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Viaduto Antártica e Linha Vermelha em chamas: dezenas de desabrigados. Já acostumados com os flagelados das inundações, dos deslizamentos de encostas, dos incêndios em favelas e cortiços, começamos a nos habituar com as vítimas da destruição de pontes e viadutos. Aliás, os reflexos dos incêndios sobre o trânsito parecem importar mais do que o destino dessas pessoas.

Ao longo do século 20, especialmente a partir dos anos 40, as cidades brasileiras incharam de maneira vertiginosa. A industrialização e a perpetuação de estruturas políticas e socioeconômicas atrasadas nas zonas rurais criaram um gigantesco êxodo.

Como o princípio norteador da política e da economia do Brasil é a concentração, a riqueza e o poder afluíram para os grandes centros urbanos, atraindo massas imensas de pessoas.

Essa metropolização se deu de maneira caótica, sem planejamento a médio e longo prazo, priorizando os interesses de alguns grupos políticos e econômicos. Já que o fluxo de pessoas, mercadorias e capitais é tão importante quanto a expansão das áreas de dinamismo econômico, o espaço destinado à moradia acaba verticalizado ou segregado horizontalmente, na periferia.

Parte considerável da população migrante não foi absorvida pela nova economia urbano-industrial e sofreu uma dupla marginalização (socioeconômica e espacial) e acabou sendo expulsa para regiões mais distantes e sem infra-estrutura, ou simplesmente ocupou os espaços disponíveis (cortiços e favelas).

Paralelamente a isso, por ser privilegiado o transporte individual (símbolo de status e gerador de lucros), a metrópole necessita cada vez mais de sistemas de circulação. Conseqüentemente os espaços considerados secundários, ocupados pelos menos favorecidos, são substituídos por avenidas, pontes e viadutos.

Se considerarmos que possuir um local para morar é a prioridade, a ocupação das calçadas, das marquises, das pontes e dos viadutos acaba sendo compreensível. Não é aceitável, mas é compreensível. Quando houve os incêndios nos viadutos, as vítimas foram, dentro da lógica desta sociedade, vistas como meras invasoras, não como gente, pessoas que, mesmo sob um viaduto, podiam afirmar: "É aqui que eu moro, este é o meu lugar".

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