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Guerra na Síria: cessar-fogo tenta negociar fim do conflito após cerco em Aleppo e morte de embaixador russo

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • AFP

    17.dez.2016 - Homem sírio aponta para os destroços de um mercado destruído durante o conflito de Aleppo

    17.dez.2016 - Homem sírio aponta para os destroços de um mercado destruído durante o conflito de Aleppo

Pontos-chave

  • Aleppo, a segunda maior cidade síria, era controlada por rebeldes na guerra civil da Síria. A retomada da cidade é um importante avanço estratégico para o presidente sírio Bashar al-Assad.
     
  • As tropas do presidente cercaram Aleppo, confinando seus moradores. Casas foram invadidas e muitos civis foram mortos.
     
  • O cerco gerou uma crise humanitária e a ONU teme um massacre e a morte em massa de civis. A retirada de moradores foi negociada ao longo de dezembro.
     
  • No dia 19 de dezembro, logo na sequência da retirada em massa de civis de Aleppo, um policial matou a tiros o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov. Antes de efetuar os disparos, o policial turco disse agir como vingança pela tragédia da cidade de Aleppo, que voltava às mãos de Assad com apoio bélico do governo russo.

Rússia e Turquia tentam costurar um acordo de cessar-fogo entre o governo sírio e os rebeldes. A Rússia apoia as tropas de Bashar al-Assad.

Após cinco anos de conflitos, a guerra civil na Síria teve mais um episódio marcante: a retirada de civis de Aleppo, a segunda maior cidade do país e que hoje está praticamente em ruínas devido a explosões, bombardeios, confrontos e embates civis. Nos próximos dias, é esperada a vitória de Bashar al-Assad em Aleppo.

Aleppo tornou-se um símbolo do conflito. Desde setembro de 2015 a cidade é disputada entre as forças sírias, apoiadas pela Rússia, e rebeldes opositores ao governo do presidente Bashar al-Assad.

A estratégia das forças do governo é fazer um cerco à cidade, com apoio aéreo russo. Desde 15 de novembro a ofensiva do regime avança de forma acelerada, visando o controle total dos bairros.

Dentro do atual cenário, a retirada dos civis confinados era algo positivo, já que pontos da cidade controlados pelos rebeldes estavam cercados pelas forças militares, impedindo o acesso da população a suprimentos essenciais como água, comida e remédios.

Antes desse bloqueio e do cessar fogo para a retirada dos civis, o governo do presidente Bashar al-Assad colocou em prática o plano de retomada da cidade, sem no entanto, evitar atos bárbaros, considerados crime contra a humanidade. A ofensiva aconteceu entre 27 de novembro e 9 de dezembro.

Casas foram invadidas e moradores foram executados à queima-roupa. Há relatos de abusos sexuais por parte dos militares, boatos de que mulheres cometeram suicídio e mataram as próprias filhas para fugir da violência, além de bombardeios indiscriminados. O conselheiro da ONU para a Síria, Jan Egeland, falou em “massacre de civis desarmados, de homens jovens, de mulheres, de crianças, de funcionários de saúde”, que poderiam ter sido cometidos pelas forças do governo ou milícias que apoiam Assad.

A questão foi novamente parar na ONU para que uma retirada “pacífica” de civis fosse negociada. A retirada aconteceu a partir do dia 14 de dezembro, mas novos confrontos bélicos entre militares e manifestantes quebraram o cessar-fogo. Depois, no dia 18, dois ônibus que realizavam a retirada da população foram atacados, paralisando novamente o processo.

Houve uma fuga em massa. Mais de 20 mil pessoas foram retiradas dos redutos rebeldes de Aleppo e levadas para bairros controlados pelos opositores do governo. A retomada da cidade representa a maior vitória de Assad desde o início da guerra em 2011, que deixou mais de 310 mil mortos e provocou o deslocamento de metade da população do país.

No entanto, o conflito no país continua repercutindo no mundo. No dia 19 de dezembro, logo na sequência da retirada em massa de Aleppo, um policial matou a tiros o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, em uma galeria de arte em Ancara. O crime foi cometido na frente de jornalistas, visitantes e câmeras que registravam o discurso do embaixador. Antes de efetuar os disparos, o policial turco disse agir como vingança pela tragédia da cidade de Aleppo, que voltava às mãos de Assad com apoio bélico do governo russo.

Para especialistas e representantes dos governos russo e turco, o incidente poderia colocar mais obstáculos na geopolítica da guerra da Síria. Os dois países estão de lados opostos no tabuleiro: a Rússia dá apoio incondicional a Assad, enquanto a Turquia defende uma reação mais controlada do governo sírio para evitar mais mortes e chegou a oferecer treinamento aos rebeldes.

Para a surpresa de muitos, os dois países se uniram para acordar um cessar-fogo entre o governo sírio e os rebeldes a partir da meia-noite do dia 30 de dezembro, a ser seguido por negociações de paz. O objetivo do acordo, segundo divulgaram os governos russo e turco, é conseguir uma solução em concordância com a resolução 2254 do Conselho de Segurança da ONU.

Aprovada por unanimidade em dezembro de 2015, a resolução 2254 deu à ONU um papel reforçado na promoção do diálogo entre os lados opostos e nas negociações de uma transição política, endossando um calendário para o cessar-fogo, para uma nova Constituição e para eleições.

O maior problema da guerra da Síria hoje é que não se trata apenas de rebeldes x forças do Exército sírio. Em cinco anos, o conflito se multiplicou e envolve centenas de grupos armados: forças do governo sírio, rebeldes, curdos, radicais islâmicos e potências estrangeiras. De um lado, Rússia e Irã apoiam o governo da Síria. De outro, os Estados Unidos e países europeus apoiam os rebeldes que buscam derrubar Assad. Talvez a única coisa em comum entre todos esses grupos seja a resistência ao Estado Islâmico.

Tudo isso é um grande obstáculo a ser vencido na hora da negociação de um amplo acordo de paz. Afinal, é preciso que todos os lados decidam pela paz, deixando seus interesses individuais em segundo plano. Resta saber se isso será possível ou se a sangrenta guerra na Síria ainda terá vida longa.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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