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Evangelho de Judas - Publicação é objeto de estudos históricos

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

A divulgação do "Evangelho de Judas" - um manuscrito encontrado numa caverna no Egito em 1978 e cuja tradução foi concluída em 2006 por uma equipe de estudiosos patrocinados pela National Geographic Society - não é uma ameaça as crenças do cristianismo tradicional, nem traz novas revelações à história de Jesus Cristo, conforme ela é narrada nos Evangelhos do Novo Testamento. No entanto, ele levanta uma questão muito importante e normalmente relegada a segundo plano pelos currículos escolares de história.

As religiões, de um modo geral, e o cristianismo, especificamente, também têm uma história que pode ser estudada, independentemente de dogmas e crenças, sejam seus estudiosos religiosos ou não. A história do cristianismo, evidentemente, está ligada à personagem Jesus (em hebraico Yeshua-ben-Yoseph, Jesus filho de José), chamado por seus discípulos de Cristo (termo grego que significa o ungido, o sagrado, mas que também pode ser considerado a tradução do hebraico "messias", que quer dizer, o redentor, o salvador).

Jesus desconhecido
Se deixarmos de lado as fontes religiosas, pouco se sabe, efetivamente, sobre Jesus, enquanto personagem histórico. Supõe-se que tenha nascido entre 8 e 4 a.C. e morrido entre 29 e 36 d.C., devido a uma defasagem no calendário que utilizamos, que não computou um ano 0, e a inexistência de referências precisas.

Os textos de historiadores da antiguidade que se referem brevemente a Cristo são fundamentalmente o de Flávio Josefo (37-103 d.C), autor de "Antiguidades Judaicas", além de lacônicas citações dos romanos Plínio, o Moço (61-112 d.C), Tácito (56/57d.C, data de morte desconhecida) e Suetônio (70 d.C., morte desconhecida). Nenhum deles dá grande atenção a Jesus, apenas se referem a sua existência.

O mesmo vale para o cristianismo primitivo que se difundiu a princípio por meio dos 12 apóstolos, ou seja, dos discípulos que conviveram com Cristo, essencialmente como uma renovação do judaísmo. Saulo de Tarso, um judeu convertido ao cristianismo, que passaria à história (religiosa) como São Paulo, foi quem teve um papel decisivo em expandir a fé cristã para o gentio, isto é, os não-judeus.

Tradição e memória
Contudo, o que se sabe sobre esse período inicial do cristianismo encontra-se em boa parte envolvido mais em tradição e memória do que em história propriamente dita. Talvez não se possa nem falar na existência de um cristianismo, mas na existência de diversas seitas cristãs. A primeira tentativa de unificação das igrejas cristã e de criação de um corpo doutrinário tido como dogma - isto é, um ponto fundamental apresentado como certo e indiscutível - aconteceu no Concílio de Niceia, em 325 d.C.

Concílio ou sínodo é uma assembleia da Igreja para discutir questões doutrinárias ou administrativas. O Concílio de Niceia, que aconteceu nessa cidade, atualmente chamada Iznik, na Turquia, foi considerado o primeiro concílio ecumênico (do grego "oikumene", isto é mundial), que foi convocado pelo imperador romano Constantino I (Flavius Valerius Constantinus, 272-337 d.C.).

Edito de Milão
Este imperador acabou com a perseguição romana aos cristão e tornou o Império neutro em relação aos credos religiosos com o Edito de Milão (313 d.C.). Embora tenha se convertido ao cristianismo, não chegou a fazer dele uma religião do Estado romano. Mesmo assim, quis se aproveitar da influência crescente do cristianismo para ampliar o seu poder e, nesse sentido, convocou o Concílio, abriu-o oficialmente e procurou influenciar suas resoluções. Por isso mesmo, o bispo de Roma, posteriomente chamado de papa, Silvestre I (aquele mesmo São Silvestre da corrida paulistana no fim do ano), resolveu não comparecer.

A cidade de Niceia, aliás, foi estrategicamente escolhida com o intuito de dificultar a participação dos bispos europeus e facilitar a dos asiáticos, mais ligados a Constantino. Participaram cerca de 250 ou 300 bispos, de acordo com as fontes que se pesquisem sobre o assunto. Várias foram as questões de doutrina decididas no Concílio. Entre elas, a questão da natureza divina de Jesus e como torná-la compatível com a crença num Deus único, a data de celebração da Páscoa (que deixou de coincidir com a dos judeus) e, em especial, a heresia ariana.

As heresias
Por heresia, deve-se entender qualquer doutrina cristã contrária aos dogmas da Igreja católica. Como a Igreja não se encontrava unificada, um grupo grande de cristãos reunidos em torno do bispo Ário professavam a crença de que Jesus não tinha natureza divina, mas humana. O arianismo foi condenado em Niceia que, da mesma forma, para reforçar a ortodoxia da Igreja católica (que quer dizer "universal"), deu um impulso anti-judaico ao cristianismo.

O Concílio de Niceia se encerrou com a promulgação de um Credo Niceno que, ao lado do Credo dos Apóstolos, tornou-se um documento essencial às crenças da Igreja. É bom lembrar que depois de Niceia, entre o fim da Antiguidade, ao longo de toda a Idade Média e início da Idade Moderna, vários outros Concílios foram realizados pela Igreja.

Entre outros, podem ser citados o de Constantinopla 1º, em 381, que discutiu a divindade do espírito Santo; o de Éfeso, em 431, que debateu a maternidade divina de Maria; e o de Basileia-Ferrara-Florença, entre 1431 e 1432, que estabeleceu a autoridade universal do papa. O último concílio da Igreja foi o Vaticano 2º, que ocorreu entre 1962 e 1965, em pleno século 20, buscando adaptar a religião católica às grandes mudanças de costumes que ocorriam no mundo.

Evangelhos apócrifos
Retomando, porém, a questão das heresias é que chegaremos ao cerne do "Evangelho de Judas". Seu texto evidentemente não teria sido escrito por Judas Iscariotes, mas por membros de uma seita herética, os gnósticos, que desenvolveram uma visão por assim dizer "ocultista" dos ensinamentos cristãos.

De suas interpretações da paixão de Cristo, atribuíram a Judas um novo papel, não de traidor, mas de mártir, que se dispôs a trair o Mestre, para que ocorresse seu sacrifício na cruz. O gnosticismo foi uma seita combatida especialmente pelo bispo Irineu de Lyon (c.130-202), que condenou o texto do "Evangelho de Judas" na época de sua circulação, os séculos 2 e 3 d.C.

Para finalizar, convém lembrar que a Igreja católica reconhece como "oficiais" somente quatro evangelhos (os de Mateus, Marcos, Lucas e João). No entanto, depois da morte de Jesus, diversos (talvez centenas de) outros evangelhos foram escritos, entre eles um é atribuído ao apóstolo Tomé e outro à Maria Madalena. São os chamados evangelhos apócrifos, isto é, que não são referendados pela Igreja. É assim, aliás, que a igreja vê o "Evangelho de Judas", que volta a público cerca de 1.700 anos depois da sua redação.

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

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