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Crise de refugiados: número de pessoas forçadas a se deslocar dos seus países é o maior da história

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Emilio Morenatti/AP

Todos os dias, dezenas de pessoas deixam tudo que têm para trás. Elas entram num barco clandestino, muitas vezes arriscando suas vidas, para atravessar o Mar Mediterrâneo rumo à Europa. Em outro ponto, no Oriente Médio, famílias vivem em acampamentos improvisados e em edifícios destruídos, e na África, muitos vagam sem destino, procurando um lugar seguro.

Essa é a realidade de milhões de homens, mulheres e crianças que foram forçadas a se deslocar de suas casas. Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados, como a guerra ou a perseguição (política, violações dos direitos humanos ou violência religiosa e sectária). Com frequência, sua situação é tão perigosa e intolerável que precisam cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos.

O número de pessoas nessa situação é dramático e não para de crescer. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), vivemos a maior crise global de refugiados da história. Em 2016, havia 65,6 milhões de pessoas nessa situação no mundo. Mais de 300 mil em relação ao ano anterior. Os dados são do relatório “Tendências Globais – Deslocamentos Forçados em 2016”, divulgado em junho.

Esse total representa um número sem precedentes de gente que precisa de proteção no mundo inteiro. Se essas 65,6 milhões de pessoas formassem um país, ele teria a 21ª maior população do planeta, pouco maior que o Reino Unido.

Os refugiados se dividem em três perfis. As pessoas que cruzaram fronteiras internacionais somam 22,5 milhões. Outros 40,3 milhões se deslocaram dentro de seus próprios países. E ainda existem 2,8 milhões de candidatos a asilo político, provenientes dos quatro cantos do planeta.

Crianças desenraizadas

O ACNUR também manifestou preocupação especial com a situação das crianças. Elas representam a metade dos refugiados de todo o mundo e estão em situação de maior vulnerabilidade. Muitas são órfãs e atravessam as fronteiras sozinhas. Outras enfrentam perigos pelo caminho, como o risco de afogamento em travessias por mar, má nutrição e desidratação, tráfico, rapto e violação. 

As crianças que se encontram nessa situação também alimentam o problema dos apátridas. Isso ocorre principalmente quando uma pessoa nasce num país que lhe nega a nacionalidade. Até o final de 2016, ao menos 10 milhões de refugiados estavam nessa situação.

De onde sai o êxodo humano

O intenso movimento de deslocação forçada é o símbolo de um estado de guerra que nunca acaba e do colapso de tentativas de paz em conflitos armados. “O deslocamento forçado global continua a ser o mais alto já registrado. A diferença é que hoje temos conflitos que perduram há muitos anos, há 20 ou 30 anos”, analisou a representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez. “No passado, havia guerras, mas elas terminavam com soluções duradouras. Isso deixou de existir”, completou.

A guerra civil na Síria, que desde 2011 já fez mais de 500 mil mortos, continua fazendo com que o país seja o local de origem da maior parte dos refugiados (5,5 milhões) e deslocados (6,3 milhões) do mundo. A guerra começou com protestos de rua contra o governo e se transformou num conflito armado. Desde o seu estopim, ela já provocou a saída de mais da metade da população do país, uma situação de calamidade.

A instabilidade no Oriente Médio também afetou o Afeganistão (com 4,7 milhões de refugiados), e o Iraque (4,2 milhões). No primeiro país, o Exército luta contra os radicais islâmicos do regime Taleban, mas há também enfrentamentos entre milícias rivais. No Iraque, grupos armados lutam contra o grupo terrorista Estado Islâmico, que busca criar um califado na região. Ainda assim, esse número fica abaixo dos 5,3 milhões de refugiados palestinianos, vítimas da diáspora provocada pelo conflito árabe-israelense.

Entretanto, em 2016 um novo elemento de destaque foi o Sudão do Sul, onde uma guerra civil (que já dura três anos) contribuiu para que 1,4 milhão de pessoas cruzassem a fronteira em busca de segurança. A maior parte se desloca para países vizinhos. Outros 1,9 milhão são deslocados internos.

Em relação a deslocados internos, a Colômbia se destaca com a maior população e também por ser o único país da América Latina no topo do ranking. São 7,7 milhões de pessoas, que foram abandonando os seus lugares de origem ao longo do conflito entre o Governo e as guerrilhas das FARC e ELN. Em 2016, foi firmado um acordo de paz entre o governo e as FARC e a tendência é que esse número fique mais estável.

Países que mais recebem refugiados

A maior parte das populações de refugiados é abrigada em países vizinhos. O motivo é a proximidade geográfica com as nações em conflitos. Apesar da grande repercussão da crise de refugiados na Europa, 84% deles estão localizados em países pobres ou em desenvolvimento.

A maioria fica no Oriente Médio e na África. A Turquia é o país que mais recebe refugiados no mundo, com 2,9 milhões, seguida por Paquistão (1,4 milhão), Líbano (1 milhão) e Irã (979, 4 mil).

Para receber esse grande volume de pessoas, governos e organismos internacionais, como o ACNUR, criam os chamados campos de refugiados, abrigos provisórios que contam com uma infraestrutura básica, como tendas emergenciais.

Um dos maiores campos de refugiados do mundo fica em Uganda, na aldeia de Bidi Bidi. O local recebeu mais de 250 mil pessoas oriundas do Sudão do Sul, e que hoje vivem num campo com cerca de 250 quilômetros quadrados.

Apesar dos números dramáticos, o movimento de regresso ao local de origem ou realojamento num país terceiro aumentou. Em 2016, 6,5 milhões de deslocados internos voltaram às suas casas, meio milhão de refugiados regressaram aos seus países e cerca de 190 mil candidatos a asilo foram reinstalados em 37 países.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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