Sertão nordestino pode se desenvolver

Márcio Masatoshi Kondo*

Especial para a Folha de S.Paulo

Tido como a "região problema" do país, o Nordeste possui 1.560.000 km² de área, sendo menor que o Norte mas com 47 milhões de habitantes, superado apenas pelo Sudeste.

Em virtude de um quadro natural heterogêneo (planalto da Borborema, planaltos e chapadas da bacia do Parnaíba, planícies e tabuleiros litorâneos, depressão sertaneja e do São Francisco, além de clima semi-árido com caatinga e tropical com cerrado, matas atlântica e dos cocais, restingas e mangues), a região é subdividida:
 

  • Zona da Mata: do Rio Grande Norte à Bahia possui clima úmido, solo fértil e vegetação exuberante substituída por lavouras. É turística, urbano-industrial e produtora de petróleo;
     
  • Agreste: faixa de transição entre a Zona da Mata e o sertão, com intensa atividade agropastoril, minifúndios e muito povoada;
     
  • Sertão: clima semi-árido e caatinga, solos rasos e assolado pela seca, mas possui boas condições para a agricultura no vale do São Francisco;
     
  • Meio-norte: faixa de transição entre o sertão e a Amazônia, destaca-se pela rizicultura irrigada e pelos babaçuais.

    Das sub-regiões, a Zona da Mata é a mais visitada e o sertão é a mais falada. Afinal, apesar da cultura, do turismo, do petróleo, do açúcar, a imagem mais recorrente do Nordeste é a da seca.

    O interior nordestino, em que pese o "boom" econômico (com projetos de irrigação no vale do São Francisco e a instalação de indústrias), ainda é uma área pobre por conta, dizem, da seca. O sertanejo, ainda um forte, sempre conviveu com esse flagelo. Não é de hoje que as vítimas das secas morrem de fome, de doenças e migram para outras regiões. A seca é como um filme de terror constantemente reprisado: a região não tem peso político e econômico, fica longe dos centros de poder e é dominada por elites que ainda acreditam no pacto colonial e que, para garantir terras e votos (não somos uma democracia?), controlam privadamente a água pública e desviam recursos.

    O sertanejo é vítima dos projetos inúteis, mirabolantes e caros, da corrupção, do descaso e do assistencialismo. É refém da seca, é massa de manobra, mão-de-obra barata para os ricos Estados do centro-sul, que podem reviver a escravidão e ampliar sua riqueza. Como dá lucro e poder, a seca deve ser mantida.

    Com vontade e investimentos sérios em produção e educação (se bem que povo educado é povo perigoso), o sertão pode se desenvolver. Israel e Califórnia provam que a seca não é um obstáculo intransponível. Nunca foi a seca. Sempre foi a cerca.

Márcio Masatoshi Kondo*

Especial para a Folha de S.Paulo

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