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Febre amarela: Brasil vive o maior surto da doença em décadas

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Folhapress

A febre amarela é uma doença que provoca infecção no corpo, não tem cura e pode ser fatal. Ela é causada por um vírus do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae. O contágio acontece pela picada dos mosquitos transmissores infectados.

O vírus da febre amarela existe no Brasil desde a colonização. Ele teria vindo da África, trazido por portugueses e africanos escravizados. A doença é endêmica em regiões tropicais da América Latina e da África, causando periodicamente surtos isolados ou epidemias. O risco de contágio é maior para quem entra em florestas ou vive em áreas onde a virose é comum.
Como surgiu o atual surto?

O Brasil vive um grande aumento de número de casos de febre amarela. Desde julho de 2017, foram confirmados 779 casos e 262 pessoas morreram em decorrência da enfermidade. Segundo o Ministério da Saúde, o país vive o maior surto da doença já registrado nas últimas cinco décadas. 

A maior área de risco da febre amarela é a Floresta Amazônica. No entanto, os locais de maior ocorrência de casos estão na região Sudeste, nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. 

Os recentes casos investigados pelo Ministério da Saúde indicam que os infectados foram expostos a áreas de matas ou zonas rurais. Segundo o órgão, o surto seria causado por uma maior circulação do vírus em áreas onde ele não era registrado há tempos. A falta de vacinação da população teria facilitado sua ampla dispersão.

Existem duas teorias principais para explicar a origem do surto: um humano infectado na Amazônia teria se deslocado em seguida para alguma região da Mata Atlântica e sido picado por outros mosquitos. Outra hipótese é a de que insetos que adquiriram o vírus na região Norte se deslocaram por florestas e rios até atingir o sul do país.

Qual a relação com o desastre de Mariana?

A degradação ambiental pode ser um fator de alastramento de uma doença. O desmatamento para o uso de lavouras ou pastagens, por exemplo, contribui para que animais silvestres portadores do vírus fiquem mais próximos a humanos.

Boatos que se espalham nas redes sociais relacionam o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), à disseminação da febre amarela. O maior desastre socioambiental do Brasil foi responsável por provocar um grande desequilíbrio ecológico e a morte em massa de animais.

O boato se espalhou após uma entrevista da bióloga Márcia Chame, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na qual ela atribui a explosão de contágios no Sudeste ao desastre de Mariana. Em nota, a Fiocruz nega essa hipótese. “Não há nenhum estudo da Fiocruz que comprove ou indique uma relação direta entre o rompimento da barragem e o surto de febre amarela”.

Uma mensagem que circulou no Whatsapp também reforçou o boato, com um texto atribuído a André Ruschi, biólogo falecido em 2016. O texto cita que o cientista teria visitado uma fazenda atingida pela lama. Na ocasião, ele perguntou a um funcionário se ele escutava sapos coaxando. Com a resposta negativa, teria recomendado “Então se preparem para um surto de febre amarela, pois sem peixes e sapos é inevitável isso acontecer”. Esses animais seriam predadores naturais de larvas de mosquitos e contribuiriam para evitar a proliferação de pragas.

Segundo o Ministério da Saúde, não existem dados para fazer a correlação entre o acidente e o rápido alastramento da doença. Para o órgão, o principal motivo do surto em Minas Gerais seria a falta de planejamento e a deficiência na cobertura da vacinação no estado.

O contágio urbano

O vírus da Febre Amarela apresenta dois ciclos epidemiológicos de transmissão, o silvestre e o urbano. No ciclo silvestre, os macacos são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus. Nas regiões de mata, os insetos dos gêneros Haemagogus e Sabethes picam macacos com a doença e podem passá-la a seres humanos nas redondezas.

Nas cidades, a transmissão pode ocorrer pelo mosquito Aedes aegypti (o mesmo que transmite a dengue e a zika). No ciclo urbano, o Aedes é infectado ao picar um humano doente e dessa forma, o mosquito pode passar o vírus para outro humano.

O contágio urbano é muito raro e desde 1942 não existe registro desse tipo de transmissão. No entanto, em fevereiro de 2018, foi registrado um possível caso da versão urbana da doença, com um paciente de São Bernardo do Campo (SP). A maior preocupação é que a epidemia possa se alastrar em locais de grande densidade populacional.

Os macacos transmitem a doença?

Os mosquitos silvestres Sabethes e Haemagogus moram na copa das árvores e preferem o sangue dos macacos. Muitos primatas acabam desenvolvendo a doença e se tornam vítimas fatais. 

Nos últimos meses, diversos macacos foram encontrados mortos por febre amarela em diferentes pontos da Mata Atlântica. No estado do Rio de Janeiro, biológicos temem que a doença provoque o desaparecimento dos bugios nas florestas fluminenses.

A teoria é que os primatas do Sudeste não desenvolveram anticorpos, pois a doença estava praticamente erradicada na região.

Macacos têm sido mortos não apenas em decorrência da febre amarela, mas também por pessoas que temem contrair a doença. No entanto, esses animais não são transmissores.
Os primatas são importantes para alertar sobre a circulação do vírus na região. Quando aparecem mortos por causa da febre amarela, as autoridades sanitárias recebem um sinal de alerta- a doença está perto demais, sendo necessário vacinar a população que vive próxima. Dessa forma, os sanitaristas podem traçar a “rota de viagem” do vírus.

Mas a desinformação pode se tornar uma tragédia. Além de não contribuir para frear a doença, a execução de macacos pela população constitui um verdadeiro crime ambiental. No início de 2018, dos 144 macacos mortos recolhidos pela Vigilância Sanitária e Controle de Zoonoses do Rio de Janeiro para testes de febre amarela, 69% foram executados - apresentavam várias fraturas ou veneno no organismo.

A vacina é segura?

A preocupação com a o crescente número de casos de febre amarela levou a população a formar filas quilométricas em postos de saúde nos estados mais afetados pela doença.

A vacina contra febre amarela é reconhecidamente eficaz e segura, sendo a principal ferramenta de prevenção e controle da doença. Uma vez aplicada, ela garante imunização por toda a vida.

A segurança da vacina é de 95%. Entretanto, reações adversas podem ocorrer. Uma em cada 400 mil pessoas pode ter efeitos colaterais como hemorragia, hepatite e falência hepática renal. Em casos extremos, pode levar à morte.

A vacina da febre amarela é produzida no Brasil desde 1937. Ela é constituída por vírus vivos atenuados. Ou seja, a substância contém uma dose ativa, porém enfraquecida do vírus que estimula o corpo a produzir anticorpos. 

Ela só garante imunização comprovada após dez dias da aplicação. Segundo os estudos, esse é o prazo confiável para que o próprio corpo produza anticorpos em níveis suficientes para debelar a doença.

A probabilidade de algo dar errado com a vacina é extremamente baixa, mas em grande escala, problemas sempre podem surgir. É por isso que o governo não promove vacinação em massa em lugares onde não há o alerta de perigo da febre amarela.

Nos últimos meses, há registro de alguns casos em que a vacinação resultou em morte. Essas fatalidades geraram na população o temor de que a imunização faça mal. Em pouco tempo, boatos se espalharam na internet afirmando que a vacina seria uma farsa ou seria perigosa.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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