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A Rosa do Povo
Drummond de Andrade Márcia Lígia Guidin*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Cinqüenta e cinco poemas compõem a obra "A Rosa do Povo", que foi escrita por Carlos Drummond de Andrade entre os anos de 1943 e 1945. É o mais longo de seus livros de poemas.
O próprio título do poema já traz uma simbologia: uma rosa nasce para o povo, será a poesia para o coletivo? Para tentar saber, vale a pena ler o poema "A flor e a náusea".
Nessa época, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial, e Drummond, que nunca fora alheio a questões ideológicas ou humanas, aos sofrimentos ou à dor na cidade ou no campo, escreveu nesse livro (ao lado de outros diversos temas) sua indignação e tristeza melancólica com o mundo, com a violência e com a necessidade de se ter uma ideoloogia.
Política e poesiaPor isso, os estudiosos dizem que este talvez seja o livro mais "politizado" do poema mineiro. Essa obra, na verdade, funde as idéias sociais que estão em outros dois livros ("José" e "Sentimento do Mundo"). Drummond, acrescenta ao tema social seu desencanto, seu pessimismo. Sabia da Guerra; morava no Rio e via como Brasil ansiava por sair do Estado Novo e queria um regime democrático.
Todas essas questões, é claro, intervieram nas criações. E, em muitos de seus poemas deste livro, Drummond confessa a impotência da poesia só para criar beleza. Havia um inconformismo dos artistas com a crueldade que se via no mundo era geral, e uma pergunta que o mineiro Drummond nunca deixou de se fazer: para que serve a poesia?
No poema "Carta a Stalingrado", (cidade em que os soviéticos vencem os alemães) diz Drummond que a poesia foi parar nos jornais:
A palavra poéticaTelegramas são notícias da guerra. Homero é o autor das epopéias "Ilíada" e "Odisséia", poemas épicos e heróicos por excelência. Drummond nos diz de forma tão simples quanto o mundo mudou. A temática engajada política e socialmente está sempre presente no livro. Mas há outra, muito forte: usemos a palavra poética; é claro que, apesar de tudo, devemos fazer poesia, pensa o poeta.
E essa poesia urbana, de um poeta "antenado" deve sair modernista, ou seja, sem que nenhuma tradição a atrapalhe, sem rimas, sem estrofes, sem o cheiro do que é antigo. A força da "palavra poética" (apesar da dúvida sobre sua utililidade) é um dos temas mais caros ao poeta. No primeiro (e mais famoso) poema do livro, "Consideração do poema", o poeta diz:
Participação e desencantoPredomina no conjunto dos poemas uma dualidade: de um lado devemos participar politicamente da vida; de outro, só é possível ter uma visão triste e desencantada da vida. Seria a esperança contra o pessimismo? As duas coisas, provavelmente, dizem os leitores do poeta. O fato é que, diferentemente do humor de outros livros, nestes poemas CDA tem um tom solene, grave e triste. Vejamos um trecho de outro famoso poema, "Procura da poesia":
Ou então, vejamos como o poeta vê a si mesmo no cotidiano da cidade, em outro famoso poema: "A flor e a náusea":
MetalinguagemA poesia sobre a propria poesia (a que chamamos poesia metalingüística) comparece todo o tempo neste livro. Mas há também a virtude de se refletir sobre um passado (romântico), quando o mundo era mais organizado e talvez mais feliz. É o que diz o poeta, quando cria a "Nova canção do exílio", paródia e homenagem a Gonçalves Dias:
O fato é que o poeta, que desde o início de sua poesia dizia "Vai Carlos, se gauche na vida!"(Poema de sete faces, 1922) continua, aos quarenta anos, a sentir-se sozinho, como homem, como poeta. Ele nos diz no poema "América":
E como é grande a saudade dos amigos, que CDA sempre celebrou em tantos poemas. Em 1945 morre o grande amigo Mário de Andrade. Drummond lhe dedica o longo poema "Mário de Andrade desce aos infernos", que começa desta maneira:
ExistencialismoPassariam não vinte, mas quarenta anos mais de poesia drummoniana. Os temas sociais tratados em "A Rosa do Povo" abrandaram; o que nunca abrandou depois foram as perguntas que o poeta se faz sobre si mesmo neste mundo; a isso chamamos existencialismo, que também faz parte integrante deste livro.
Dos poemas de "A Rosa do Povo" não se pode deixar de ler os que aqui estão assinalados e mais alguns, como "O Medo", "Áporo", "Anúncio da Rosa" "Resíduo", "O Elefante" "Carta ao Homem do Povo Charles Chaplin e o famoso "Morte do Leiteiro".
O fato é que o uma flor sempre nasce, e vai aqui o que para ela deseja o poeta:
*Márcia Lígia Guidin é professora universitária de literatura, autora de "Armário de Vidro - Velhice em Machado de Assis", e dirige a Miró Editorial.
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