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Rússia: crise diplomática, reeleição de Putin e Copa do Mundo marcam o início de 2018

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Sputnik/Alexei Nikolskyi/Kremlin/Reuters

    O presidente russo Vladimir Putin

    O presidente russo Vladimir Putin

Em março de 2018, um ex-espião russo e sua filha foram envenenados na Inglaterra com um agente neurotóxico raro. O ex-agente Serguei Skripal e sua filha, Yulia, seguem hospitalizados na cidade de Salisbury, em estado grave de saúde.

A tentativa de assassinato ganhou ampla repercussão mundial por usar uma poderosa arma química chamada Novichok, criada na antiga União Soviética durante a Guerra Fria. Ela ataca o sistema nervoso e pode levar à morte por parada cardiorrespiratória.

Sergei  Skripal foi condenado a prisão em 2006 na Rússia por traição. A acusação é de que ele vendia informações sigilosas aos agentes britânicos. Em 2010, ele foi perdoado, como parte de uma troca de espiões com os Estados Unidos. Desde então, passou a morar no Reino Unido.

O governo britânico acusou a Rússia de estar por trás do envenenamento e reagiu de forma enérgica, entendendo que a situação expos os seus cidadãos ao perigo. Logo após o episódio, o ministro das Relações Exteriores, Boris Johnson, advertiu que “nenhuma tentativa de eliminar uma vida inocente no Reino Unido ficará sem castigo, nem sanção”.

A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, ordenou a expulsão imediata de 23 diplomatas russos. Ela também anunciou outras medidas, como a fiscalização maior de voos com origem na Rússia e o possível congelamento de ativos russos sob jurisdição britânica.

Em discurso no Parlamento, May afirmou que o Reino Unido não tem conflitos com a população russa, mas reforçou que o presidente russo Vladimir Putin "tem postura agressiva contra nossos valores". Ela afirmou que nenhum outro país, a não ser a Rússia, teria a “capacidade, a intenção e o motivo” para realizar o ataque.

Esta não é a primeira vez que ocorre um abalo nas relações entre os dois países. O governo do Reino Unido já foi criticado pela imprensa britânica e pela oposição de responder de maneira fraca a episódios suspeitos de atividade russa no país. O caso mais emblemático foi o assassinato, em 2006, de Alexander Litvinenko, ex-agente da inteligência russa e adversário de Putin.

Boicote diplomático ao redor do mundo

O Reino Unido também convocou seus aliados a tomarem medidas firmes em resposta ao envenenamento por arma química. Os primeiros a anunciar a expulsão de autoridades russas foram os EUA e membros da União Europeia --medida que já foi chamada por algumas pessoas como um indício de uma “Nova Guerra Fria”.

Até o fim de março, mais de 120 diplomatas russos foram expulsos ao redor do mundo. Além dos Estados Unidos, outros países seguiram as medidas de retaliação: Alemanha, França, Albânia, Canadá, Croácia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, Holanda, Hungria, Itália, Letônia, Lituânia, Noruega, Polônia, República Tcheca, Romênia, Suécia e Ucrânia.

Somente o governo norte-americano vai expulsar 60 russos identificados como funcionários de inteligência, oficiais da embaixada e membros da Organização das Nações Unidas (ONU). O presidente Donald Trump também ordenou o fechamento do consulado geral russo em Seattle. Esta é a maior expulsão de agentes de inteligência russos da história dos EUA. 

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) também decidiu expulsar sete diplomatas russos e negar credenciais a outros três, explicou o secretário-geral da organização. "Isso manda uma mensagem clara à Rússia de que há custos e consequências para sua forma de atuar, inaceitável e perigosa", afirmou Jens Stoltenberg, o secretário-geral da Aliança do Atlântico Norte.

A reação russa e as armas químicas

A Rússia nega repetidamente qualquer envolvimento na morte do ex-espião. Para Moscou, o atentado poderia ser fruto de um ataque terrorista que Londres não soube evitar. O governo afirma que a pressão internacional se trata de uma campanha anti-russa, apoiada pela imprensa do Ocidente, com o intuito de difamar o país internacionalmente.

Sobre a expulsão de seus diplomatas, a Rússia diz que esse é um “gesto de provocação”. Como reação, o governo de Vladimir Putin também determinou a expulsão de diplomatas britânicos e tem falado sobre a possibilidade de fazer o mesmo com os demais países. Moscou ainda anunciou o fechamento do consulado estadunidense na cidade de São Petersburgo.

O governo russo declarou que a reação do Reino Unido foi inadequada, partindo direto para represálias, sem acionar organismos internacionais sobre armas químicas. O país também exige provas e relata que ainda não recebeu amostras da substância que envenenou o ex-espião para poder colaborar com as investigações.

Em 1997, a Rússia aderiu à convenção da Opaq (Organização para a Proibição das Armas Químicas). O país que adere ao tratado tem a responsabilidade de declarar suas armas químicas e comunicar suas características, quantidades e a localização das instalações de produção e armazenamento.

Desde estão, Moscou afirma que destruiu todos os seus estoques de armas químicas e seu cumprimento é monitorado pela Opaq. O país nunca declarou o agente tóxico Novichok e negou sua existência. Se for comprovado que os russos produziram em segredo uma série de agentes nervosos letais, isso seria uma grave violação de seus compromissos internacionais.

Existem rumores de que a Rússia não aja com transparência. Segundo o cientista e dissidente soviético Vil Mirzayanov, o país conserva "dezenas de toneladas" do agente tóxico Novichok em suas reservas de armas químicas não declaradas. Em 1990, o cientista ficou famoso por divulgar experimentos secretos russos.

Reeleição de Vladimir Putin

O episódio do envenenamento aconteceu em meio ao contexto das eleições presidenciais na Rússia. As eleições russas ocorreram no dia 18 de março e o resultado foi a vitória esmagadora do presidente Vladimir Putin, que governará a Rússia até 2024.

Putin está no poder desde 1999. Quando não foi presidente, ele foi primeiro-ministro.  Durante a Guerra Fria, Putin foi um agente da KGB, o serviço secreto russo. Ele subiu ao posto de presidente após o governo Boris Yeltsin (1991-1999). Naquela época, a União Soviética havia se desintegrado e a Rússia saiu da Guerra Fria enfraquecida.

Putin é reconhecido por aquecer a economia em seus primeiros mandatos, permitindo a abertura de mercados, o crescimento das indústrias e um aumento da qualidade de vida. Esse é um dos motivos que o faz ser um presidente extremamente popular.

Apesar da economia ter registrado queda nos últimos anos, o país ainda é uma potência, sobretudo pelo tamanho de seu território e de suas reservas de petróleo e gás natural.
Com Putin, a política externa russa também se mostrou mais expansionista e agressiva. Em 2014, a Rússia realizou a anexação da Crimeia, o que provocou um conflito com a Ucrânia. Os russos também aumentam sua influência no Oriente Médio, com protagonismo decisivo na luta contra o Estado Islâmico no conflito da Síria.

A atuação do presidente é cercada de polêmicas. A oposição o acusa de despotismo, de manobrar as eleições, corrupção e de violação de direitos humanos. Apesar disso, ela ainda não consegue ter forças para tirá-lo do poder.

A Copa do Mundo

Em 2018, o mundo estará de olho na Rússia por um outro motivo: a Copa do Mundo. Em junho deste ano, a Rússia vai sediar a próxima Copa do Mundo e analistas avaliam que o evento será uma oportunidade para Putin mostrar uma imagem positiva do país.

Com o episódio do envenenamento do ex-espião russo, a Islândia anunciou boicote diplomático da Copa do Mundo da Rússia. “O ataque de Salisbury constitui uma violação grave do direito internacional e ameaça a segurança e a paz na Europa", diz um comunicado da diplomacia islandesa.

Apesar da polêmica, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unidos, Boris Johnson, declarou que o boicote diplomático britânico à Copa do Mundo da Rússia não afetará a participação da Inglaterra no evento.

"Não temos planos de boicotar a Copa do Mundo pela equipe da Inglaterra. Essas coisas, em primeiro lugar, são decididas pela Associação de Futebol, e, por outro lado, ninguém quer punir os torcedores ingleses", afirmou Johnson.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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