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Mudanças históricas em Mianmar: Primeiro presidente civil é eleito após 54 anos de regime militar

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

  • Aung Shine Oo/AP

    Htin Kyaw (esq.), eleito presidente de Mianmar, caminha ao lado de Aung San Suu Kyi, líder do movimento pela democracia

    Htin Kyaw (esq.), eleito presidente de Mianmar, caminha ao lado de Aung San Suu Kyi, líder do movimento pela democracia

Quando se pensa em Mianmar (antiga Birmânia), a primeira imagem são os suntuosos pagodes, templos budistas históricos que representam a principal doutrina religiosa do país. Mas se engana quem pensa que o país de 54 milhões de habitantes é um oásis de tranquilidade. Ele é um dos mais pobres da Ásia e do mundo e vive uma guerra civil há décadas. 

A complicada história política de Mianmar é como uma gangorra de altos e baixos. Mianmar é uma ex-colônia britânica e sua independência foi negociada em 1948 com a Grã-Bretanha. Em 1962, um golpe comunista depôs o governo civil e instaurou um regime militar que perdurou até 2016.

Em março deste ano aconteceram eleições presidenciais e o intelectual Htin Kyaw (membro do partido LND) foi empossado como presidente de Mianmar após 54 anos de governo militar. Ele sucede Thein Sein, um antigo general que estava à frente do poder desde 2011. O resultado representa um passo importante no processo de redemocratização do país e um momento histórico: o primeiro governo civil em décadas.

Htin Kyaw prometeu trabalhar pela reconciliação nacional, lutar para alcançar a paz com rebeldes étnicos e melhorar a vida da população. O novo presidente terá a missão de promover grandes reformas, começando pela educação, a saúde e os serviços públicos.

Carismática, Aung San Suu Kyi é a maior líderança política

Essa eleição também representa uma vitória da líder política Aung Suu Kyi, a birmanesa mais famosa do mundo e estandarte da democracia no país. No governo recém-eleito, Aung San Suu Kyi será a ministra das Relações Exteriores e chefe da presidência, tendo grande influência no governo. O presidente eleito é um antigo aliado dela.

Aung San Suu Kyi (pronuncia-se Aung San Sú Tchi) é considerada a mais carismática e a maior liderança política do país. Em 1991 ela ganhou o Nobel da Paz por sua luta em prol da democracia e dos direitos humanos. Ela foi prisioneira política, tendo sido libertada em 2010 após mais de 15 anos de prisão domiciliar. Nesses anos, trabalhou como ativista para alertar o mundo sobre o que acontecia no país.

Sua história na política começou na família. Ela é filha do general Aung San, herói da independência do Mianmar. Seu pai morreu quando ela tinha oito anos, assassinado pouco tempo depois de ele ter negociado acordos de paz com as diversas etnias do país e a independência da Inglaterra.

Em 1988, aconteceram fortes protestos da população, que buscava mudanças políticas e estavam insatisfeitos com uma das mais cruéis ditaduras do mundo. As manifestações foram suprimidas com extrema violência e deixaram um saldo de três mil mortos em poucos dias de revolta. Em uma medida nacionalista e impopular, os militares trocaram o nome do país de Birmânia – tradução do inglês burma, como os colonizadores chamavam a etnia local dominante – para o atual, Mianmar, como o país é chamado na língua birmanesa.

Aung San Suu Kyi, que estudou e casou na Inglaterra, estava no país por sorte. Ela havia ido visitar a mãe em Yangon (antiga capital do país). Na época ela fez discursos acalorados em repúdio aos militares e foi ovacionada pela população.

Na tentativa de acalmar os ânimos dos birmaneses, em 1990 os militares promovem eleições diretas, na qual eles esperavam ganhar. Aung San Suu Kyi foi candidata e seu partido, National League for Democracy (NLD), conseguiu 55% dos votos. Os militares não reconheceram o resultado das eleições e prenderam a líder política.

Em 2007 houve a chamada “revolução açafrão”, quando as pessoas foram novamente às ruas protestar contra as medidas arbitrárias do governo (a prisão de Aung San Suu Kyi, inclusive) e sofreram outra repressão violenta. Mas, em 2008, o referendo para uma nova e democrática constituição foi realizado, dando o primeiro passo para uma reforma política. 

O problema é que a constituição proibia que mães de filhos estrangeiros, ou de dupla nacionalidade, disputassem a presidência. Um artigo que parecia sob medida para impedir que Suu Kyi chegasse ao poder. Ela é mãe de dois meninos que nasceram em Londres, fruto do casamento com um acadêmico britânico falecido em 1999. A lei impediu os planos dela de assumir a presidência.

Guerra Civil e Ditadura

Mianmar está em guerra civil desde que se tornou independente, em 1948. O país é composto por um mosaico de povos, com 145 etnias. Cerca de 70% da população atual é autodenominada "birmanesa" e mantém com os restantes grupos étnicos constantes conflitos e choques inter-raciais.

A maioria birmanesa enfrenta dezenas de outros grupos menores que habitam as zonas montanhosas fora do centro do território nacional e que mantem atividades de guerrilha e grupos separatistas.

O conflito civil foi um pretexto para a manutenção do regime de ditadura durante todos esses anos. A estabilidade interna hoje depende da atuação de militares, que ainda detêm um grande poder político e econômico no país.

Carolina Cunha

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