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A negação da política: os políticos nunca foram tão impopulares?

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

O que você pensa quando escuta alguém dizendo “não gosto de política”? A política é uma atividade inerentemente humana e está sempre presente em nossas vidas. Ela faz parte da organização social, da administração de um município, estado ou nação. De tudo que é público.

O político é o profissional eleito ou indicado que atua na esfera da organização pública. Em eleições recentes, diversos candidatos sem tradição na política conquistaram popularidade justamente por se apresentarem como não políticos --pessoas que não possuem experiência política e trajetória no governo.

Na cidade de São Paulo, o prefeito eleito João Doria (PSDB) repetiu inúmeras vezes em sua campanha a expressão “não sou político, sou empresário”. Ele apostou na imagem de gestor e administrador de empresas bem sucedidas, algo bem distante dos políticos tradicionais.

Em Belo Horizonte (MG), o prefeito eleito Alexandre Kalil (PHS), empresário e ex-presidente do clube de futebol Atlético Mineiro, lançou o slogan “Chega de político” e repetiu diversas vezes que era contra a chamada “velha política”. Apesar de ter sido apontado por seus oponentes como um candidato sem propostas, seus eleitores o veem como uma alternativa de mudança, uma terceira via entre a polarização do PT e PSDB.

Também chama a atenção o alto índice de abstenção de votos, com eleitores que votaram branco, nulo ou que não compareceram à votação. Na capital mineira a abstenção foi de 22,77%. Em São Paulo, 21,84% dos eleitores deixaram de votar. A porcentagem representa o maior índice de abstenções e votos inválidos das últimas seis eleições municipais. Um sintoma da falta de engajamento da população na política.

A afirmação de que um candidato não é um político é errada. Isso porque toda disputa eleitoral é política e todo cargo político envolve práticas políticas como a negociação, o debate ou votações. É impossível governar apenas baseado em critérios técnicos. Por exemplo, uma proposta do prefeito pode ser votada ou fiscalizada por vereadores.

Embora seja contraditório, o discurso da negação da política tenta agradar e atender às expectativas de um público que tem rejeição a políticos. É uma estratégia de comunicação que pode fazer sentido para eleitores ansiosos por mudanças.

As manifestações populares que ocorreram no Brasil em 2013 desencadearam, entre outras reações, o sentimento coletivo de rejeição a políticos. Durante as manifestações era comum a hostilização de pessoas com símbolos partidários. Novas demandas sociais surgiram, sem que os políticos pudessem dar uma resposta ou oferecer saídas.

Uma pesquisa feita pelo Instituto Ibope, em julho de 2015, mostrou que a confiança do brasileiro nos partidos caiu de 30 para 17, numa escala de zero a 100. Essa decepção é uma consequência da crise nacional e da sucessão de escândalos de corrupção que envolvem um grande número de políticos do país, como os revelados pela operação Lava Jato.

Neste cenário, a estratégia de campanha de muitos candidatos nas últimas eleições foi apostar na própria história e na força da figura pessoal, sem dar muito destaque ao partido. Assim, atraíram votos de quem não tolera a classe política e acredita que os políticos são corruptos, desonestos, incapazes ou ladrões.

Um novato nos Estados Unidos

Em novembro deste ano, o republicano Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Sem experiência na política, ele é dono de grandes empresas e chegou a apresentar um programa de TV nos EUA.

No início da sua candidatura, Trump representava um tiro no escuro e alcançou o índice de rejeição mais alto da história das pesquisas eleitorais nos EUA. Hillary Clinton, sua adversária democrata, também tinha um alto índice de rejeição, com uma imagem que para muitos soava como a continuidade do que já existe, “o mais do mesmo”.

Durante sua campanha, Trump repetia que não era “um político de profissão”. Além disso, ele abusou do politicamente incorreto e usou em toda sua campanha um discurso agressivo que envolvia críticas a imigrantes, latinos, mulheres, mulçumanos e afro-americanos.

Apesar de ser considerado repulsivo por grande parte do eleitorado norte-americano, a falta de papas na língua transformou Trump como alguém que falava o que pensa. Coisas que nenhum político costuma externar abertamente. Um discurso que fazia sentido principalmente para trabalhadores brancos de baixa escolaridade, uma eleitorado que foi fundamental para que Trump ganhasse.

No mundo inteiro, os índices de popularidade dos governantes e dos políticos estão bem abaixo das médias históricas. As pessoas estão desencantadas com a política, seja ela a tradicional ou a futura.

Segundo analistas, a decepção da sociedade com os políticos é um fenômeno explicado por um conjunto de fatores. Os principais fatores seriam a crise econômica e a recessão, que afetaram praticamente todos os países do mundo ao longo da última década.

Historicamente, o índice da popularidade dos governantes varia junto com as taxas de crescimento da economia. Se a economia está bem, a população fica mais satisfeita. A crise também tende a aumentar o desejo de mudança e a eficácia de discursos radicais e extremistas.

Outro fator a influenciar a política são as redes sociais, que permitem o aumento de conexões e a troca de informações entre as pessoas. Nas redes sociais, as polêmicas, as manifestações de ódio e a atuação de um político se espalham rapidamente. Assim como o poder de mobilização para uma causa.

A negação da política e sua relação com o totalitarismo

“Deviam acabar com os partidos políticos”, “eu me orgulho de não votar”, “o que importa é o candidato, não o partido” são frases comuns e que demonstram o desencanto com a atividade política.

Mas o que seria um mundo sem política? Seria um lugar mais autoritário. Um espaço sem diálogos, debates de ideias e participações coletivas em decisões de interesse público ou da sociedade.

A palavra autoritarismo significa um modo antidemocrático de exercer o poder. Em um mundo onde a política tem espaço, o povo pode fazer escolhas. A eleição e a pressão popular para vetar ou aprovar medidas afetam decisões em todos os campos: saúde, emprego, educação, leis, obras, economia, assistência social entre outros. É por isso que um povo que se desinteressa pela política negligencia seus próprios direitos.

O filósofo político Norberto Bobbio define um regime autoritário como aquele que privilegia a autoridade governamental e concentra o poder político nas mãos de uma só pessoa ou de um só órgão, colocando em posição secundária as instituições representativas. São algumas características a ausência de Parlamento e de eleições populares e a falta de diversidade de partidos (outras posições políticas não são aceitas).

Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a economia da Europa estava em frangalhos. Em meio à crise, o continente assistiu ao surgimento de ideologias autoritárias: o nazismo e o fascismo.

A crise de 1929 agravou a situação da Alemanha, ocasionando o desemprego e favorecendo a ascensão do Partido Nazista ao poder, liderado por Hitler. O regime nazista tinha como características o nacionalismo, o militarismo e o antissemitismo.

O movimento fascista surgiu na Itália no início da década de 1920 e acabou inspirando outros regimes de políticos de viés totalitário, como os da Espanha e de Portugal. Foram características desse regime a forte hierarquia partidária e a valorização do aparato militar.

A União Soviética também viveu um regime autoritário, sob o governo comunista de Stálin (1924 a 1953), com forte controle do Estado e cerceamento às liberdades individuais.

Se a negação da política pode levar a um esvaziamento da democracia, a resposta para a mudança parece estar na mudança da política. O que levaria a um dilema: se são os políticos que têm o poder de fazer reformas e mudar as regras da política, como mudar?

O voto consciente (aquele que é baseado na análise de informações), o controle social, a conduta ética e a cobrança por resultados parecem ser caminhos mais seguros para a transformação e para a escolha dos futuros governantes. 

Por Carolina Cunha, da Novelo Comunicação

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