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Turquia: país sofre tentativa de golpe e tensão política aumenta

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Huseyin Aldemir/ Reuters

    18.jul.2016 - Membro das forças especiais da polícia fica de guarda em frente à Academia da Força Aérea em Istambul

    18.jul.2016 - Membro das forças especiais da polícia fica de guarda em frente à Academia da Força Aérea em Istambul

Pontos-chave

• Em 15 de julho, parte das forças armadas da Turquia se rebelou contra o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan e tentou dar um golpe de Estado. A situação foi revertida por tropas leais ao governo.

• O Presidente turco acusa o opositor Fethullah Gülen de estar por trás da tentativa de golpe.

• Outra possibilidade é que o golpe seja liderado por militares de orientação secularista.

• A oposição acredita que uma das primeiras consequências da tentativa de golpe é que o ato possa aumentar o autoritarismo do presidente e aumentar o seu poder.

O que se seguiu foram confrontos na rua, que deixaram um saldo de mais de 260 pessoas mortas. O presidente Recep Tayyip Erdogan, do partido AKP, estava de férias em um resort. Um pelotão de soldados havia se dirigido ao seu hotel, mas ele conseguiu entrar em um avião a tempo e não sofreu o ataque. Durante a tentativa, Erdogan entrou na internet ao vivo e conclamou o povo a defender o governo e preservar a democracia. As massas foram às ruas e tentaram deter os golpistas. Quase 3.000 militares suspeitos de envolvimento no levante foram detidos rapidamente pelas forças leais ao presidente.

O que aconteceu?

Ainda não se sabe o contexto real, as causas e o tamanho da parcela da população que apoiou a tentativa de levante. Durante a revolta, militares rebeldes declararam em documento que "a administração política que perdeu toda a legitimidade foi forçada a cair”. Na retórica, os líderes apontaram a corrupção e a ameaça ao secularismo turco como causas de suas ações.

Políticos e o líder do principal partido opositor, o CHP, descartou apoiar o golpe e disse que respalda o governo democraticamente eleito. O governo acusa um grupo militar da Turquia a se associar com a organização Hizmet para realizar o recente golpe de Estado fracassado. O vazamento de que estaria em curso uma depuração maciça de gülenistas nas Forças Armadas é apontado como uma das hipóteses para explicar a rebelião.

A Hizmet é uma organização civil fundada nos anos 1960 por Fethullah Gülen, clérigo e pensador muçulmano. Considerado de uma linha moderada do Islã, ele prega a união do islamismo com a democracia e o mundo moderno. O movimento possui grande influência na sociedade turca e criou uma poderosa rede de escolas, empresas, instituições de caridade e órgãos da mídia na Turquia.

Erdogan e Gülen já foram aliados políticos no passado, mas agora são rivais. Aos 60 anos, Erdogan é visto como um líder carismático, responsável pelo crescimento econômico do país. Apesar disso, ele é considerado pela oposição como um “ditador” islamita, que ameaça a liberdade de expressão.

Em 2013, Erdogan foi acusado de corrupção e diversos aliados seus foram presos. As acusações ganharam força com a publicação na internet de uma série de conversas telefônicas grampeadas. Nesta época, ele denunciou "uma conspiração" organizada pelos aliados do pregador Fethullah Gülen para derrubar o governo. Erdogan então rompeu com Gülen. No mesmo ano, milhares de pessoas se reuniram em volta da praça Taksim em Istambul, desafiaram o governo e denunciaram o autoritarismo do primeiro-ministro. O governo, por sua vez, respondeu reprimindo as manifestações e censurando a mídia.

Gülen se encontra exilado nos Estados Unidos desde 1999 e nega qualquer envolvimento com a tentativa de golpe em julho. Atualmente o governo turco classifica a organização como terrorista, tanto que se refere ao Hizmet como FETO (Organização de Terror Fethullah).

Este mês, um tribunal de Istambul emitiu um mandado de prisão contra Gülen. A medida abre caminho para um pedido formal de extradição do inimigo do presidente Erdogan a Washington. O fato de os EUA abrigarem o opositor é um ponto delicado na relação entre os dois países.

A oposição acredita que uma das primeiras consequências da tentativa de golpe é que o ato possa aumentar o autoritarismo do presidente, que teria “carta livre” para perseguir os gülenistas, simpatizantes de seu opositor. Desta forma, consolidaria ainda mais o seu poder. Segundo essa teoria, o golpe seria conveniente para um presidente que precisava de um pretexto para realizar a prisão de pessoas da oposição.

O presidente turco declarou no dia 20 estado de emergência de três meses. Nesse período, ele pode aprovar leis sem a autorização do Parlamento e suspender os direitos individuais da população. Segundo o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, desde 15 de julho, ao menos 20 mil pessoas foram indiciadas e detidas. Universitários foram proibidos de sair do país e 24 televisões e rádios tiveram suas licenças de emissão canceladas. Mais de cinco mil funcionários, sobretudo policiais, professores, economistas, políticos, juízes e jornalistas foram suspensos ou destituídos de suas funções, acusados de apoiarem as ideias de Gülen.

Países-membros da União Europeia criticaram as prisões e demissões em massa, e as classificaram como medidas antidemocráticas. "Não há dúvida nenhuma de que estas medidas são preocupantes", afirmou a chanceler alemã Angela Merkel.

Turquia e a geopolítica

Situado na fronteira entre Europa e Oriente Médio, a Turquia é um país europeu, de maioria muçulmana e que define seu regime como democrático. Sua posição geográfica é estratégica por fazer a fronteira com a Europa e o Oriente Médio.

No campo político, a Turquia é considerada pelo Ocidente como um modelo de sucesso de integração do mundo islâmico com um Estado laico, democrático e com relações com países ocidentais.

A Turquia é a principal porta de entrada para os refugiados que buscam a Europa, oriundos de países em conflito como a Síria e o Líbano. O país tem o papel de ser um “tampão”. Para conter o intenso fluxo migratório, a União Europeia criou um programa de ajuda econômica de US$ 3,4 bilhões para a Turquia receber imigrantes. Em troca, o país teria maior possibilidade de se integrar à União Europeia, papel que é acompanhado com atenção pelo mundo.

O país também atua na guerra civil da Síria, ajudando tropas locais a combater o Estado Islâmico (EI). Porém, analistas avaliam que o real objetivo turco na região é evitar o crescimento das forças da etnia curda. Milícias curdas sírias combatem o EI no norte e sudeste do país. Na Turquia, existe um conflito permanente entre o governo e os rebeldes curdos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que buscam estabelecer um Estado curdo independente. Após a tentativa de golpe na Turquia, o PKK intensificou seus ataques terroristas.

A Turquia secularista

Internamente, uma das principais questões da Turquia é a tensão entre o secularismo e islamismo. A atual constituição do país tem caráter secular e garante que o Estado é laico. Isso significa que ela não reconhece alguma religião oficial do país e proíbe qualquer manifestação religiosa nas instituições políticas e sociais.

Quem implementou o laicismo foi Kemal Atatürk (1831- 1938). Ele é considerado como o pai da Turquia moderna, sendo reverenciado pela população como um herói nacional. Após a derrota do Império Otomano, Atatürk comandou levantes e assumiu a presidência em 1920. Durante o processo de modernização, suprimiu em 1922 o sultanato e em 1924, o califado. À frente do Partido Popular Republicano, fundado por ele próprio, chegou a presidente da República Turca em 1923 e fez significativas reformas, como o sistema judicial inspirado nos dos países europeus, monogamia, alfabeto latino, indumentárias ocidentais e restrições religiosas.

Durante o século 20, a Turquia sofreu diversas tentativas de golpes militares (1960, 1971, 1980 e 1997), o que a torna sua democracia ainda frágil. As Forças Armadas usaram a defesa do Estado laico e do secularismo como uma das bandeiras para a realização dos golpes. Eles estariam defendendo a herança secularista de Kemal Atatürk. Em relação à tentativa do golpe de julho, existe ainda a hipótese de que determinadas elites do exército secularista tenham sido afastadas do poder pelo governo de Erdogan.

O presidente também não é bem visto entre as alas mais liberais, que acreditam que ele tomou diversas medidas de inspirações islâmicas. Muitos se referem a ele como “inimigo do secularismo”. Entre as medidas polêmicas da gestão de Erdogan estão a suspensão da proibição do uso de véus pelas mulheres muçulmanas em escolas e universidades e as fracassadas tentativas de criminalizar o adultério e proibir a venda de álcool em alguns bairros.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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