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Caso Vladimir Herzog - Entenda por que a morte de Vladimir Herzog voltou ao noticiário

Daelcio Freitas, Da Redação, em São Paulo

No dia 17 de outubro de 2004, quase vinte anos depois do fim da ditadura militar (1964-85), o caso Vladimir Herzog voltou à mídia de forma chocante. O jornal Correio Braziliense publicou supostas fotos inéditas do jornalista, nu, antes de ser morto sob custódia do Exército em 1975.

O episodio provocou um mal-estar entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os militares, que após a divulgação das fotos publicaram nota dizendo que "as medidas tomadas pelas forças legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo".

O presidente Lula considerou a nota "impertinente, equivocada e inoportuna" e exigiu retratação pública do comandante do Exército, general Francisco Albuquerque. A retratação, de cinco parágrafos, dizia, entre outras coisas: "o Exército lamenta a morte do jornalista Vladimir Herzog e não quer ficar reavivando fatos de um passado trágico que ocorreram no Brasil".

Na quinta-feira (21 de outubro), o secretário de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, divulgou uma nota afirmando que as fotos não eram do jornalista. Segundo a nota, as fotos "são produto de uma investigação ilegal conduzida no ano de 1974 pelo antigo SNI (Serviço Nacional de Informações). Por violar a vida privada dos fotografados, ele se disse impedido -moral e legalmente- de revelar os nomes das pessoas na fotografia".

Tortura e morte
Na noite do dia 24 de outubro de 1975, Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, apresentou-se na sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). No dia seguinte, foi morto aos 38 anos. Segundo a versão oficial da época, ele teria se enforcado com o cinto do macacão de presidiário. Porém, de acordo com os testemunhos de jornalistas presos na mesma época, Vladimir foi assassinado sob forte tortura.

Por ser judeu, o corpo de Herzog foi encaminhado ao Shevra Kadish (comitê funerário judaico). Ao prepará-lo para o funeral, um rabino percebeu que havia marcas de tortura no corpo do jornalista, prova de que o suicídio tinha sido forjado.

Em 1978, o legista Harry Shibata confirmou haver assinado o laudo necroscópico da vítima - na qualidade de segundo perito - sem examinar ou sequer ver o corpo. Contrariando os depoimentos de torturas e violências cometidas no interior do DOI-Codi, Shibata reconheceu que esteve algumas vezes naquele órgão para medicar presos, mas que os únicos casos que constatou foram de "micoses, gripes e similares".

Em 1978, a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu que Herzog foi assassinado e decidiu conceder uma indenização para sua família.

A morte de Herzog foi um marco na ditadura militar (1964 - 1985). O triste episódio paralisou as redações de todos os jornais, rádios, televisões e revistas de São Paulo. Os donos dos veículos de comunicação fizeram um acordo com os jornalistas. Todos trabalhariam apenas uma hora, para que os jornais e revistas não deixassem de circular, e as emissoras de rádio e televisão continuassem com suas programações.

No dia 31 de outubro de 1975, foi realizado um culto ecumênico em memória de Herzog na Catedral da Sé, do qual participaram 8.000 pessoas, num protesto silencioso contra a ditadura.

Na análise do rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, o assassinato de Herzog mudou o país. "Foi o catalisador da abertura política e da restauração da democracia. Esse fato será sempre a recordação dolorosa de um sombrio período de repressão, um eco eterno da voz da liberdade, que não se cala jamais."

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