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Geografia: minérios criados pela atividade humana indicam nova era geológica

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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Uma espécie mineral é definida como um conjunto de partículas cristalinas que surgem naturalmente na crosta terrestre e têm uma combinação única de estrutura atômica e compostos químicos.  

Um levantamento do Instituto Carnegie (USA) revelou que dos 5.208 tipos de minerais que são reconhecidos pela Associação Mineralógica Internacional, 208 não ocorrem espontaneamente na natureza. A maioria teve origem na mineração, pela ação do fogo e da água em túneis subterrâneos, depósitos de minério ou em minas de água e tubulações.  Surgiram após a Revolução Industrial como consequência direta ou indireta da atividade humana.

A abhurita foi encontrada nos destroços de um navio do século 19 na costa da Inglaterra. Ele carregava lingotes de estanho, que em contato com a água do mar formaram um novo mineral. A andersonita é amarelo-fluorescente e nasceu em túneis de minas de urânio na América do Sul. A calclacita surgiu do contato de minerais guardados em gavetas de um museu com a madeira dos móveis. E a chalconatronita apareceu em relíquias arqueológicas do Antigo Egito. Na lista de novos minerais ainda estão a bluelizardita, a fluckita e a akokinosita, fruto de combinações químicas raras.

Para Robert Hazen, um dos autores da pesquisa, estamos vivendo em um mundo sem equivalente em evolução mineral. “Vivemos em uma era de diversificação de compostos inorgânicos sem paralelo”. Os cientistas acreditam que o descarte de resíduos sólidos como pilhas e lixo eletrônico também deve formar novos minerais ainda não conhecidos.

Marcas do Antropoceno 

Formações rochosas, depósitos de sedimentos, fósseis de animais. As marcas, no conjunto de elementos de uma paisagem, revelam de que maneira, com que velocidade e em que período ou era geológica os fenômenos da natureza promoveram transformações em determinado local da superfície terrestre.

Muitos eventos da natureza provocam mudanças nas paisagens. É o caso das chuvas fortes, das erupções vulcânicas, dos terremotos e da queda de meteoros do espaço. Mas qual seria o impacto dos seres humanos? Até metade do século 20, a maioria dos geólogos afirmava que o homem não teria papel significativo sobre a dinâmica do planeta, se comparado aos processos geológicos naturais. 

Hoje é cada vez maior a crença de que a ação coletiva do ser humano deixa marcas profundas na Terra. Ela seria uma verdadeira força geológica. Para os cientistas do Instituto Carnegie, a explosão inédita de minerais é uma prova sólida de que a Terra está no Antropoceno, uma nova época geológica.

Em 1870, o geólogo italiano Antonio Stoppani propôs que o ser humano introduziu uma nova época na biosfera, que ele chamou de Antropozoica. Poucos cientistas o levaram a sério. Em 2001, o químico holandês Paul Crutzen popularizou o termo Antropoceno, que vem do grego “Anthropos” (homem) e “cenos” (novo).

O Antropoceno indica uma mudança dramática do planeta causada pelo impacto da ação humana. A humanidade já remodelou mais de 75% da superfície do planeta em terra cultiváveis, lugares povoados e áreas industriais.

O reconhecimento do Antropoceno ainda não é um consenso na comunidade científica. Alguns geólogos argumentam contra a definição do conceito porque ele seria um intervalo de tempo muito curto se comparado aos milhões de anos de outras épocas geológicas.

A história geológica da Terra se estende por 4,5 bilhões de anos. A era atual é quase um traço nessa extensa linha do tempo. Oficialmente vivemos no Holoceno, período iniciado há pouco menos de 12 mil anos, após a última Idade do Gelo. O Holoceno é caracterizado pelo fim das glaciações. As temperaturas mornas ou quentes representaram uma janela de estabilidade climática na Terra e favoreceram o desenvolvimento do homem, da agricultura e das civilizações.

Para o grupo de Trabalho sobre o Antropoceno da União Internacional de Ciências Geológicas, a ação humana modificou a paisagens de todos os continentes e tem se tornado uma força geológica comparável aos vulcões, com participação na formação dos diferentes tipos de rochas existentes. 

A Grande Aceleração

O fenômeno da interferência geológica humana teria se intensificado a partir da Segunda Guerra Mundial.  Bombas e usinas nucleares espalharam traços de radioatividade na atmosfera e superfície da Terra. A industrialização, o crescimento populacional, a busca por fontes energéticas, a economia e o consumo global de produtos aceleraram a escala do impacto do homem na biosfera.

Na agricultura, o agronegócio faz uso intenso de produtos químicos como o DDT, fertilizantes nitrogenados e inseticidas. Nos oceanos, os resíduos plásticos já formam extensas ilhas artificiais de lixo. A mineração em larga escala e a ocupação humana modificam o relevo e o solo.

No clima, a queima de combustíveis fósseis provocou o aumentou dos gases de efeito estufa, causa do aquecimento global.  O gelo polar e das geleiras continentais guardam bolhas de ar com níveis de dióxido de carbono (CO2) muito acima dos encontrados em tempos anteriores, subindo gradualmente com o início da Revolução Industrial.

Quando pensamos na superfície do planeta, os geólogos chamam essa forte pressão do homem sobre o meio ambiente de “Grande Aceleração”.  Uma mudança que acontece num intervalo muito curto de tempo, se comparado aos milhões de anos que permitiram as transições de outras épocas geológicas.

O primeiro grande evento que marca a explosão da diversidade de minérios na história da Terra foi o aumento de oxigênio na atmosfera. A chamada” Grande Oxidação” começou há cerca de 2,3 bilhões de anos e deu origem a pelo menos dois terços das espécies já identificadas. Esse processo foi lento e gradual e não pode ser comparado à súbita explosão de diversidade de minerais que ocorreu nos últimos dois séculos.  As alterações físicas provocadas por interferência humana ficarão registradas permanentemente nas rochas e podem revelar aos geólogos do futuro uma transformação abrupta da Terra.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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