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Ucrânia: Tragédia na usina nuclear de Chernobyl completa 30 anos

Carolina Cunha

da Novelo Comunicação

  • Carol Thomé e Duca Mendes

O nome Chernobyl é sinônimo de traumas e mortes. O pior acidente nuclear de todos os tempos completa 30 anos em 2016. A tragédia na usina nuclear de Chernobyl ocorreu em 1986, na Ucrânia, então parte da antiga União Soviética. Na madrugada do dia 25 de abril, o reator número 4 da Estação Nuclear de Chernobyl explodiu.

A usina havia sofrido uma sobrecarga de energia durante um teste de capacidade. O sistema de resfriamento parou de funcionar, o que gerou um superaquecimento do núcleo, que atingiu temperaturas muito quentes. O calor provocou uma explosão de vapor tão violenta que destruiu o teto do reator, que pesava mais de mil toneladas. Um cogumelo de 1 quilômetro de altura soltou pelos ares fragmentos de grafite com plutônio a enorme temperatura. Em contato com o ar, o urânio pegou fogo e também foi lançado na atmosfera.

Os primeiros bombeiros, trabalhadores e jornalistas que chegarem ao local foram expostos a doses letais de radiação e foram as primeiras vítimas de Chernobyl. O incêndio lançou no ar grandes quantidades de material radioativo do núcleo. Se não fosse contido, a precipitação radioativa seria 100 vezes maior do que a força combinada das duas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

A cidade mais próxima à usina era Pripyat, localizada a apenas três quilômetros dali e com uma população de 40 mil habitantes. No dia seguinte após a explosão, os moradores ficaram expostos a uma radiação 50 vezes maior do que a considerada normal na atmosfera. Naquele ritmo, em quatro dias a exposição poderia levar à morte de todos.

O nível de radioatividade começava a subir e os moradores de Pripyat tinham que ser retirados da cidade, deixando tudo pra trás.  Para evitar pânico as autoridades esconderam a gravidade da situação e disseram que a mudança seria temporária. Centenas de ônibus entraram em ação e em 3 horas e meia, as 43 mil pessoas foram retiradas. Eram os primeiros “refugiados atômicos” da Europa.

Após o acidente, o governo criou uma zona de exclusão em um raio de 30 quilômetros em torno do reator que explodiu, afetando a cidade de Chernobyl e pequenas comunidades. 130 mil pessoas tiveram que se mudar. Toda essa área foi abandonada e se tornará inabitável para o ser humano por milhares de anos.

Mas o pior ainda estava por vir. Os moradores tinham sido expostos a doses altas de radiação que poderiam alterar a composição do sangue e provocar diversos tipos de câncer. Enquanto isso, o vento começou a levar nuvens de partículas e poeira radioativas para o norte da Europa, afetando uma região de mais de mil quilômetros. Florestas vizinhas foram queimadas por causa da radiação, que também provocou uma queda acentuada na vida selvagem dali.

O reator continuava a queimar. Uma operação militar gigantesca foi montada para apagar o incêndio. A solução foi despejar, com a ajuda de helicópteros, toneladas de chumbo e areia para tentar conter o fogo, evitando que a radioatividade se espalhasse ainda mais. Em 6 de maio, o fogo foi controlado.

A maioria dos soldados que participou das missões de emergência morreu por causa da exposição à radiação. Em semanas, as vítimas começaram a surgir nos hospitais, com problemas como a deterioração da medula óssea e queimaduras profundas pelo corpo.

Quantas pessoas foram contaminadas pela radiação? Até hoje o número de vítimas é incerto e controverso. A Organização Mundial da Saúde estima que 4 mil pessoas tenham morrido em decorrência da exposição. O Instituto de Radiologia de Kiev admite 31 mortos e 50.000 contaminados, com níveis de radiação capazes de matar no longo prazo. Há relatos de que milhares de pessoas contraíram câncer.

Nos anos seguintes, índices de radiação foram detectados nos seguintes países: Suécia, Escandinávia, Países Baixos, Bélgica, Reino Unido, Eslováquia, Romênia, Bulgária, Grécia, Turquia e Polônia. A Ucrânia, a Bielorrússia e a Rússia foram os mais atingidos.

Além do traumático acidente que ficou na memória dos moradores locais, a Ucrânia contou com o apoio de 600 mil pessoas para trabalhar na descontaminação da área afetada pela radiação liberada pela usina, os chamados “liquidadores”. Segundo a ONG Chernobyl Union, que presta apoio às vitimas do acidente, 35 mil dos liquidadores morreram por causa da radiação e outros 95 mil apresentam sequelas da alta exposição. O governo ucraniano estima que apenas 5% dos membros de equipes de resgate e limpeza ainda vivos estão saudáveis.

30 anos após o desastre, a zona de 30 quilômetros ao redor da antiga usina permanece fechada. Um “sarcófago” de concreto foi construído em torno do reator em uma tentativa desesperada de controlar a radiação. Um novo domo de aço que está em construção substituirá a estrutura do velho sarcófago e permitirá que o reator seja um dia desmontado, quando a radiação se dissipar. Pripyat permanece como uma cidade fantasma. Ela só pode ser visitada com monitores de radiação e por poucas horas. Até hoje a região continua praticamente deserta.

O mundo após Chernobyl

O desastre de Chernobyl hoje é considerado por especialistas como fruto de um erro operacional. O acidente trouxe mortes e doenças, mas também levantou reflexões sobre o problema da segurança e os riscos da energia nuclear. Países como Itália, Alemanha, Suécia, Finlândia, Suíça, Holanda e Espanha cancelaram programas nucleares e fecharam usinas. No Brasil, em 1986, o então presidente do país, José Sarney, criou uma comissão para avaliar a segurança das usinas de Angra dos Reis.

Novas regras de segurança começaram a ser seguidas em diversas partes do mundo para evitar que uma nova catástrofe ocorra. Usinas estão sendo projetadas com uma maior capacidade de retenção de um possível vazamento, com sistemas de refrigeração mais eficientes, salas mais espessas de contenção de material radioativo e tecnologias que permitem interromper automaticamente as operações capazes de colocar o reator em risco.

Hoje a geração nuclear é considerada como uma das atividades industriais que oferece menor risco. Em 2005, estatísticas do equivalente ao Ministério do Trabalho nos EUA revelaram que é mais seguro trabalhar em uma usina nuclear do que qualquer indústria. Enquanto engenheiros argumentam que as usinas estão cada vez mais seguras, ativistas ambientais pedem o fim desse tipo de modelo energético, argumentando que falhas de segurança sempre vão existir.

O fato é que o mundo se torna cada vez mais dependente da energia nuclear, fundamental para gerar eletricidade em países como Japão, Estados Unidos, França, e Alemanha. Na França, ela representa 80% da energia produzida. No mundo inteiro, a energia nuclear representa 17% da produção de energia elétrica. Dados da organização World Nuclear Association mostram que 440 reatores estão em operação no mundo, e mais de 80 estão em construção. Pesa ainda o fato de que a energia nuclear é considerada limpa e eficiente, porque não libera gases causadores do efeito estufa, que provocam o aquecimento global.

Apesar das novas usinas serem consideradas de baixo risco, ainda não existe risco zero. O desastre nuclear mais recente e de maior impacto desde Chernobyl aconteceu em 2011, na usina nuclear de Fukushima, no Japão. O motivo? Um fenômeno natural extremo. Um terremoto de magnitude 9 na escala Richter provocou um tsunami, que atingiu o sistema de segurança em três reatores e provocou o desligamento do sistema de refrigeração. A temperatura subiu tanto que provocou a fusão parcial do núcleo e vazamento radioativo em vários reatores. O lançamento à atmosfera de toneladas de partículas radioativas acabou contaminando cerca de 150 mil quilômetros quadrados e 200 mil pessoas tiveram de ser evacuadas de um raio de 30 km ao redor da usina.

Carolina Cunha

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