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Preconceito: a supremacia branca e o racismo nos EUA

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Reuters

Uma marcha de manifestantes nos Estados Unidos provocou indignação em todo o mundo. Em agosto, centenas de pessoas caminharam à noite, na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia. Elas levavam tochas nas mãos e gritavam palavras de ordem contra imigrantes, negros, homossexuais e judeus. Muitos foram vistos usando uniformes militares e carregando armas.

Com a promessa de “Unir a Direita”, o ato foi organizado por grupos nacionalistas e de extrema direita dos EUA, com a Ku Klux Klan. Os manifestantes gritavam frases e slogans como “Vidas brancas importam” e “Vocês não vão nos substituir”, em referência aos imigrantes. Houve também demonstrações de orgulho nazista, com símbolos da suástica de Adolf Hitler.

Como reação, grupos de defesa dos direitos civis organizaram um protesto antirracismo. No conflito entre manifestantes opostos, um extremista de direita atropelou um grupo de pessoas, o que resultou na morte de uma mulher. Logo após o ataque, a cidade entrou em estado de emergência.

Mas como a pequena cidade de Charlottesville se tornou palco desse episódio violento? Este ano, a prefeitura da cidade decidiu retirar uma estátua do general Robert E. Lee (1807-1870) e remover outras homenagens a líderes confederados em locais públicos.

Como protesto, grupos de direita decidiram se organizar em um grande ato. Essa não é a primeira vez que algo parecido acontece. Existe um movimento dos EUA para pressionar as cidades a retirar a bandeira e símbolos dos Confederados de espaços públicos, o que tem provocado grande polêmica e críticas no Sul do país.

Após o episódio de Charlottesville, o presidente Donald Trump pronunciou-se em um comício para condenar o racismo e as organizações extremistas. “Aqueles que provocaram a violência em seu nome são criminosos e bandidos, inclusive a Ku Klux Klan, os neonazistas, os supremacistas brancos e outros grupos que disseminam o ódio e são repugnantes a tudo que prezamos como americanos”.

Os Confederados e a Guerra de Secessão

Mas quem são os Confederados? O termo surgiu na Guerra Civil Americana (1861-1865), ou Guerra de Secessão. A guerra civil foi marcada pelas diferenças políticas e econômicas entre as regiões Norte (industrial) e Sul (agrária). Os representantes do Norte eram abolicionistas. Já os sulistas defendiam a livre adoção do escravismo, base do sistema de plantation.

A guerra surgiu quando vários estados sulistas que defendiam a escravidão se uniram e declararam sua separação do resto do país, criando os “Estados Confederados da América”.  Do outro lado, estava a “União”, representada pelos demais estados.

Os Confederados foram derrotados, mas sua bandeira ainda é usada por pessoas que alegam que ela representa a cultura e a história sulista. Após vencer a guerra, os estados do Norte implementaram uma agenda liberal e de abertura de direitos civis, o que previa eleições multirraciais.

No Sul, a Guerra deixou milhares de mortos e fez a economia estagnar. Muitas famílias de aristocratas perderam suas fortunas. Com o fim da escravidão, a região não conseguiu um modelo que pudesse substituiu a mão de obra escrava de forma rápida. Muitas cidades entraram em declínio e a pobreza aumentou. Em parte da sociedade sulista, ficou um sentimento de nostalgia dos “bons tempos”.

Hoje muitos condados e órgãos públicos de estados do Sul ainda exibem a bandeira dos Confederados, símbolo de orgulho e homenagem aos soldados mortos na guerra. Para os críticos, a bandeira é um verdadeiro símbolo racista, já que o movimento era a favor da escravidão. O argumento tem fundamento. Já na segunda metade do século 20, a bandeira começou a ser adotada por defensores da segregação racial nos EUA, como a Ku Klux Klan (KKK).

A Ku Klux Klan

A mais lendária organização de supremacia branca nos EUA é a Ku Klux Klan, que chegou a ter mais de quatro milhões de afiliados. Sua origem remonta ao final do século 19, após a Guerra Civil. Ela foi fundada em 1865, no estado do Tennessee, como um clube social que reunia soldados veteranos confederados. Mas era preciso ser branco, americano e cristão protestante para entrar.

Com o fim da escravidão, havia um sentimento dos homens brancos de que os negros eram uma ameaça - estavam livres e com poder de organização. Alguns fazendeiros passaram a acreditar que era preciso defender as propriedades dos “novos inimigos” e trabalhadores temiam a perda de seus postos. Progressivamente, a KKK começou a atuar com o objetivo de restaurar a supremacia branca.

Muito mais do que um clube, a organização passou a realizar atos de ódio contra os negros. O episódio mais marcante aconteceu em 1873, quando uma milícia de 300 homens invadiu a cidade de Colfax, na Louisiana. Eles cercaram a cidade, que tinha uma população majoritariamente negra. A população foi massacrada.

Os membros da KKK adotaram capuzes brancos e túnicas brancas. Era comum o grupo aparecer a cavalo durante a madrugada, segurando tochas nas mãos para “julgar” suas vítimas. O vestuário escondia a identidade, mas também tinha outro objetivo: os membros queriam ser vistos como fantasmas de soldados confederados, uma imagem que poderia ser assustadora, especialmente dentro de uma comunidade supersticiosa. 

A partir de 1870, o governo americano decidiu reprimir a organização. Em 1882, a Suprema Corte do país declarou a Ku Klux Klan inconstitucional. Mas seus seguidores continuaram a se encontrar clandestinamente. Ela ressurgiu em 1915 e ganhou bastante adesão, conseguindo eleger políticos, xerifes e juízes. Além dos negros, os imigrantes, judeus e católicos passaram a ser alvo do discurso de ódio.

Ao longo de sua existência, a KKK promoveu uma verdadeira “caçada” à população negra. O auge foi durante a década de 20. Centenas de pessoas foram perseguidas, linchadas, espancadas e mortas pelo grupo. Um dos maiores símbolos da barbárie foram os enforcamentos, com as vítimas penduradas em árvores. Daí vem a imagem dos “frutos estranhos”, cantados na canção “Strange Fruit”, imortalizada pelas cantoras de jazz Billie Holliday e Nina Simone.

A Ku Klux Klan ainda existe, mas sua atuação é relativamente pequena se comparada ao início do século 20. Ela perdeu a credibilidade após uma série de processos criminais e brigas internas. Mas segundo uma pesquisa do Instituto Southern Poverty Law Center, ela está crescendo e hoje teria entre 5 mil e 8 mil membros.  Outros militantes da supremacia branca também ganharam destaque como o Nação Ariana e o Partido Nazista Americano, pautados pela ideologia nazista.

O que estaria por trás desse crescimento? Nas últimas décadas, novos grupos de direita surgiram, criticando o intenso fluxo de imigração e a perda de postos de trabalho para não-americanos. Além disso, são contra a conquista de direitos de negros, mulheres e a população LGBT. Grupos de supremacia branca estariam ainda preocupados com as mudanças demográficas dos Estados Unidos. Existe um estudo que indica que os brancos se tornarão uma minoria em 2050.

A liberdade de expressão é considerada um direito sagrado nos Estados Unidos. Apoiados pela Primeira Emenda da Constituição americana, a existência desses grupos não pode ser proibida por decisões judiciais.

Apoio de grupos extremistas a Trump

A eleição de Donald Trump é vista por analistas como um fator que motivou o fortalecimento dos grupos conservadores. Apesar de Trump criticar a atuação de extremistas no episódio de Charlottesville, organizações de direita apoiaram o discurso nacionalista do republicano durante as últimas eleições. Eles enxergaram em Trump a chance de reverter as conquistas em igualdade racial feitas pelo governo do democrata Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA.

Na época da corrida eleitoral, Trump usou o slogan “Tornar a América grande novamente” e prometeu a deportação em massa de imigrantes ilegais e a construção de um muro na fronteira com o México. O jornal oficial da KKK chegou a dizer que "Trump quer fazer a América ser grandiosa de novo. O que a fez assim em primeiro lugar? A América foi grandiosa não pelo que nossos antepassados fizeram, mas pelo que eram. Uma República Cristã Branca".

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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