidan, em Kiev. O risco de uma guerra civil entre a parte ocidental do país e a oriental (reduto da Rússia) era real. O levante pacífico foi chamado de Revolução Laranja. O ponto de encontro também foi a Praça da Independência de Kiev. A mesma que hoje vê uma nova geração de jovens clamarem por novos tempos. 

 

DIRETO AO PONTO

A decisão do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, no final de 2013, de abandonar o acordo de livre comércio com a União Europeia para se alinhar à Rússia, país que dominou a Ucrânia por gerações quando esta fazia parte da União Soviética, desencadeou uma onda de protestos no país. O acordo estratégico com os russos incluía uma ajuda financeira, descontos no preço do gás e a promessa de uma zona de comércio livre. 

A violenta repressão policial aos protestos fez crescer o movimento e as críticas ao governo, e alterou a pauta de reivindicações: os manifestantes não pediam apenas o alinhamento à União Europeia, mas também a saída do presidente. Após três meses de protestos, Yanukovych foi destituído. Aleksandr Turchinov, presidente do Parlamento, assumiu como presidente interino.

Na Crimeia, república autônoma da Ucrânia, confrontos entre militantes prós e antirrussos acirraram o conflito. A Rússia, que mantém uma base naval no litoral da Crimeia, no sul, enviou tropas militares para executarem manobras na fronteira. Agora, inserida no conflito, a população da Crimeia realizará um referendo para decidir se deseja pertencer à Ucrânia ou Rússia.

Enquanto isso, a Rússia e Ucrânia seguem sem uma resolução para o impasse em meio aos preparativos dos ucranianos para convocar novas eleições presidenciais, o que pode atrapalhar os planos do presidente russo Vladimir Putin, de se aproximar da Ucrânia. 

 

 

Carolina Cunha

Mais Atualidades