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Malvinas - Guerra entre argentinos e ingleses no Atlântico Sul

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Em 2 de abril de 2007, uma estranha comemoração ocorreu na cidade de Ushuaia, a capital da província da Terra do Fogo, na Argentina. Comemorava-se a fracassada invasão que aquele país promoveu às ilhas Malvinas/Falkland, 25 anos antes. Ao mesmo tempo, reafirmava-se a disposição argentina de retomar, agora por meios diplomáticos, essas ilhas, que são um território administrado pelo Reino Unido desde 1833.

Deixando de lado qualquer juízo de valor acerca da reivindicação argentina sobre as ilhas Malvinas, que se localizam a 483 km de seu litoral sul, a história da Guerra das Malvinas merece de fato ser rememorada, pois ela encerra várias e importantes lições políticas, tanto em âmbito nacional quanto internacional.

Em termos nacionais, a Argentina de 1982 vivia sob uma ditadura militar, estabelecida por um golpe de Estado em 1976. O regime já estava desgastado, especialmente pela crise econômica a que arrastara o país. Nesse sentido, o ataque às ilhas foi uma forma de estimular o nacionalismo dos argentinos, angariando simpatias ao governo do general Leopoldo Galtieri e canalizando os descontentamentos para um inimigo externo, no caso os ingleses.



Margaret Thatcher: A Dama-de-Ferro

A princípio, as ilhas eram um alvo fácil, pois não contavam com forças defensivas e a ocupação foi um verdadeiro piquenique. O que os militares argentinos não esperavam era que o Reino Unido, embora também enfrentasse problemas econômicos e na política interna, resolvesse revidar o ataque e lutar pelo que considerava um direito seu.

Na época, o país era governado por Margaret Thatcher, a chamada Dama-de-Ferro, que já havia enfrentado uma ferrenha resistência interna, para retirar, com medidas duríssimas, a Inglaterra da crise em que vivia. Ela simplesmente não demonstrou o menor receio de recorrer a uma reação armada e despachou de imediato as poderosas forças navais britânicas para o Atlântico Sul.

Resultado: dois meses depois, em 14 de junho, a bandeira do Reino Unido ou Union Jack tremulava sobre a cidade de Stanley, a capital das ilhas Falkland (como os ingleses chamam as ilhas Malvinas). Nos combates navais e aéreos, morreram 649 argentinos e 258 britânicos. Mas isso não foi tudo: a derrota militar acabou com qualquer prestígio da ditadura argentina, que enviou jovens recrutas mal equipados para um lugar inóspito, onde enfrentaram forças armadas bem preparadas e altamente profissionais.



Democracia e diplomacia

Além disso, diversos escândalos de desvios de recursos vieram à tona, deixando claro que muitos comandantes argentinos estavam mais preocupados em se aproveitar da guerra para obter vantagens pecuniárias no âmbito pessoal. O governo Galtieri caiu e o general Reynaldo Bignone assumiu provisoriamente a presidência do país, até o restabelecimento da democracia no ano seguinte, com a eleição direta do presidente Raul Alfonsín.

No campo das relações internacionais, o episódio veio mostrar a relatividade do valor dos tratados e acordos entre as nações quando explode uma guerra. Obrigado pelo Tratado Interamericano de Assistência Recíproca a dar suporte militar à Argentina, os Estados Unidos não só deixaram de fazê-lo, como abasteceram os ingleses com informações militares. O Chile, sob a ditadura de Augusto Pinochet, também colaborou com os esforços de guerra britânicos, por conta de uma disputa territorial que alimentara com os argentinos, em 1978.

Um caso ainda mais escabroso é o francês. A França era o país que havia vendido às forças armadas argentinas os mísseis Exocet, de sua fabricação. No entanto, por fazer parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte, um pacto militar norte-americano e europeu, ela forneceu aos ingleses os códigos que permitiam desviar os mísseis de seus alvos, assim que o primeiro Exocet afundou uma embarcação inglesa.



Neutralidade do Brasil

Já o Brasil, sob o governo do general João Batista Figueiredo, esforçou-se para manter a neutralidade - o que o inclui no mesmo caso dos Estados Unidos, uma vez que também se tratava de um país signatário do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. Verdade seja dita, contudo: teria sido uma loucura embarcar na fracassada aventura militar argentina.

No âmbito internacional, também, é interessante ressaltar como certos aspectos simbólicos podem suplantar fatos: a vitória da seleção Argentina e contra a Inglaterra, na Copa do Mundo do México, em 1986, foi visto pelos argentinos como uma verdadeira revanche da guerra no Atlântico sul. Considerou-se o 2 a 1 sobre o time inglês como uma indenização moral pela derrota nas armas, quatro anos antes.



Grandes navegações

Compreender a disputa anglo-argentina pelas Malvinas/Falkland, porém, envolve voltar a um passado mais remoto, ao fim da era das Grandes Navegações. Em 1690, o navegador inglês John Strong tomou posse das ilhas, e batizou-as com o nome do patrocinador de sua expedição, o visconde de Falkland. No entanto, os ingleses não se fixaram no território, que foi ocupado por franceses, originários de um porto na Bretanha (oeste da França), chamado Saint-Malo.

Vem daí o nome îles Malouïnes, que depois virou Malvinas, quando o Reino da Espanha as adquiriu da França, em 1766. Dos espanhóis, que também não se preocuparam em ocupar e colonizar a região, os argentinos herdaram as ilhas, ao se tornarem independentes, em 1816.

Em 1833, porém, a Inglaterra, que era a maior potência colonial do planeta, resolveu ocupar as ilhas, que estavam abandonadas, valendo-se de seu poderio militar. Desde então as Falkland/Malvinas pertencem ao Reino Unido e são reclamadas pela Argentina. Diante dessa pendência secular, nada mais natural que você se pergunte: mas o que faz dessas ilhas um local tão cobiçado?



As ilhas Malvinas

Por incrível que pareça, quase nada. O território possui um clima gélido e um solo rochoso, formado de colinas, montanhas e planícies onduladas. Pinguins fazem parte da fauna nativa. Fala-se em grandes reservas petrolíferas, mas elas nunca foram encontradas. Assim, sua economia baseia-se na pesca, na criação de carneiros (para consumo da carne e exportação da lã) e, mais recentemente, no ecoturismo.

O arquipélago das Falkland/Malvinas compõem-se de duas ilhas maiores e por volta de duzentas ilhas menores. Embora o chefe de Estado seja a rainha Elizabeth 2ª e o território tenha um governador por ela nomeado, a chefia do Executivo é exercida por um membro indicado do Parlamento local, eleito diretamente pela população.

Portanto, para o Reino Unido, trata-se de afirmar seu passado e dar apoio aos cerca de 3 mil habitantes da ilha, todos de origem britânica e falantes do inglês (consta que a maior parte deles tem árvore genealógica que remonta ao século 19). Já para os argentinos, trata-se mais de uma questão de orgulho nacional e da proximidade das ilhas em relação ao seu território continental.

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