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'Branco pode usar turbante?': Saiba o que é apropriação cultural

Carolina Cunha

Da Novelo Comunicação

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Imagine que você é branco e foi em uma festa à fantasia vestido de turbante. Mesmo não tendo a intenção, a sua fantasia pode ofender muita gente. Recentemente a edição de 2016 do Baile da Vogue gerou muita polêmica e acabou em discussão na internet. O tema era “África” e celebridades brasileiras (a maioria branca) desfilaram roupas inspiradas na cultura africana. Logo veio a acusação de apropriação cultural.

A apresentação da cantora americana Miley Cyrus no Video Music Awards de 2015 também foi acusada de usar símbolos, gestos e danças que foram popularizados e sempre associados a artistas negros, como o uso de dreads no cabelo e a coreografia com o uso de twerking.

Recentemente até Beyoncé foi criticada pelo clipe “Hymn For the Weekend”, gravado com a banda inglesa Coldplay. A cantora americana aparece caracterizada como uma atriz de Bollywood, usando trajes tradicionais da Índia e tatuagem de henna. Nas redes sociais, o clipe foi criticado por reproduzir estereótipos da cultura indiana.

A palavra “apropriar” significa tomar para si. O termo “apropriação cultural” é um conceito da antropologia e se refere ao momento em que alguns elementos específicos de uma determinada cultura são adotados por pessoas ou um grupo cultural diferente.

Mas não é só isso. O conceito de apropriação cultural passa por uma reflexão política. Esse uso tem uma conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante.

A cultura é um universo de símbolos e as imagens e as estéticas são fruto das experiências humanas. Um turbante carrega significados mais complexos e profundos do que simplesmente ser uma vestimenta.

A peça tem origem nas culturas afro-orientais. No Brasil, o turbante é um ornamento religioso no candomblé, religião brasileira criada por africanos de diferentes etnias, advindos da escravidão. Ele é usado tradicionalmente por povos da África, do Oriente Médio e da Ásia.

Desde a chegada dos escravos no Brasil, ritos espirituais africanos eram proibidos pelos colonizadores portugueses. Até a década de 1930, o candomblé era perseguido pela polícia e existia na clandestinidade. Muitos adeptos da religião sofreram racismo e ainda sofrem preconceito nas ruas por usar turbantes e outros símbolos afros.

Por muito tempo o turbante foi visto de forma pejorativa como “coisa de macumbeiro”. Todo esse contexto faz com que um negro, ao usar um turbante hoje, use-o não apenas como um item estético, mas também como um símbolo de resistência, afirmação e orgulho da ancestralidade.

E quando o turbante é usado por um não negro? A princípio não há problema. A liberdade individual é uma premissa de uma sociedade democrática. A pessoa pode levar o modo de vida que desejar e vestir o que quiser. Mas será que esse uso é ético? Será que ela não está refletindo uma relação de poder?

O poeta negro B. Easy publicou em sua conta no Twitter a frase: A cultura negra é popular, pessoas negras não são. A apropriação cultural esquece as práticas rituais e torna invisíveis as lutas desses povos. Pessoas começam a usar roupas e acessórios sem saber seus significados e origens. Ou seja, dá margem para que elementos de uma cultura sejam banalizados, estereotipados ou simplesmente reduzidos a “exóticos”.

Recentemente, a moda se apropriou dos turbantes com estampas étnicas. Modelos e atrizes brancas posaram para editoriais em revistas de moda. Adotado por uma determinada elite, o turbante se tornou estiloso. Por que os modelos não eram negros? Como fica a cultura negra? Possivelmente esquecida ou ainda esvaziada de sentido.

Vamos voltar aos símbolos. Por que cultura dominante? Quando uma cultura é dominante, ela se coloca como o padrão aceitável. Por exemplo, no período da Roma Antiga, os romanos invadiam regiões da Europa e pouco a pouco o idioma latim foi imposto aos povos nativos.

Quando um símbolo de um povo marginalizado é tomado pelo elemento dominante, isso se torna uma relação de privilégio de uma cultura em relação à outra. Trata-se de um processo que envolve desigualdade e desrespeito.

Depois das Grandes Navegações, no século 15, o contato entre diferentes povos se intensificou e países europeus criaram colônias nos territórios do “Novo Mundo”. A partir da colonização europeia, diversas culturas foram gradativamente subjugadas e incorporadas ao âmbito da visão de mundo ocidental. A diáspora de povos como o povo negro, o povo judeu e o povo cigano também contribuiu para esse fluxo.

As culturas dos outros (não ocidentais) eram consideradas exóticas, selvagens, inferiores e muitas vezes reprimidas. Ao mesmo tempo, muitas culturas acabam assimilando sem maiores conflitos os “traços” vindos de outros povos (sincretismo) formando uma nova identidade social. A cultura é viva e ela está sempre em movimento.

O sincretismo aconteceu em diversos momentos da história. No Brasil, os índios Kayapós possuem cantos tradicionais com origem em outros povos indígenas. Na Amazônia, ribeirinhos usam redes (de origem indígena) para dormir. Outro exemplo: os colonizadores portugueses levaram a mandioca, raiz típica da culinária indígena, para Angola. Hoje a mandioca é muito comum no país africano.

Atualmente os questionamentos de apropriação cultural são intrinsecamente relacionados ao consumo cultural. Passado o período colonial, o século 20 foi marcado pela produção em massa dos bens de consumo. Surge um mercado consumidor ávido por novidades. A identidade de um indivíduo (quem sou e quem quero ser) começa a ser cada vez mais mediada pelo consumo das produções culturais.

A moda e a cultura pop traduzem bem esse ritmo acelerado. Na moda é preciso mudar sempre e tudo pode ser “remixado”. Mesmo culturas urbanas originalmente marginalizadas, como o punk e o hip-hop são apropriadas e ressignificadas pela indústria cultural, sob a forma de tendências, estilos ou modismos em fluxos constantes de novos produtos.

O filósofo Gilles Lipovetsky entende que a identidade cultural do sujeito contemporâneo é muito mais inconstante e plural e nesse sentido, a diversidade de inspirações nos liberta de uma cultura homogênea. “A moda não destrói a cultura do passado, mas faz o passado perder sua força de imposição. A moda, essencialmente, é reciclagem das formas do antigo e o contemporâneo é fazer com que tudo o que nos chega do passado reencontre-se reciclado na perspectiva da lógica da individualidade, da liberdade individual”.

O processo de globalização intensificou o comércio e a comunicação entre os países. O sociólogo Zygmunt Bauman entende que esse é um processo sem volta. “Na pós-modernidade, as comunidades não têm como manter puras as suas tradições, elas não podem mais manter intransponíveis as fronteiras que separam o 'dentro' e o 'fora'”.

Como consequência desse processo, houve um maior trânsito cultural e interesse por outras culturas. Na maior parte das vezes fica evidente a globalização quando nos deparamos com produtos de outros países no supermercado. Por exemplo, o sushi japonês na gôndola de frios ou o molho marroquino ao lado da pimenta mexicana.

O sociólogo Stuart Hall fez a seguinte pergunta: como as identidades culturais estão sendo afetadas ou deslocadas pelo processo de globalização? Para ele, “somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar”. Hall estudou a diáspora negra e a identidade negra num contexto globalizado.

Para ele, a reapropriação de símbolos da cultura africana por negros de todo o mundo é um ato legítimo de afirmação de identidade, sobrevivência resistência histórica. Mas que ainda assim existem várias identidades. A cultura popular negra brasileira, por exemplo, diferente da cultura negra caribenha, jamaicana ou britânica. São culturas híbridas e que a todo momento também se ressignificam e se transformam. 

Mas qual o limite entre o elogio a uma cultura e a apropriação e esvaziamento de significado dela?

Existem pessoas que entendem que não existe problema em consumir bens culturais de outros povos, tudo isso são traços da individualidade e da busca de estilos de vida. Existem ainda aqueles que entendem que ao entender que uma determinada prática cultural só deve ser exercida pelo grupo que o legitima. Seria isso autoritarismo ou afirmação?

A discussão é polêmica e repleta de perguntas. Brancos devem cantar rap? Ocidentais podem praticar o xamanismo indígena ou fazer a yoga indiana? O maracatu deve ser um produto de carnaval? É complexo definir o momento em que o uso de símbolos e costumes de um povo torna-se uma ofensa ou sinal de perigo.

O problema parece estar no ato de consumir sem a reflexão ou sem o devido respeito, o que esvazia o sentido. E quando esse comportamento se choca com a tradição de um povo, as coisas começam a ficar mais complicadas. De onde esse artefato veio? Que história ele conta? Que povo ele representa?

Não é o ato de usar um turbante que ofendem esses grupos, mas o fato de usar o turbante sem ter consciência de seu valor simbólico para as comunidades tradicionais. É mais ofensivo ainda utilizar um símbolo para fins econômicos e que não tragam retorno para a comunidade “de origem”.

Um exemplo é a polêmica da marca Havaianas. Ela criou uma coleção de sandálias que leva ilustrações da etnia Yawalapiti, um dos povos indígenas do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso. Os grafismos Yawalapiti são considerados propriedade coletiva e não um desenho de autoria de uma pessoa só. O contrato da marca foi feito com uma pessoa da etnia, mas não teve a autorização dos caciques para autorizar a reprodução dos desenhos para uso comercial. Quem é dono de um conhecimento coletivo e de uma cultura imaterial?

BIBLIOGRAFIA

  • A Era do Vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo, de Gilles Lipovetsky (Manole, 2005).
  • Que “negro” é esse na cultura negra? Da Diáspora: identidades e mediações culturais, de Stuart Hall. Org. Liv Sovik (UFMG/Unesco, 2003).
  • O mal estar da pós-modernidade, Zygmunt Bauman (Zahar, 1998)
  • Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, de Zygmunt Bauman (Zahar, 2003).

Carolina Cunha

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