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Ecologia: o que a destruição do cerrado tem a ver com a crise hídrica no Brasil?

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Luís Moura/Estadão Conteúdo

Um vasto horizonte de capim e vegetação rasteira. De perto, as árvores são pequenas e retorcidas, em geral com casca grossa. Esse é o bioma cerrado, considerado a savana brasileira.

A paisagem seca traz a impressão de que existe pouca vida por ali. Mas, além de possuir uma incrível variedade de animais e plantas, ele é considerado o berço das águas no Brasil.

Na natureza, um ecossistema que está a quilômetros de distância pode ser fundamental para garantir a produção de água em outro. O cerrado possui alta concentração de nascentes de rios e reservas subterrâneas. Na prática, realiza um importante “serviço ambiental” ao funcionar como uma gigantesca caixa d´água, uma complexa teia que irriga as grandes bacias hidrográficas da América do Sul.

Presente em 11 estados brasileiros, o cerrado influencia toda a cadeia hídrica do Brasil. Localizada estrategicamente no planalto central brasileiro, a região tem topografia elevada, o que facilita a distribuição de cursos fluviais para localidades mais baixas. Nesse bioma, nascem seis das oito grandes bacias hidrográficas brasileiras: a Amazônica, a do Araguaia/Tocantins, a do Atlântico Norte/Nordeste, a do São Francisco, a do Atlântico Leste e do Paraná/Paraguai.

Da região também depende a recarga de três grandes aquíferos subterrâneos: Bambuí, Urucuia e Guarani. Eles se formaram há milhões de anos e são reabastecidos pela chuva que se infiltra no solo, formando lagoas conhecidas como águas emendadas, que escoam por lençóis freáticos em diferentes direções.

Esses três aquíferos são responsáveis pela alimentação dos grandes rios continentais e de represas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Tocantins, Piauí e Bahia, além do Distrito Federal.

O lendário rio São Francisco, fundamental para o Nordeste, tem sua nascente situada em áreas de Cerrado, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. O bioma contribui com quase 90% da água que escoa para o rio, especialmente das águas acumuladas nos aquíferos Urucuia e Bambuí.

O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, as águas de rios amazônicos, como o Solimões, e pelos rios que nascem no centro do Brasil, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia e Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume.

No caso do sistema Araguaia-Tocantins, que corre para o Norte e desagua no Pará, 71% da água da bacia nasce no cerrado. As águas do Pantanal também são totalmente dependentes dos rios que brotam da região. Já no sul, cerca de 50% da água que cai na foz do rio Paraná vem do bioma, o que ajuda a movimentar a energia do sistema Itaipu.

Uma floresta de cabeça para baixo

O volume de água está relacionado à distribuição das chuvas. No cerrado, a vegetação é adaptada a períodos secos e a chuva é sazonal, se concentrando apenas em uma determinada época do ano.

As árvores possuem diferentes estratégias para garantir o suprimento de água. No caso das plantas do Cerrado, estas possuem um sistema radicular (raízes) extremamente profundo e complexo, que cresce em diferentes direções. Muitas têm só um terço de sua estrutura acima do solo. Os outros dois terços estão debaixo da terra, em raízes que podem atingir até vinte metros. É como se fosse uma floresta invertida, de cabeça para baixo.

Essa profundidade é uma estratégia para sobreviver num ambiente com clima seco e solo pobre em nutrientes. As raízes longas funcionam como esponjas, capazes de reter água e liberá-la de forma lenta, para alimentar as plantas na estação seca. Esse mecanismo faz com que elas não percam as folhas nem mesmo no auge da estiagem.

Os aquíferos são reabastecidos pela chuva, mas não basta chover para que a água chegue lá embaixo. É preciso um mecanismo que “transporte” a água.  A vegetação nativa é responsável por absorver o líquido e abastecer o lençol freático, que vai alimentar o aquífero. Com raízes mais longas, mais água é captada. Mas a vegetação exótica, como as pastagens e lavouras, possuem raízes curtas que não conseguem transportar a água para o fundo.

Desmatamento, agricultura e a falta de água

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Até meados dos anos 1950, ele estava praticamente intacto no Centro-Oeste. Durante a segunda metade do século 20, após a construção da cidade de Brasília, a região vivenciou um crescimento exponencial. E nos últimos anos, a partir da década de 1970, o avanço do agronegócio, a urbanização e a ocupação desordenada causaram um impacto ambiental de níveis alarmantes.

Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, o cerrado perdeu 46% de sua vegetação nativa e cerca de 20% permanece intocado. Mas o bioma é a área com menor proteção ambiental no Brasil: apenas 8,21% das terras estão dentro de unidades de conservação. Fora desses espaços, a destruição do habitat natural tem sido intensa. Estudos mostram que se a taxa de desmatamento continuar nesse nível, sua vegetação nativa deverá ser completamente destruída até 2050.

Além da perda de biodiversidade, o fim desse ecossistema também significa a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil. As consequências já são visíveis. Em média, dez pequenos rios do cerrado desaparecem a cada ano, deixando de alimentar outros afluentes e impactando o volume de todo o sistema.  Ao mesmo tempo em que ocorre esse fenômeno, temos um aumento rápido do consumo de água por causa da ação do homem.

Em 2016, com a falta de chuva na nascente do São Francisco, o reservatório de Sobradinho (BA) viveu a maior seca de sua história. No mesmo ano, em Goiás, o rio Araguaia nunca esteve com um volume tão baixo e muitos afluentes secaram. E em Minas Gerais, 500 cursos d'água sumiram durante a estiagem que marcou o período.

As pastagens de gado e a produção agrícola já desmataram grandes áreas de vegetação do cerrado. O agronegócio é a principal ameaça. Com a introdução da monocultura em grandes extensões de áreas, como a soja, o eucalipto, a cana-de-açúcar, o algodão ou o milho, as plantas nativas foram substituídas por vegetais com raízes extremamente superficiais. Um planejamento mais sustentável da lavoura poderia amenizar esses impactos.

Outro fenômeno relacionado à chuva é a evapotranspiração, a quantidade de água lançada ao ar pelas folhas das plantas. Estudos indicam que durante o período de estiagem, plantas nativas possuem uma evaporação mais eficiente do que as de plantio, influenciando a produção de chuvas. Uma possibilidade é que a falta da umidade do ar agrave a seca e acabe por atrasar a estação chuvosa.

A poluição em territórios degradados também é outra ameaça ao abastecimento de água, especialmente nos aquíferos. Nessas regiões pode acontecer a contaminação da água potável por atividades humanas como o uso de agrotóxicos, depósitos irregulares de lixo, fossas sépticas, resíduos industriais, assoreamentos de leitos de rio, abertura indiscriminada de poços artesianos e o consumo excessivo, especialmente nos grandes centros urbanos.

O manancial do Guarani é um dos maiores reservatórios subterrâneos de água do mundo. Ele é estimado em 50 mil quilômetros cúbicos de água doce, quantidade suficiente para o consumo em todo o planeta, durante dez anos. A maioria dos rios que cruza o estado de São Paulo é alimentada pelo Guarani e pelo menos 200 municípios paulistas são abastecidos total ou parcialmente pelo aquífero, também usado na indústria e na irrigação de fazendas. A diminuição do volume de água pode influenciar em futuras crises de abastecimento.

A falta de chuva deve aumentar nos próximos anos em razão das mudanças climáticas, o que deve impactar diretamente a disponibilidade dos recursos hídricos nos grandes centros urbanos brasileiros --e, com a crise, é urgente a necessidade de preservação do cerrado.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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