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Filosofia: o que significa utopia e distopia?

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • REUTERS/Eloy Alonso/File Photo

As tentativas de prever o futuro e imaginar uma sociedade ideal são tão antigas quanto a humanidade. As mais arcaicas formas de previsão aparecem em mitos e histórias relacionadas à espiritualidade de diversos povos e civilizações. No cristianismo, existe o Jardim do Éden, um paraíso perdido onde não havia o pecado. Outro exemplo é a lenda da ilha de Atlântida, cujos habitantes eram sábios.

Qual seria o mundo perfeito para você? Como a sociedade seria organizada para que todos fossem felizes? Quando alguém responde a essa pergunta, está falando de uma “utopia”, uma ideia de sociedade que foge do real e que seria melhor do que a existente.

A expressão foi inventada no século 16, com a publicação do livro A Utopia, do pensador inglês Thomas More (1478-1535). Sua etimologia vem das palavras gregas ou (não) e topos (lugar), o que significa “nenhum lugar”.

Naquela época, os europeus estavam descobrindo novos continentes e ficaram fascinados por possíveis terras fantásticas. More escreve sobre um viajante, que narra um lugar perfeito, a ilha de Utopia. Ela não tinha propriedade privada, diferenças sociais ou luxos excessivos, o que resulta em um estado de bem-estar entre os seres humanos.

A ideia de More de criar uma sociedade imaginária vem de uma tradição que remonta a Platão (427-347 a.C), que pode ser considerado o primeiro pensador utópico. Na obra "A República", o filósofo grego imagina uma cidade fundada verdadeiramente sobre os valores do bem e da justiça. O rei-filósofo faria a gestão da cidade a partir de seu conhecimento e do uso da razão.

Depois do livro de More, a palavra utopia foi usada em diversas narrativas literárias para designar comunidades perfeitas. Ela também aparece como pensamento filosófico. A utopia pode revelar as aspirações de uma sociedade e a busca pelo novo, a projeção dos desejos não plenamente satisfeitos de um lugar.

Na política, por exemplo, a utopia é usada para indicar ideologias, modelos ou projetos idealizados. Uma utopia política pode se referir a uma organização social que é considerada por seus pensadores como mais justa e boa se comparada à sociedade do presente.

Já foram considerados utopias modelos como o comunismo de Karl Marx (1818-1883), que propõe uma sociedade sem divisão de classes, e o anarquismo, que acredita em uma sociedade sem o Estado.

Utopia e Realidade

Como tornar o mundo melhor do que ele é? A utopia está sempre em oposição ao mundo real. Mas não apenas isso. O senso comum entende uma ideia utópica como algo que parece inalcançável.  A “utopia nos move eticamente na direção daquilo que talvez não possamos atingir, mas ela está lá no horizonte”, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva.

Embora não exista, a utopia poderia se tornar a realidade do amanhã. Isso porque em tese, ela pode acontecer, já que não podemos prever o futuro. Ou seja, não é apenas pensável, mas possível, depende apenas das condições e das decisões de nossa sociedade.

Um exemplo é o pensamento do filósofo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Seus ideais utópicos de organização do poder político, expostos em sua obra clássica, O Contrato Social, fundamentaram as doutrinas jurídico-políticas do Estado Moderno.

A cientista política Judith Shklar (1928 –1992) acreditava que a função da utopia não está em uma possível conversão sua em realidade, mas sim em servir de referência para o real, como uma ideia eu se opõe às condições de vida vigentes.  O desejo de felicidade em um mundo futuro seria uma forma de sonhar.

O ativista de direitos civis Martin Luther King (1929-1968) sonhava com uma sociedade com maior igualdade e harmonia. As passeatas e os discursos do norte-americano moveram o presidente Lyndon Johnson a assinar, em 1964, a Lei dos Direitos Civis, que pôs fim à segregação racial nos EUA.

Seu famoso discurso “I have a dream” (eu tenho um sonho) inspirou diversas gerações a combater o racismo e outras formas de opressão. Nele, King projeta uma utopia pessoal. “Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!”.

Mas a utopia também pode se transformar em algo negativo. A Revolução Francesa (1789-1799) foi baseada nos valores de “liberdade, igualdade e fraternidade” e buscava uma sociedade justa. Porém, após conquistar o poder, o partido jacobino perseguiu adversários e executou milhares de pessoas na guilhotina durante o período conhecido como Reino do Terror.

A distopia

Em 1868, o filósofo John Stuart Mill, num discurso no Parlamento popularizou o termo “distopia” para indicar o oposto da utopia. “O que é demasiadamente bom para ser tentado é utópico, o demasiado mau é distópico.” 

O século 20 foi marcado por uma contínua e acelerada mudança tecnológica e novas descobertas científicas. Mas também foi um período conturbado, um tempo que testemunhou duas sangrentas guerras mundiais e regimes totalitários violentos, como o Nazismo e o Fascismo, além de ditaduras militares.

Gêneros literários como a ficção científica se tornam populares a partir do século 20. Os escritores se voltam para os efeitos que as novas invenções poderiam ter sobre as nossas vidas cotidianas.

Enquanto escritores se vislumbravam com a possibilidade de a tecnologia aprimorar a humanidade, outros advertiam sobre as consequências graves de uma ciência usada para fins obscuros.

Diante das incertezas do futuro, um gênero literário se destaca – a distopia, uma forma de utopia negativa. O pessimismo dá o tom das narrativas, que mostram um mundo sombrio e pessimista, um futuro no qual ninguém gostaria de viver. 

Dois grandes clássicos são as obras 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley. Ambas refletem as questões políticas daquele tempo, como regimes totalitários e o mundo dividido em grandes blocos de pensamento ideológico.

O herói de 1984 é Winston, que vive em uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada um vive sozinho e ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão. Na obra de Huxley, vemos uma sociedade obrigada a ser feliz e que foge de qualquer conflito. Aqui, a busca por uma sociedade perfeita acaba  tendo resultados sombrios.  

Tanto a utopia quanto a distopia seriam reações ao presente.  Quando o presente não satisfaz, a pessoa projeta um futuro melhor ou um futuro pior. Segundo o filósofo Leandro Karnal, “a utopia sempre teve uma função essencial que é corrigir o tempo atual”.

A partir da década de 1990, os livros de romance distópicos ficaram ainda mais populares, especialmente entre os jovens. São centenas de narrativas que trazem heróis que precisam sobreviver em mundos totalitários e sem perspectivas. Será que estamos mais céticos e perdemos a crença absoluta e otimista em relação ao futuro?

A retrotopia

Após a falência das utopias do século 20, especialmente com a desagregação da União Soviética, o mundo se tornou um lugar mais “vazio” de ideologias políticas. Os grandes projetos de novas sociedades se perderam e a força da sociedade não é mais voltada para o alcance de um objetivo comum.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) acredita que vivemos o fim das utopias. Para ele, a nossa sociedade atual perdeu a noção de progresso como um bem que deve ser partilhado. Assim, busca-se o prazer individual e a melhoria da posição individual dentro da sociedade como principais objetivos de vida.

Nos últimos anos, desafios como as sucessivas crises econômicas, a precariedade do emprego, o desencanto com a política, o terrorismo, os conflitos multiculturais e o avanço do aquecimento global causam ainda mais dúvidas em relação ao amanhã. Mesmo a tecnologia passou a gerar desconfiança, já que teoricamente todos poderão ser substituídos por robôs.

Para Bauman, essa angústia faz com que percamos a esperança no futuro e busquemos a utopia no passado, mesmo que seja idealizado ou mitificado. Ele usou o termo “retrotopia” para explicar esse fenômeno. Dessa forma, ficamos com saudades do passado e de suas estruturas: governos fortes, governos nacionalistas, comunidades tribais, entre outros exemplos.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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