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Anita Malfatti: 100 anos da arte moderna no Brasil

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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    "Nu cubista nº 1" (1915), pintura de Anita Malfatti

    "Nu cubista nº 1" (1915), pintura de Anita Malfatti

Como era o Brasil há 100 anos? O país vivia a República Velha (1889-1930), instaurada após a queda do Império. A economia brasileira era dominada pelas oligarquias do Sudeste, que se alternavam no poder político. O interior do Brasil ainda era considerado um “grande sertão”, que mantinha as estruturas tradicionais do coronelismo.

Mas o início do século XX foi um período de grandes transformações políticas, sociais e culturais no mundo. As novidades como o avião, o automóvel e o cinema, a psicanálise de Sigmund Freud ou a teoria da relatividade de Einstein originaram novos modos de vida e pensamento.

Em 1914, a Primeira Guerra Mundial eclodiu na Europa. No Brasil, a guerra provocou um incentivo à indústria nacional, que precisou se desenvolver para substituir as importações. Este impulso à industrialização fez nascer uma burguesia industrial e o operariado.

Neste período, a cidade de São Paulo crescia rapidamente com os lucros do café. Ela passou a receber muitos migrantes oriundos da zona rural do país, além de imigrantes vindos de fora do País. Mas ela ainda era uma cidade “provinciana”, muito acanhada em termos de vida cultural.

Em 1917, uma exposição de pintura na cidade de São Paulo chamou a atenção da opinião pública. A Exposição de Pintura Moderna trazia 53 quadros de Anita Malfatti (1889-1964), uma jovem artista brasileira de 28 anos até então pouco conhecida.

Anita acabara de voltar ao Brasil depois de estudar em escolas de Belas Artes na Alemanha (1910-1913) e nos Estados Unidos (1914-1916). Vivendo em cidades como Berlim e Nova Iorque, ela teve contato direto com movimentos artísticos de vanguarda como o cubismo, o futurismo e o impressionismo. Mesmo com uma deficiência na mão e no braço direito, ela decidiu seguir a carreira de pintora, pintando com a mão esquerda.

A exposição de Anita foi recebida com assombro e curiosidade. Os quadros quebravam as regras e desafiavam o padrão vigente: não traziam o realismo e o naturalismo das pinturas acadêmicas, marcadas por composições em equilíbrio e traços fiéis à realidade (heranças do século 19).

Uma mulher de cabelos verdes. Outra com expressão facial anormal e desarmônica. Um rosto de homem com a imagem distorcida. As telas de Anita eram caracterizadas pelo aspecto expressionista, com pinceladas livres e rápidas, pessoas com anatomia deformadas, paisagens e retratos com cores fortes e contrastantes.

O evento de 1917 é considerado a primeira exposição de arte moderna do país e a semente do modernismo brasileiro, movimento artístico que queria romper com a arte tradicional e trazer uma renovação na linguagem artística.

A visitação da exposição foi intensa e Anita chegou a vender oito quadros. Mas o trabalho recebeu uma enxurrada de críticas dos conservadores e provocou reações violentas. A crítica derradeira veio do escritor Monteiro Lobato, que fez um texto feroz sobre as inovações plásticas apresentadas. No dia seguinte, ela passou a ser atacada pela imprensa.

No artigo “Paranoia ou Mistificação?”, Lobato compara Malfatti a artistas que “veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento”.

A repercussão negativa da crítica de Lobato causou forte impacto em Anita e teria sido um divisor de águas em sua carreira. A artista entra em depressão fez uma pausa na pintura. Um ano depois, decide tomar aulas de natureza-morta e se aproxima do realismo. Nos próximos anos, Anita enveredou por novos caminhos, buscou um menor radicalismo e um pouco mais de “ordem”.

Mas o pontapé do modernismo já estava dado. Anita representou o pioneirismo da pintura de vanguarda no Brasil. Após a exposição de 1917, as mudanças seriam irreversíveis. Os modernistas como Menotti Del Pichia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade saíram em defesa de Anita e as críticas de Lobato soaram como uma declaração de guerra, que inspiraram a criação da Semana de Arte Moderna de 1922.

Anita foi um elemento catalisador para o Modernismo no Brasil. “Foi ela, foram os seus quadros, que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras", disse o escritor Mário de Andrade.

A Semana de Arte Moderna de 1922 reuniu em São Paulo, escritores, artistas e intelectuais com o objetivo de discutir a identidade nacional, compreender a cultura brasileira e os rumos das artes. Anita participou da exposição de artes plásticas com 22 trabalhos, entrando de vez no círculo modernista. Ela recebeu vaias e críticas da imprensa da época, especialmente dos defensores do academicismo, mas o saldo foi a entrada do Brasil na modernidade.

O modernismo brasileiro foi um movimento de contestação aos velhos padrões estéticos, de romper com estruturas mentais tradicionais e um esforço de repensar a realidade e identidade nacional. No campo das ideias, houve a valorização das raízes da nossa cultura indígena, africana e caipira, mas também sua fusão com elementos do progresso e do futuro.
Nas décadas seguintes, o modernismo influenciou movimentos como o Tropicalismo, o Cinema Novo, a poesia marginal, entre outros.
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Nos anos 40, depois da morte de sua mãe e de seu grande amigo, Mário de Andrade, Anita se recolhe em sua chácara em Diadema (SP), onde viverá reclusa até sua morte, em 1964. Ela morreu aos 75 anos, tendo conquistado grande prestígio, principalmente por suas obras feitas durante a década de 1910, como os famosos quadros “Homem Amarelo”, “A chinesa”, “Farol” e “A boba”.

PARA SABER MAIS:

  • A Semana de 22: Entre Vaias e Aplausos, de Marcia Camargos. Editora Boitempo, 2002

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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