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Acordo de Paris: Estados Unidos anunciam saída do tratado. O que isso significa?

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

  • Saul Loeb/ AFP

    1.jun.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, anuncia a saída do país do Acordo de Paris

    1.jun.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, anuncia a saída do país do Acordo de Paris

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no dia 1º de junho de 2017 a decisão de retirar o país do Acordo de Paris, que define os compromissos globais na luta contra os efeitos das mudanças climáticas. Os termos e as condições da retirada deverão ser conhecidos progressivamente.

Trump reclamou que o acordo, assinado durante o governo do seu antecessor, Barack Obama, oferece aos outros países uma vantagem injusta sobre a indústria americana e destrói os empregos dos americanos.

Firmado em 2015, o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima é um tratado internacional que reúne compromissos voluntários de 195 países para a redução de gases de efeito estufa (GEE) nas próximas décadas. O principal objetivo é manter o aquecimento global no nível tolerável, entre 1,5 e 2 graus Celsius até 2100.

Sucessor do Protocolo de Quioto, o Acordo de Paris é considerado por muitos como um “feito histórico”. Ele é o resultado de uma complexa negociação climática internacional que envolveu as Nações Unidas e dezenas de países. O desafio político foi enorme. Foram mais de 10 anos de negociações para que os governos pudessem apresentar metas de redução das emissões e ações e adaptação às mudanças climáticas. 

Os Estados Unidos representam um dos mais importantes atores na costura do Acordo. Segundo maior poluidor do mundo, atrás apenas da China, os EUA respondem por 20% das emissões de gases que provocam o efeito estufa. O país precisa reduzir 32% das suas emissões até 2030, tendo como base o ano de 2005.

Com a saída dos americanos, um ponto de indefinição é o modelo de financiamento climático do Acordo de Paris. As nações ricas são as mais poluentes e assumiram o compromisso de financiar projetos de adaptação climática em países em desenvolvimento, os chamados países “do Sul”.

Trump chegou a afirmar que usaria a verba destinada a esses países para “consertar o meio ambiente” dos Estados Unidos. Sem a verba do governo norte-americano, não se sabe se os valores arrecadados para o Fundo Verde das Nações Unidas serão suficientes no futuro.

Outra preocupação é que a saída dos Estados Unidos possa representar uma “bola de neve” e levar outros países a rever sua participação e compromissos assumidos. Por enquanto, esse efeito ainda não foi sentido e o acordo foi reafirmado por países como o Brasil, Alemanha e França.

Logo após a retirada americana do pacto, a China prometeu continuar com o tratado. "Pensamos que o Acordo de Paris reflete o maior consenso da comunidade internacional a respeito da questão da mudança climática. As partes envolvidas devem cuidar deste resultado tão dificilmente alcançado", afirmou a porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying.

Os “céticos climáticos” nos EUA

Os cientistas meteorológicos têm mantido registros da temperatura na superfície da Terra nos últimos 150 anos. Essas informações provariam que a Terra está ficando mais quente.

Apesar das pesquisas, o magnata Donald Trump é reconhecido por negar a existência das mudanças climáticas decorrentes da ação humana. Em novembro de 2012, Trump escreveu no Twitter que o conceito de aquecimento global “foi criado pelos chineses para tornar não-competitiva a indústria dos EUA”. Durante as eleições, ele também declarou que o Acordo de Paris era prejudicial aos interesses da economia dos Estados Unidos.

Trump não está sozinho. Existe um forte movimento nos Estados Unidos que rejeita o consenso científico sobre o aquecimento global e principalmente suas causas. Muitos acreditam que ele seja um fenômeno natural climático sem relação com a emissão de poluentes.

Grandes empresas da área de energia já fizeram campanhas de comunicação para desqualificar as pesquisas sobre as mudanças de clima, com medo de que o tema possa influenciar na produção industrial.

Na política, a principal posição negacionista é a do Partido Republicano, pelo qual Trump foi eleito. O partido questiona o peso da atividade humana no clima do planeta, além de rejeitar argumentos econômicos favoráveis à adoção de formas limpas de geração de energia.

Um futuro dramático

De acordo com a previsão de cientistas ligados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), caso as emissões de carbono continuem nos níveis atuais, o aumento de temperatura a níveis perigosos será irreversível. As consequências podem ser alterações imprevistas na dinâmica climática do planeta nas próximas décadas.

A Terra poderá ter uma maior elevação do nível do mar, derretimento de geleiras, a extinção em massa de espécies, a desertificação de biomas e a maior intensidade de eventos climáticos extremos como tempestades, enchentes, secas e furacões.

As metas assumidas pelos governos no Acordo de Paris podem efetivamente reduzir o potencial de aquecimento do planeta neste século. Diversos cenários futuros já foram estudados.
No mais otimista, o mundo terá deixado de emitir quatro gigatoneladas de CO2 para a atmosfera em 2030. Porém, as contribuições são insuficientes para limitar o aumento de temperatura média global a 2,0 graus (considerado seguro) nos próximos 75 anos.

Para permanecer abaixo do teto de 2 graus, seria preciso um modelo de consumo que não dependa do uso de carvão, gás e petróleo.

No cenário mais pessimista, em que nem todos os 146 países reduzam emissões como prometeram, a temperatura média global pode subir perigosamente entre 4 a 5 graus até 2100, o que provocaria mudanças muito bruscas no equilíbrio do planeta.

A Era da Descarbonização

A ideia de reduzir a atividade econômica para alcançar as metas sempre foi um ponto polêmico para os países. Mas essa visão está ultrapassada. Um estudo recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que a implementação dos objetivos de redução de emissões previstos pelo Acordo de Paris pode elevar a produção econômica nas 20 maiores economias do mundo em até 2,8% nas próximas décadas.

Como praticamente todos os países precisam diminuir as emissões de carbono, a economia das próximas décadas será marcada pelo compromisso de “descarbonização”. A palavra tem sido usada por empresas e governos para designar projetos e tecnologias que reduzam o uso de combustíveis fósseis. A lógica é que, no futuro, reduzir emissões fará a economia crescer, pois será necessário investir em ações de adaptação e em modelos inovadores de negócios.

Nos Estados Unidos, o estado da Califórnia é o destaque. Apesar de Trump ter anunciado a saída do país do Acordo de Paris, o estado se comprometeu na última década a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2030. O estado também é um grande propulsor do uso de energia solar e de carros elétricos.

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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