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Trabalho - O conceito e a relação com o tempo livre ao longo da história

Charles Chaplin em cena do filme clássico ""Tempos Modernos"" - AP
Charles Chaplin em cena do filme clássico ''Tempos Modernos'' Imagem: AP

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

Sísifo foi condenado pelos deuses a repetir por toda a eternidade a tarefa de subir uma montanha carregando uma pedra enorme e no cume soltá-la para rolar encosta abaixo. Em certo momento, Sísifo desce a montanha para agarrar a pedra e novamente subir com ela. É nesse momento que, livre do esforço, ele pensa sobre sua condição e se revolta sobre a tarefa absurda e sem sentido que terá que fazer por toda a vida. 

O filósofo Albert Camus observa no mito de Sísifo a imagem do proletário, homem trabalhador que está condenado a repetir tarefas indefinidamente por toda sua vida. Para Camus, o instante em que ele reconhece sua condição só aconteceu no tempo livre, momento em que ele deseja ter uma existência com mais sentido. 

Qual é o seu trabalho? É muito provável que a resposta diga muito sobre quem você é ou como vive. A concepção e relação do homem com a profissão diz muito sobre a nossa sociedade. Mais do que um meio de sobrevivência e sustento, ela também revela mudanças políticas, culturais e econômicas ao longo da história. 

O trabalho é a atividade ou ação humana que necessita do uso de capacidades físicas e mentais, destinada a satisfazer diversas necessidades. Existe desde a Pré-História, quando o homem inventou instrumentos como a pedra lascada e o machado para sobreviver e, posteriormente, no desenvolvimento de atividades de caça, pesca, coleta e agricultura. 

Trabalhar é uma atividade que tem um propósito e pode ter como fim a criação de bens materiais que supram as necessidades de sobrevivência (moradia, alimentação e proteção) ou necessidades culturais e psicológicas (arte, lazer, educação, etc.). 

O sociólogo Georges Friedmann reforça que é pelo trabalho que o homem modifica seu próprio meio e pode modificar a si próprio. Trabalhar pode trazer realização pessoal e social ou ainda gerar dignidade ou status perante a sociedade. 

Nos tempos de hoje, o trabalho está cada vez mais atrelado à busca de um sentido e de uma expressão pessoal. Todo mundo sonha em fugir do estresse e da frustração profissional e ter um trabalho perfeito: bem remunerado, respeitado, estimulante mentalmente e emocionalmente. É muito comum a ideia de que para se alcançar a realização individual ou a felicidade, é preciso trabalhar com o que gosta. 

Mas nem sempre foi assim. No livro Prazeres e Desprazeres do Trabalho, o filósofo Alain de Botton escreve que a expectativa de que o trabalho traga felicidade é uma novidade da sociedade pós-moderna: “Por milhares de anos, ele foi visto como algo a ser feito o mais rápido possível, e o escape da imaginação viria pelo álcool ou pela religião”. 

Em sua raiz, o termo “trabalho” é associado à dor e sofrimento. A origem vem do latim tripalium, nome dado um instrumento formado por três estacas de madeira, usado na Antiguidade pelos romanos para torturar escravos e homens livres que não podiam pagar impostos. Com o tempo, o sentido da palavra passou a ser “realizar uma atividade dura”. 

Durante boa parte da história ocidental o trabalho foi considerado uma atividade depreciável, pois por muito tempo foi associado à atividade de escravo ou de pessoas consideradas inferiores na sociedade. 

Os gregos, no período clássico, por exemplo, pensavam que só o ócio criativo era digno do homem livre e o trabalho manual era desprezado. O filósofo Aristóteles afirmava que ninguém poderia ser livre e ao mesmo tempo obrigado a ganhar o próprio pão. O tempo deveria ser dedicado a aperfeiçoar o intelecto e virtudes como a política, a escrita e as artes. 

Na Idade Média, o trabalho também era considerado uma atividade desprezada. A sociedade feudal era dividida entre senhores (donos de terras) e os servos, camponeses que trabalhavam em troca de moradia e proteção. Os nobres se dedicavam à função de defender os reinos de invasores. No final da Idade Média, surgem novas atividades comerciais que dão origem aos burgos (cidadelas medievais) e à burguesia, uma nova classe social que enriqueceu através do capitalismo mercantil e a expansão marítima.  

No Renascimento, surge a concepção de que o trabalho é inerente ao homem e a ideia de maestria, a perfeição do artesão, que se tornava um verdadeiro mestre ao dominar o ofício. Paralelamente, o calvinismo valorizou o trabalho ao criar uma ética favorável ao lucro, ao trabalho árduo e ao enriquecimento pessoal. 

O sociólogo alemão Max Weber aponta a religião como elemento fundamental no processo de valorização do trabalho. Na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, ele aponta que os protestantes consideravam a dedicação ao trabalho como uma virtude e que essa visão ajudou o capitalismo a ter sucesso em países protestantes. Martinho Lutero justificava o enriquecimento como fruto do esforço pessoal e da graça de Deus.

Revolução industrial

Os conceitos “classe operária” e “burguesia industrial” surgiram após a Revolução Industrial, na Inglaterra da segunda metade do século 18. Novas tecnologias como o tear mecânico, a máquina a vapor e a fiandeira hidráulica aumentaram a produção de manufaturas, assim como o Iluminismo influenciou a adoção da organização taylorista.

A Revolução Industrial criou novas condições de vida e transformações, como a mudança nas relações entre os trabalhadores (força de trabalho assalariada) e os proprietários dos meios de produção (burguesia industrial). Com o fim da escravidão oficial, surge a contratação por tarefas em países colonizados. Na Europa, durante o século 19, as atividades fabris foram responsáveis por um intenso processo de urbanização, consumo e produção em massa.  

Mas apesar de remunerados, os trabalhadores recebiam baixos salários e atuavam em jornadas exaustivas de trabalho (até 18 horas por dia) sendo comuns as mortes por exaustão e acidentes. As relações eram extremamente desiguais. Os donos acumulavam verdadeiras riquezas e os operários viviam em condições precárias. Surge então o início do movimento operário, que reivindicava direitos trabalhistas inéditos e melhores condições de trabalho. 

Um dos principais teóricos do trabalho foi o filósofo Karl Marx, que analisou os desdobramentos do sistema capitalista. Ele acreditava que o trabalho é uma condição essencial para que o homem seja cada vez mais livre e dono de si. Porém, o capitalismo é cheio de contradições (a riqueza de uns é a miséria de muitos) e mercantiliza todas as relações (a mercadoria domina e determina tudo).  

Marx usou o termo “alienação” para se referir ao processo de estranhamento do trabalhador em relação ao sentido da atividade produtiva, quando o trabalho deixa de ser a satisfação de uma necessidade para se tornar apenas um meio para satisfazer as necessidades externas a ele. 

Com a alienação do trabalho, o trabalhador aliena-se também do gênero humano, daquilo que o faz ser gente. Na obra O Capital, Marx escreve: “quanto mais o operário se esgota no trabalho, tanto mais poderoso se torna o mundo estranho, objetivo, que ele cria perante si, mais ele se torna pobre e menos o mundo interior lhe pertence”. 

Assim, capital, trabalho e alienação promovem a coisificação do mundo e suas regras devem ser seguidas passivamente pelos seus componentes. Para Marx, a tomada de consciência de classe e a revolução são o caminho para a transformação social.

Para o sociólogo Émile Durkheim a divisão social do trabalho seria fundamental para a coesão social. Ele entende que cada uma das partes é responsável pelo bom funcionamento da sociedade e precisa trabalhar para tanto. Os indivíduos aceitam o lugar social que lhes é dado desde que impere uma ordem social e solidária, que leve justiça a todos os seus membros. 

A invenção do tempo livre 

O trabalho está sempre ligado ao conceito de passagem do tempo. O trabalho e o tempo livre adquirem um significado e um valor diferente de acordo com a época histórica. No início, quando surgiram os primeiros clãs e tribos, o tempo dedicado ao trabalho limitava-se ao da obtenção da sobrevivência do grupo. O tempo livre era usado na convivência com a comunidade. 

Na sociedade moderna, o ócio passou a ser algo condenável, que deveria ser suprimido em nome da produção. O trabalho passou a ser valorizado apenas como atividade produtiva e os trabalhadores tinham pouco tempo para o lazer, que também precisava ser usado para descansar e repor as forças físicas. 

No início do século 20, os pensadores Adorno e Horkheimer, expoentes da Escola de Frankfurt, criaram o conceito de “indústria cultural” para nomear a modalidade de arte destinada ao consumo de massa. Trata-se de um produto elaborado não mais segundo o padrão e a escala do trabalho artesanal, mas conforme o esquema capitalista de produção de mercadorias, no qual o valor de uso é reduzido à condição de mero suporte do valor de troca.

O objetivo da Indústria Cultural não é o desenvolvimento do conhecimento nem criar caminhos para que isso aconteça, mas sim produzir e comercializar conteúdos que poderiam ser consumidos no tempo livre do trabalhador. Para Adorno, essa é a armadilha: mesmo estando livre da atividade produtiva, o indivíduo incauto pode ainda não usufruir o tempo livre, ele estaria consumindo, embora na maioria das vezes não acredite que o esteja fazendo. Ou seja, na sociedade de consumo o tempo livre transforma-se em mercadoria a ser adquirida pelo indivíduo.

A ilusão de promoção da felicidade divulgada pelos meios de consumo, pela qual se percebe um consumo ilimitado, impede a reflexão. Adorno considerava que o rádio, por exemplo, semeava a resignação, tornando a população conformada frente a um sistema que desfigura a essência do ser. 

Para o sociólogo italiano Domenico De Masi, a nossa sociedade precisa “se libertar” do trabalho. Ele acredita que o futuro em uma sociedade “pós-industrial” pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar num sistema de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o “ócio criativo”. 

De Masi acredita que num futuro próximo, o trabalho manual será substituído por máquinas e computadores, e que o trabalho valorizado será o criativo. A principal característica da atividade criativa é que ela praticamente não se destaque do jogo e do aprendizado, ficando mais difícil separar estas três dimensões que antes em nossa vida tinham sido separadas de uma maneira clara e artificial.

O trabalho no século 21

No século 21 o trabalho se apresenta de outra forma, com muitos falando no fim do emprego como conhecemos: com carteira assinada, salário, férias e outras características. Cada vez mais o trabalho vem se organizando de forma diferente, não mais baseado nos princípios tayloristas e fordistas.

As novas tecnologias também ajudaram a trazer um novo olhar sobre o trabalho. Se antes para a maioria importava construir uma carreira estável, subindo de cargo em uma empresa onde se trabalhava por toda a vida, hoje a visão sobre o emprego é outra. Grandes ideias não saem mais apenas das empresas, podem surgir dentro de grupos de amigos ou da universidade, como aconteceu com o Facebook.

Muitas pessoas já não têm como meta fazer carreira em grandes corporações. O trabalho não define quem elas são. Tentam abrir seu negócio, investir em áreas onde combinem um hobby com a profissão enxergando o trabalho como uma função mais livre (será possível?), ou passam por diferentes locais de trabalho em curtos períodos de tempo. 

Mas esta é uma realidade ainda limitada a certos indivíduos em função de suas qualificações, experiência e formação. Outros ainda enfrentam problemas que se arrastam por séculos, como instabilidade, remuneração não adequada ao tipo de atividade, jornadas superiores, e exploração. Desafios que o século 21 tem a missão de reduzir ou eliminar. 

BIBLIOGRAFIA 

  • A Corrida para o século XXI, Nicolau Sevcenko
  • A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber
  • Da divisão do trabalho social, Émile Durkheim
  • O Capital, de Karl Marx
  • O Ócio Criativo, Domenico de Mais
  • Prazeres e Desprazeres do Trabalho, de Alain de Botton
 

Carolina Cunha

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