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Armas e violência - Tiros na escola: crônica de uma tragédia recorrente

Jurema Aprile, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

A tragédia do estudante que matou 32 pessoas no campus da Universidade Virginia Tech e se suicidou não é a primeira com essas características. Ela aconteceu na mesma semana de abril de 2007 em que os Estados Unidos lembravam o oitavo aniversário de atentado semelhante à escola de Columbine.

Haviam se passado quase 41 anos desde o agosto de 1966, em que Charles Whitman subiu em uma torre de observação na Universidade do Texas, abriu fogo e matou ao menos 16 pessoas.

Todos os assassinos estudavam nas instituições que atacaram. Whitman, 24 anos, usou um fuzil. Na Virginia Tech, Cho Seung-Hui, 23 anos, usou duas pistolas: uma Glock de calibre 9 mm e uma Walther de calibre 22, adquiridas legalmente.

Tiroteios aleatórios acontecem em outros países, como Austrália, Reino Unido e Alemanha, não apenas em escolas, mas em parques, shopping centers, lugares públicos. No Brasil, em São Paulo, um universitário atirou contra a plateia de um cinema, feriu dezenas de pessoas e assassinou três, em 1999.

As instituições de ensino parecem ser o alvo preferido para esses ataques: A da Virginia Tech foi a 41ª chacina desse tipo nos Estados Unidos, e a mais grave até agora.

Por que isso acontece
Não há consenso sobre as causas dessas tragédias. Nos Estados Unidos, as mais citadas são a facilidade para comprar armas de fogo e a apologia da violência em games, músicas e filmes.

Entram ainda nessa lista a competitividade da sociedade americana, problemas de socialização, doenças mentais, desigualdade social.

Outro ponto levantado pelos analistas é a preferência pelo ambiente escolar para os ataques. Alguns afirmam que essa é uma escolha lógica, pois trata-se de um lugar em que ninguém está armado e não haverá reação. Em 38 estados americanos, o porte de armas nas escolas é proibido.

Armas nas universidades
A universidade teria sofrido a mesma tragédia se as leis da Virgínia não proibissem o uso de armas no campus? Um lobista ligado à Associação Nacional do Rifle, a mais poderosa organização pró-armas do país, disse que o massacre na universidade não teria acontecido se todos os alunos estivessem armados.

Utah, Oregon e New Hampshire são três Estados norte-americanos que permitem o porte de armas nas universidades. Em pelo menos dois deles houve tiroteios recentemente, em shopping centers e escolas.

A maioria dos tiroteios em escolas deu-se em comunidades pequenas e isoladas, onde um garoto com dificuldades para fazer amigos é definido como freak, esquisito, e marginalizado, o que explicaria o desejo de vingança dos atiradores.

Local de evidência
Para quem quer atingir a comunidade inteira, a escola é o lugar que junta todas as famílias, na cidade pequena. Em metrópoles, segundo a antropóloga Katherine Newman, há cenários que chamam mais a atenção, como shopping centers, ruas, bares.

Newman é autora de "Violência, as Raízes Sociais de Tiroteios em Escolas", livro de 1999, adotado pelo governo dos Estados Unidos para o desenvolvimento de políticas que evitem novos episódios.

Nos casos estudados por ela, os atiradores sofriam de alguma doença mental. Todos eram do sexo masculino, garotos ou homens, rejeitados e incapazes de lidar com suas relações sociais.

Tragédia anunciada
Psiquiatras e criminologistas afirmam que as ameaças devem ser levadas a sério: 63% dos assassinos em série tinham feito ameaças, 54% delas específicas a membros do grupo que atacaram.

Mais da metade dos rampage killers - de rampage, violência, estrago, e killer, matador - tinham histórico de problemas mentais, incluindo Cho Seung-Hui, da Virginia Tech, que havia sido internado em 2005.

A lei federal dos Estados Unidos proíbe a venda de armas de fogo para quem for considerado deficiente mental por um tribunal, ou tiver sido internado involuntariamente em uma instituição psiquiátrica.

Falha nas informações
Esses registros devem ser incluídos no sistema de pesquisas de antecedentes utilizado na venda de armas.

Em 2002, a cada 75 mil pessoas que procuraram comprar uma arma de fogo naquele país, uma foi rejeitada pelo sistema de checagem devido a critérios de saúde mental, segundo estudo do Departamento de Responsabilidade do Governo.

Outro estudo do mesmo departamento calculou inexistirem informações sobre os antecedentes de até 2,6 milhões de pessoas que haviam sido internadas involuntariamente.

Controle mais rigoroso
Armas que são "assustadoramente fáceis de se obter": essa é a crítica dos jornais norte-americanos sobre esses massacres, junto de pedidos de controles mais fortes sobre as armas de fogo.

Ao mesmo tempo, 59% dos americanos não acreditam que leis mais rigorosas de controle de armas impediriam tragédias como a da Virginia Tech, segundo apurou uma pesquisa do Instituto Zogby.

Já numa enquete realizada pela Folha Online sobre o que poderia barrar ataques como esse, a restrição da venda de armas foi apontada pela maioria dos internautas (52%).

Antes do evento em Virgínia, o pior tiroteio em escola foi na Alemanha, em Erfurt, com 18 pessoas mortas, em 2002. A Alemanha tem uma das mais rígidas legislações de controle de armas.

Restrições no Canadá
O rigoroso controle de armas no Reino Unido não impediu os massacres de Hungerfold, em 1987, com 16 mortes, nem em Dunblane, em 1996.

O Canadá, sempre apontado como exemplo de país com grande número de armas e baixo índice de violência, adotou, em 1995, uma legislação que dificulta o acesso da população a esses artefatos.

Foram impostas penas duras para posse e porte ilegal de armas de fogo e estabelecida a idade mínima de 18 anos para posse de armamentos. A lei especifica também regras para estocar, transportar e expor armas para evitar perdas, roubo ou acidentes.

Para comprar uma arma, o cidadão precisa fazer um treinamento e apresentar um documento provando que o cônjuge concorda. Conseguiu-se, com isso, reduzir em 43% os casos de maridos que matam as mulheres.

Na Constituição Federal
O direito à propriedade e ao porte de armas de fogo está inscrito na segunda emenda à Constituição dos Estados Unidos. Ela diz que "o direito de o povo manter e portar armas não deve ser infringido".

A lei é do final do século 18 e se aplicava a mosquetes e garruchas, não a fuzis e automáticas. Talvez por conta disso, o Ato Nacional de Armas de Fogo prevê que metralhadoras devem ser registradas junto ao governo federal, que cobra impostos por sua venda e registro.

Armas, violência e pobreza
Países organizados socialmente têm baixos índices de violência, afirma um estudo da FGV.

Para muitos, o aumento da violência não se relaciona à posse de armas, mas a desorganização social, desigualdade de renda, escolaridade, enfim, à pobreza.

Na Índia, em torno de 33% da população vive abaixo da linha da pobreza. Em áreas como saneamento básico, saúde, mortalidade infantil e analfabetismo, o país está em situação pior que a do Brasil.

Mais que nos conflitos armados
Os índices de violência indianos são muito menores do que os do Brasil. Ali, o número de homicídios dolosos é baixo e decrescente enquanto no Brasil ele cresce e é cinco vezes mais alto.

"Oficialmente, foram assassinados no Brasil, na década de 1990, cerca de 300 mil jovens. Não há nada comparável na Índia, mesmo com as tensões étnicas e religiosas internas e os conflitos intermitentes na Caxemira, na fronteira com o Paquistão, e em Bangladesh".

A afirmação é do sociólogo Michel Misse em "Diálogos Tropicais - Brasil e Índia", publicado pela UFRJ, em 2003.

TV, rap e videogames
O jornal The New York Times examinou uma centena de casos de matadores em escolas. Apenas seis tinham claro interesse em videogames violentos e outros sete em filmes violentos.

Claro, o papel da mídia é importante na divulgação de exemplos. "Os rampage killers tiram ideias de algum lado", como afirmou o jornal.

Culpar os videogames pela violência dos jovens é deixar de considerar outros fatores importantes que se combinam para produzir a tragédia, segundo Karen Sterheimer, socióloga da Universidade da Califórnia do Sul, que pesquisa o assunto desde 1999.

Um em cada 12
Os habitantes de Windsor, no Canadá, e de Detroit, nos Estados Unidos, assistem aos mesmos filmes e programas de TV, compram os mesmos CDs de rap. Há 20 vezes mais homicídios em Detroit que em Windsor.

O Japão é conhecido pela violência nos videogames que produz. No entanto, tem a mais baixa taxa de homicídio por arma de fogo entre os países industrializados - 0,6 a cada cem mil habitantes.

Um em cada 12 alunos no mundo estão expostos a algum tipo de violência no ambiente escolar, de acordo com estimativa do Observatório Internacional da Violência na Escola.

Até mesmo no Japão: em 2004, uma menina de 11 anos matou a colega com um estilete, por ter se irritado com um comentário feito sobre ela na internet.

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