Eleição de Macri - Vitória reforça crise da esquerda na América do Sul?

Um fenômeno político tem chamado atenção na América do Sul: presidentes mais populares e governos de esquerda estão perdendo espaço para alas mais ao centro e conservadoras. A crise econômica seria um dos principais motivos. E a recente mudança na Argentina é exemplo desse cenário.
A política argentina mudou de rumo com a eleição do presidente Mauricio Macri em dezembro de 2015, após derrotar o candidato do governo, o peronista Daniel Scioli. Ele é considerado de perfil mais conservador que sua antecessora, Cristina Kirchner, de centro-esquerda.
A vitória de Macri pôs fim a 12 anos de governo kirchnerista. Cristina governou o país desde 2007 e é viúva do presidente Néstor Kirchner, presidente entre 2003 e 2007. O kirchnerismo é o termo que se refere ao período que começou com o mandato de Néstor Kirchner. O casal governou com estilo confrontativo e com um discurso considerado populista e de esquerda.
No começo da gestão de Néstor, ele combateu a dívida pública e o país registrou crescimento, com programas sociais voltados à classe trabalhadora e apoio a medidas de direitos humanos. Nos últimos quatro anos, no entanto, a economia caiu em recessão.
Após um calote em 2001, a Argentina praticamente não teve mais acesso ao crédito internacional. Em 2011, Cristina implementou uma política de controle cambial para frear a fuga de capitais. O resultado teve efeito contrário e os investidores sumiram. O peso argentino se desvalorizou e, hoje, os argentinos convivem com pelo menos três tipos de câmbio. Poupar em dólares para se defender da inflação e pensar na moeda americana na hora da compra e venda de imóveis são, por exemplo, hábitos tradicionais no país.
O presidente eleito Macri é considerado de perfil mais conservador e liberal em relação à economia. Com uma nova postura avessa às barreiras protecionistas, ele prometeu liberar o mercado de câmbios, estimular a iniciativa privada, diminuir a pobreza, atrair investimentos internacionais e fazer ajustes fiscais nas contas do Estado.
A economia argentina será a principal pedra no sapato do novo presidente. Outro desafio de Macri será estabelecer alianças no Congresso, onde o kirchnerismo tem maioria absoluta no Senado e é a primeira força na Câmara dos Deputados.
A inflação está galopante e chegou a 35% em fevereiro. Os preços dispararam nos últimos meses. Macri aumentou tarifas de serviços públicos, transporte, luz e gás e o mercado reajustou os preços dos alimentos e aluguéis. Houve um aumento de 300% na tarifa de eletricidade, colocando fim aos subsídios concedidos nos últimos 12 anos ao fornecimento de energia elétrica.
Um dos efeitos mais imediatos do ajuste econômico é a queda na renda e no poder de consumo dos mais pobres. Um estudo divulgado em março pelo Centro de Inovação dos Trabalhadores da Argentina mostrou que o poder aquisitivo dos 10% mais pobres do país caiu 23,8% desde dezembro de 2015. O cenário elevou as pressões sociais e a mobilização de protestos da população.
No entanto, os sinais da economia indicam que a Argentina está atraindo investimentos externos e aumentou suas exportações agrícolas. Por enquanto a aprovação do presidente está em 60%. O aumento do desemprego é a principal preocupação dos argentinos. A aposta do governo é que os investimentos possam aumentar os indicadores sociais.
Outros países
Na Venezuela, nas eleições legislativas de dezembro passado, o governo chavista de Nicolás Maduro foi derrotado. A oposição ganhou maioria nas eleições parlamentares e viu nisso o começo de uma mudança política no país em meio a uma crise. Foi a primeira vez que a oposição saiu vitoriosa no Parlamento desde que ele foi criado, no ano de 2000, após a dissolução do antigo Congresso.
A grave crise econômica (a inflação em 2015 foi de 180,9%) trouxe consequências amargas para a população venezuelana como apagões de energia e escassez de produtos, alimentos e remédios. A insatisfação popular cresce. Em janeiro e fevereiro, o Observatório Venezuelano de Conflitividade Social (OVCS) registrou 1.014 pequenos protestos em todo o país, além de 64 saques a estabelecimentos comerciais.
Maduro atribui à crise atual a queda dos preços do petróleo e a uma "guerra econômica" de empresários de direita para desestabilizar seu governo. Já a oposição culpa o modelo socialista bolivariano iniciado pelo já falecido ex-presidente Hugo Chávez em 1999.
Agora a oposição começou a coletar assinaturas para ativar um referendo revogatório contra seu mandato. Para revogar o mandato de Maduro é preciso que a votação seja feita até dezembro e o "sim" supere o número de votos que ele recebeu quando foi eleito em 2013: pouco mais de 7,5 milhões. Pesquisas independentes estimam que de 60% a 70% dos eleitores votariam contra o presidente. Se obtiver sucesso, novas eleições presidenciais poderiam ser convocadas.
Na Bolívia, o presidente Evo Morales teve este ano sua primeira derrota eleitoral desde sua chegada ao poder em 2006. Os bolivianos rejeitaram em referendo, realizado em fevereiro deste ano, a reforma constitucional promovida pelo presidente para poder se candidatar a um quarto mandato (2020-2025). Sua intenção era garantir seu projeto político para depois de 2020, quando termina seu atual mandato.
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