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Trechos do livro Pantaleón e as Visitadoras - Mario Vargas Llosa

Do Banco de Dados da Folha

Capítulo 1
- Acorde, Panta - diz Pochita. - Já são oito horas. Panta! Pantita!

- Oito horas? Já? Ai, que sono... - boceja Pantita. - E o meu galão, você pregou?

- Preguei, meu tenente - perfila-se Pochita. - Quer dizer, desculpe, meu capitão. Enquanto eu não me acostumo você continua tenentezinho, amor. Preguei, pode deixar, está lindo. Mas levante de uma vez. Seu compromisso não é às...

- Às nove, isso - ensaboa-se Pantita. - Para onde vão nos mandar, Pocha? Passe a toalha, por favor. O que você acha, nega?

- Para cá, para Lima - contempla o céu cinza, os terraços, os carros, os transeuntes Pochita. - Ai, fico com água na boca: Lima, Lima, Lima.

- Não sonhe. Lima nunca, que esperança - olha-se no espelho, dá o nó na gravata Panta. - Se pelo menos fosse uma cidade como Trujillo ou Tacna eu já ficava feliz.

- Que divertida esta notícia do El Comercio - faz uma careta Pochita. - Em Leticia um sujeito se crucificou para anunciar o fim do mundo. Puseram ele no hospício mas as pessoas tiraram à força, acham que é santo. Leticia é a parte colombiana da floresta, não é mesmo?

- Que bonito você fica de capitão, filhinho - põe na mesa a geléia, o pão e o leite dona Leonor.

- Agora é Colômbia, antes era Peru. Tiraram da gente - passa manteiga na torrada Panta. - Um pouquinho mais de café, mamãe.

- E se nos mandassem de novo para Chiclayo? - recolhe as migalhas num prato e retira a toalha dona Leonor. - Afinal, foi tão bom lá, não é mesmo? Para mim o importante é que não nos mandem para muito longe do mar. Ande, filhinho, boa sorte, vá com a minha bênção.

- Em nome do Pai e do Espírito Santo e do Filho que morreu na cruz - ergue os olhos para a noite, baixa os olhos para as tochas o irmão Francisco. - Minhas mãos estão atadas, o lenho é oferenda, persignem-se por mim!

- O coronel López López está me esperando, senhorita - diz o capitão Pantaleón Pantoja.

- Com dois generais - faz biquinho a senhorita. - Vá entrando, capitão. É, essa mesmo, a porta escurinha.

- Aí está o homem - levanta-se o coronel López López. - Entre, Pantoja, parabéns pela nova fitinha.

- Primeiro lugar no exame de promoção, e por unanimidade da banca - aperta a mão, bate no ombro o general Victoria. - Muito bem, capitão. É assim que se faz carreira e pátria.

- Sente-se, Pantoja - aponta um sofá o general Collazos. - Acomode-se e segure-se bem para ouvir o que vai ouvir.

- Não o assuste, Tigre - mexe as mãos o general Victoria. - Ele vai achar que queremos mandá-lo para o matadouro.

- Bom, se os chefões da Intendência tiveram que vir pessoalmente cientificá-lo de seu novo destino, é sinal de que a coisa tem seus senões - adota uma expressão grave o coronel López López. - É, Pantoja, trata-se de um assunto bastante delicado.

- A presença desses chefes é uma honra para mim - bate os calcanhares o capitão Pantoja. - Puxa, o senhor está me deixando muito encasquetado, meu coronel.

- Você quer fumar? - puxa uma cigarreira, um isqueiro o Tigre Collazos. - Mas não fique aí em pé. Sente-se. Como! Não fuma?

- Está vendo? Desta vez o Serviço de Inteligência acertou - acaricia uma fotocópia o coronel López López. - Direitinho. Não fuma, não entorna, não arrasta a asa.

- Um oficial sem vícios! - admira-se o general Victoria. - Nossa arma já tem um representante no Paraíso, para ficar juntinho de santa Rosa e de são Martim de Porres.

- Também não exagerem - fica vermelho o capitão Pantoja. - Devo ter um ou outro vício de que ninguém ficou sabendo.

- Estamos mais informados sobre o senhor do que o senhor mesmo - ergue uma pasta da escrivaninha e torna a pousá-la o Tigre Collazos. - Se soubesse quantas horas passamos estudando sua vida, o senhor ficaria vesgo. Sabemos o que fez, o que não fez e até o que virá a fazer, capitão.

- Podemos recitar sua folha de serviços de memória - abre a pasta, embaralha fichas e formulários o general Victoria. - Nem uma só punição enquanto oficial e cadete, só meia dúzia de advertências leves. Por isso foi escolhido, Pantoja.

- Entre uns oitenta oficiais da Intendência, nem mais nem menos - levanta uma sobrancelha o coronel López López. - Já pode estufar feito pavão-real.

- Agradeço-lhes o bom juízo que fazem de mim - turva-se a vista do capitão Pantoja. - Vou fazer o possível para corresponder a essa confiança, meu coronel.

- O capitão Pantaleón Pantoja? - sacode o telefone o general Scavino. - Não consigo ouvir nada. Você está me mandando o capitão Pantaleón Pantoja? Para quê, Tigre?

- Em Chiclayo o senhor deixou uma impressão magnífica - folheia um relatório o general Victoria. - O coronel Montes estava louco para mantê-lo. Parece que graças ao senhor o quartel funcionou feito um relógio.

- "Organizador nato, sentido matemático da ordem, capacidade executiva" - lê o Tigre Collazos. - "Chefiou a administração do regimento com eficácia e verdadeira inspiração." Nossa, o zambo Montes se apaixonou pelo senhor.

- Estou ficando sem graça com tanto elogio - baixa a cabeça o capitão Pantoja. - Sempre procurei cumprir com o meu dever, só isso.

- O Serviço das quê? - solta uma gargalhada o general Scavino. - Você e o Victoria estão de gozação comigo, Tigre? Olhe que sou um sujeito sério.

- Bom, vamos dar nome aos bois - sela os lábios com um dedo o general Victoria. - O assunto é estritamente confidencial. Refiro-me à missão que vamos lhe confiar, capitão. Abra o jogo, Tigre.

- Em suma: a tropa da floresta anda traçando as cholas* - cria coragem, pestaneja e tosse o Tigre Collazos. - Violações por todo lado e os tribunais não estão dando conta de julgar tanto safado. A Amazônia está que é um falatório só.

- Todo dia nos bombardeiam com queixas e denúncias - belisca o próprio queixo o general Victoria. - Até dos vilarejos mais perdidos aparecem comissões de protesto.

- Seus soldados estão abusando de nossas mulheres - torce o chapéu e perde a voz o prefeito Paiva Runhuí. - Há uns meses fizeram mal a uma cunhadinha minha e na semana passada quase fazem mal à minha senhora.

- Meus soldados não; os soldados da Nação - faz gestos apaziguadores o general Victoria. - Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta imensamente o contratempo de sua cunhadinha e fará o possível para ressarci-la.

- Será que agora estupro se chama contratempo? - desconcerta-se o padre Beltrán. - Porque foi o que aconteceu.

- Com Florcita foram dois sujeitos de farda lá da chácara; traçaram ela na estradinha mesmo - rói as unhas e saltita sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. - Com tanta pontaria que ela agora está grávida, general.

- A senhora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea - rosna o coronel Peter Casahuanqui. - Sem chorar, sem chorar, vai ver como resolvo isso.

- O senhor está imaginando que vou até lá fora? - soluça Dorotea. - E ficar sozinha na frente de todos os soldados?

- Eles vão desfilar por aqui, vão passar na frente da Guarda - esconde-se por trás da rede metálica o coronel Máximo Dávila. - A senhora fica espiando pela janela e assim que avistar os faltosos me mostra quem são, senhorita Jesús.

- Faltosos? - salpica cuspes o padre Beltrán. - Devassos, canalhas e miseráveis, falando claro. Fazer uma ignomínia dessas com a dona Assunta! Desonrar a farda desse jeito!

- Luisa Cánepa, minha empregada, foi violentada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso - limpa os óculos o tenente Bacacorzo. - Sei lá se ela gostou ou o que foi, meu comandante, mas a verdade é que agora ela pratica a putaria com o nome de Peitinhos e tem como cafetão uma bicha que chamam de Milcaras.

- Agora me mostre com qual destes carinhas deseja se casar, senhorita Dolores - passeia diante dos três recrutas o coronel Augusto Valdés. - E o capelão casa agora mesmo. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai de seu futuro filhinho?

- A minha senhora eles agarraram dentro da igreja - permanece duro na beirada do assento o carpinteiro Adriano Lharque. - Não na catedral, mas na igreja do Santo Cristo de Bagazán.

- Essa é a verdade, queridos ouvintes - urra Sinchi. - Nem o temor a Deus, nem o respeito devido à Sua santa casa, nem as nobres cãs dessa digníssima matrona que já é semente de duas gerações de cidadãos de Loreto contiveram os sacrílegos lascivos.

- Começaram num puxa para cá e empurra para lá, meu Jesus querido, queriam me derrubar no chão - chora dona Cristina. - Estavam caindo de bêbados, e precisava ver as sem-vergonhices que diziam. Na frente do altar principal, juro.

- A alma mais caridosa de toda a Loreto, meu general - retumba o padre Beltrán. - Ultrajada cinco vezes!

- Mais a filhinha dela, a sobrinhazinha e a afilhadinha, já estou informado, Scavino - sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. - Mas de que lado está esse padre Beltrán, afinal, do nosso ou do deles? Ele é ou não é capelão do Exército?

- Protesto como sacerdote e também como soldado, meu general - encolhe a barriga e estufa o peito o major Beltrán. - Porque esses abusos são tão prejudiciais à instituição quanto às vítimas.

- O que os recrutas queriam com a dama está erradíssimo, evidentemente - contemporiza, sorri, faz vênias o general Victoria. - Mas os parentes dela quase os matam a pau, não esqueça. Veja o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, orelha despregada. No caso houve empate, doutorzinho.

- Para Iquitos? - pára de borrifar água na camisa e levanta o ferro Pochita. - Ai, que longe, Panta.

- Com madeira fazes o fogo que cozinha teus alimentos, com madeira constróis a casa onde vives, a cama onde dormes e a balsa com que atravessas o rio - pende sobre o bosque de cabeças imóveis, rostos expectantes e braços abertos o irmão Francisco. - Com madeira fabricas o arpão que pesca o paiche, a pucuna que caça o ronsoco e o caixão onde enterras o morto. Irmãs! Irmãos! De joelhos por mim!

- Eis um problema e tanto, Pantoja - cabeceia o coronel López López. - Em Contamana o prefeito determinou que os moradores trancassem as mulheres em casa nos dias de folga da tropa.

- E, principalmente, que longe do mar - solta a agulha, faz o arremate e corta o fio com os dentes dona Leonor. - Será que lá na floresta tem muito pernilongo? Para mim é um suplício, você sabe.

- Dê uma olhada nesta lista - coça a testa o Tigre Collazos. - Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, claro, o mal exige medidas mais radicais do que casamentos forçados. Por enquanto castigos e admoestações não modificaram o panorama: soldado que chega à floresta vira fodão.

- Mas pelo jeito o mais desanimado com o lugar é você, amor - vai abrindo e sacudindo malas Pochita. - Por quê, Panta?

- Deve ser o calor, o clima, não lhe parece? - anima-se o Tigre Collazos.

- Muito possivelmente, meu general - gagueja o capitão Pantoja.

- A umidade morna, aquela exuberância da natureza - passa a língua nos lábios o Tigre Collazos. - Comigo acontece sempre a mesma coisa: é chegar na floresta e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver.

- Se a generala pudesse ouvi-lo - ri o general Victoria -, ai de suas garras, Tigre.

- No início pensamos que era a comida - dá uma palmada na barriga o general Collazos. - Que nas guarnições se usava muito tempero, alguma coisa que atiçasse o apetite sexual das pessoas.

- Consultamos especialistas, inclusive um suíço que custou os olhos da cara - esfrega dois dedos o coronel López López. - Um nutricionista carregado de diplomas.

- Pas d'inconvénient - anota numa caderneta o professor Bernard Lahoé. - Vamos preparar uma dieta que, sem diminuir as proteínas necessárias, enfraqueça a libido dos soldados em mais ou menos oitenta e cinco por cento.

- Não vá exagerar a dose - murmura o Tigre Collazos. - Também não queremos uma tropa de eunucos, doutor.

- De Horcones a Iquitos, de Horcones a Iquitos - impacienta-se o alferes Santana.

- É, gravíssimo, de extrema urgência. Não obtivemos os resultados previstos com a operação Rancho Suíço. Meus homens estão morrendo de fome, pegando tuberculose. Hoje desmaiaram mais dois durante a revista, meu comandante.

- Nada de brincadeiras, Scavino - segura o telefone entre a orelha e o ombro enquanto acende um cigarro o Tigre Collazos. - Já examinamos a questão por todos os lados e essa é a única solução. Aí vai o Pantojita com a mãe e a esposa. Bom proveito.

- Pochita e eu já nos acostumamos com a idéia e estamos felizes com a ida para Iquitos - dobra lenços, empilha saias, empacota sapatos dona Leonor. - Mas você continua com a alma lá embaixo. Por que isso, filhinho?

- O senhor é o nosso homem, Pantoja - levanta-se e segura-o pelos braços o coronel López López. - O senhor vai acabar com a nossa dor de cabeça.

- Afinal de contas é uma cidade, Panta, e linda, ao que dizem - joga panos no lixo, dá nós, fecha bolsas Pochita. - Não fique com essa cara! A puna teria sido pior, não é mesmo?

- Para falar a verdade, meu coronel, não sei de que jeito - engole saliva o capitão Pantoja. - Mas farei o que me ordenarem, naturalmente.

- Por enquanto, partir para a floresta - pega uma vareta e aponta um lugar no mapa o coronel López López. - Seu centro de operações será Iquitos.

- Vamos chegar à raiz do problema e liquidá-lo na origem - bate com o punho na mão aberta o general Victoria. - Porque, como o senhor deve ter adivinhado, Pantoja, o problema não é só as senhoras derrubadas.

- Também há os recrutas, condenados a viver como pombinhas virginais naquele calor tão pecaminoso - estala a língua o Tigre Collazos. - Servir na floresta é fogo, Pantoja, fogo.

- Nos povoados amazônicos todas as saias têm dono - comparece o coronel López López. - Não tem boteco nem mocinhas festeiras nem nada do gênero.

- Eles passam a semana trancados, executando missões na selva, sonhando com a folga - imagina o general Victoria. - Andam quilômetros até o povoado mais próximo. E o que acontece quando chegam?

- Nada, por causa da maldita falta de mulher - encolhe os ombros o Tigre Collazos.

- E os que não conseguem entrar no clima perdem a compostura e se atiram como pumas sobre o que lhes aparece pela frente assim que tomam um copinho de anisado.

- Já houve casos de viadagem e mesmo de bestialismo - explica o coronel López López. - Imagine que um cabo de Horcones foi flagrado levando vida conjugal com uma macaca.

- A símia responde pelo nome absurdo de Mamadeira da Quinta Quadra - segura o riso o alferes Santana. - Ou melhor, respondia, porque acertei um balaço nela. O degenerado está na cadeia, meu coronel.

- Quer dizer, a abstinência transforma o cara num corrupto daqueles - diz o general Victoria. - Provoca desmoralização, nervosismo, apatia.

- É preciso dar de comer àqueles famintos, Pantoja - solene, olha-o nos olhos o Tigre Collazos. - É aí que o senhor entra, é aí que vai aplicar seu cérebro organizador.

- Por que ficar tão perdido e caladinho, Panta? - guarda a passagem na bolsa e pergunta onde é o portão de embarque Pochita. - Vamos ter um grande rio, vamos poder nadar, fazer visitas às tribos. Anime-se, bobo.

- O que você tem que está tão esquisito, filhinho - observa as nuvens, as hélices, as árvores dona Leonor. - Não abriu a boca a viagem inteira. Por que está tão preocupado?

- Nada, mamãe, nada, Pochita - afivela o cinto Panta. - Estou bem, não está acontecendo nada comigo. Olhem, já estamos chegando. Esse aí deve ser o Amazonas, não é?

- Nesses últimos dias você estava parecendo um débil mental - põe os óculos escuros, tira o casaco Pochita. - Não dizia uma palavra, sonhava de olhos abertos. Meu Deus, que coisa infernal. Nunca vi você tão mudado, Panta.

- Estava meio preocupado com o meu novo destino, mas já passou - tira a carteira, estende algumas notas para o motorista Panta. - Isso, chefe, número 549, Hotel Lima. Espere, mamãe, ajudo você a descer.

- Você é militar, não é mesmo? - joga a maleta de viagem sobre uma cadeira, tira os sapatos Pochita. - Sabia que podiam mandar você para qualquer lugar. Iquitos não é ruim, Panta, você não está vendo que parece um lugar simpático?

- Você tem razão, me comportei como um bobo - abre o guarda-roupa, pendura um uniforme, um terno, Panta. - Vai ver que fiquei muito ligado a Chiclayo; juro que já passou. Bom. Vamos desfazer as malas. Que calorzinho danado, não é, minha nega?

- Eu por mim passava a vida morando em hotel - deixa-se cair de costas na cama, espreguiça-se Pochita. - Fazem tudo para você, não é preciso se preocupar com nada.

- E ficaria bem receber o cadete Pantoja num hotelzinho? - tira a gravata, a camisa, Panta.

- O cadete Pantoja? - abre os olhos, desabotoa a blusa, apóia um cotovelo no travesseiro Pochita. - Mesmo? Já podemos encomendá-lo, Pantita?

- Não lhe prometi, quando recebesse a terceira fitinha? - alisa, dobra e pendura as calças Panta. - Ele vai ser de Loreto, o que você acha?

- Maravilhoso, Panta - ri, bate palmas, balança-se no colchão Pochita. - Ai, que felicidade, o cadetinho, Pantita Júnior.

- Precisamos encomendá-lo o quanto antes - abre e aproxima as mãos Pantita. - Para que ele chegue rapidinho. Venha cá, nega, aonde você vai?

- Olhe só, o que é isso - salta da cama, corre para o banheiro Pochita. - Você ficou louco?

- Venha cá, venha cá, o cadetinho - tropeça numa valise, derruba uma cadeira Panta. - Vamos encomendá-lo agora, já. Ande, Pochita.

- Mas são onze da manhã, nós acabamos de chegar - estapeia, afasta, empurra, fica zangada Pochita. - Solte, sua mãe vai ouvir, Panta.

- Para estrear Iquitos, para estrear o hotel - arqueja, luta, abraça, escorrega Pantita. - Venha, amorzinho.

- Veja o que conseguiu com todas aquelas denúncias e queixas - brande um ofício coberto de selos e assinaturas o general Scavino. - A culpa também é sua, comandante Beltrán: veja só o que esse indivíduo veio organizar em Iquitos.

- Você vai rasgar minha saia - protege-se atrás do guarda-roupa, joga um travesseiro, pede trégua Pochita. - Não estou reconhecendo você, Panta! Você sempre tão certinho! O que está havendo com você? Deixe, eu mesma tiro.

- Eu queria sanar um mal, não causá-lo - lê e relê a fisionomia abochornada do comandante Beltrán. - Nunca imaginei que o remédio seria pior que a doença, meu general. Inconcebível, iníquo. O senhor vai permitir esse horror?

- O sutiã, as meias - sua, se joga, se encolhe, se espicha Pantita. - O Tigre tinha razão: a umidade morna, respira-se fogo, o sangue ferve. Ande, me belisque onde eu gosto. Na orelhinha, Pocha.

- De dia fico com vergonha, Panta - se queixa, se enrola na colcha, suspira Pochita. - Depois você vai querer dormir, não tem que estar no Comando às três? Você sempre dorme.

- Tomo uma ducha - se ajoelha, se dobra, se desdobra Pantita. - Não fale comigo, não me distraia. Me belisque a orelhinha. Assim, assim mesmo. Ai, acho que vou morrer, nega, nem sei mais quem eu sou.

- Sei muito bem quem é o senhor e o que vem fazer em Iquitos - murmura o general Roger Scavino. - E desde logo quero lhe dizer que não estou nem um pouco satisfeito com sua presença nesta cidade. Gosto de deixar as coisas claras desde o princípio, capitão.

- Desculpe, meu general - balbucia o capitão Pantoja. - Deve haver algum mal-entendido.

- Não estou de acordo com o serviço que vem organizar - aproxima a careca do ventilador e semicerra os olhos por um momento o general Scavino. - Sou contra desde o começo e continuo achando que é uma barbaridade.

- E principalmente uma imoralidade inominável - abana-se com fúria o padre Beltrán.

- O comandante e eu nada dissemos porque assim determina a hierarquia - desdobra o lenço e seca o suor da testa, das fontes, do pescoço o general Scavino. - Mas não estamos convencidos, capitão.

- Não tenho nada a ver com esse projeto, meu general - transpira imóvel o capitão Pantoja. - Foi a maior surpresa da minha vida quando me comunicaram, padre.

- Comandante - corrige o padre Beltrán. - Não sabe contar os galões?

- Desculpe, meu comandante - bate de leve os calcanhares o capitão Pantoja. - Não tive nenhuma participação, pode ter certeza.

- O senhor não é um dos cérebros da Intendência que idealizaram essa imundície? - pega o ventilador, aponta-o para os próprios rosto e crânio e pigarreia o general Scavino.

- De toda maneira, certas coisas têm que ficar bem esclarecidas. Não posso evitar que a coisa vá em frente, mas vou me esforçar para que as Forças Armadas saiam o menos possível salpicadas. Ninguém vai empanar a imagem que o Exército conquistou em Loreto desde que estou à frente da Quinta Região.

- Também é esse o meu desejo - olha por cima do ombro do general a água barrenta do rio, uma lancha carregada de bananas, o céu azul, o sol ígneo o capitão Pantoja. - Estou disposto a fazer o possível.

- Porque aqui o circo pega fogo se a notícia se espalha - levanta a voz, ergue-se, apóia as mãos no peitoril da janela o general Scavino. - Os estrategos de Lima planejam as sacanagens muito sossegados em seus escritórios porque se a coisa vem a público quem agüenta a tempestade é o general Scavino.

- Concordo com o senhor, acredite - sua, vê as mangas da farda se empaparem, implora o capitão Pantoja. - Eu jamais teria pedido essa missão. É uma coisa tão diferente de meu trabalho habitual que até nem sei se serei capaz de cumpri-la.

- Sobre madeira seu pai e sua mãe se uniram para fazê-lo e sobre madeira aquela que o pariu fez força e abriu as pernas para pari-lo - ulula e troveja, lá do alto, na penumbra, o irmão Francisco. - A madeira sentiu o seu corpo, tingiu-se com o seu sangue, recebeu as suas lágrimas, umedeceu-se com o seu suor. A madeira é sagrada, o lenho traz saúde. Irmãs! Irmãos! Abram os braços por mim!

- Por esta porta vão desfilar dezenas de pessoas, este escritório vai ficar repleto de protestos, de ofícios com assinaturas, de cartas anônimas - agita-se, dá alguns passos, volta atrás, abre e fecha o leque o padre Beltrán. - Toda a Amazônia vai pôr a boca no mundo e imaginar que o arquiteto do escândalo é o general Scavino.

- Já estou ouvindo o demagogo do Sinchi vomitando calúnias contra mim pelo microfone - se vira, se altera o general Scavino.

- Minhas instruções são para que o Serviço funcione cercado do maior sigilo - atreve-se a tirar o quepe, a passar um lenço na testa, a limpar os olhos o capitão Pantoja. - Pretendo ter essa instrução em mente em todos os momentos, meu general.

- E que diabos eu poderia inventar para acalmar as pessoas? - grita, contorna a escrivaninha o general Scavino. - Por acaso alguém pensou, em Lima, no triste papel que vou ter que representar?

- Se o senhor preferir, posso pedir hoje mesmo minha transferência - empalidece o capitão Pantoja. - Para lhe mostrar que não tenho o menor interesse no Serviço de Visitadoras.

- Puta eufemismo os gênios foram encontrar - bate os calcanhares de costas, olhando o rio que cintila, as cabanas, a planície de árvores o padre Beltrán. - Visitadoras, visitadoras.

- Nada de transferências; em uma semana me mandavam outro intendente - torna a sentar-se, a ventilar-se, a enxugar a careca o general Scavino. - Está em suas mãos o Exército não sair prejudicado da história. O senhor carrega nos ombros uma responsabilidade do tamanho de um vulcão.

- Pode dormir tranqüilo, meu general - enrijece o corpo, joga os ombros para trás, olha para diante o capitão Pantoja. - O Exército é a coisa que mais respeito e estimo na vida.

- A melhor maneira de servi-lo neste momento é manter-se afastado dele - suaviza o tom e ensaia uma expressão amável o general Scavino. - Pelo menos enquanto estiver no comando do tal Serviço.

- Perdão? - pestaneja o capitão Pantoja. - O que o senhor disse?

- Não ponha os pés no Comando nem nos quartéis de Iquitos, nunca - expõe a palma, o dorso das mãos às pás sibilantes e invisíveis o general Scavino. - O senhor fica eximido de assistir a todo e qualquer ato oficial, parada, ação de graças. Também fica eximido de envergar a farda. Usará exclusivamente trajes civis.

- Devo comparecer à paisana inclusive ao meu trabalho? - continua pestanejando o capitão Pantoja.

- Seu trabalho vai ficar muito distante do Comando - observa-o com receio, com consternação, com piedade o general Scavino. - Não seja ingênuo, homem. Por acaso imagina que seria possível instalarmos um escritório para o senhor aqui na cidade, para o tráfico que vai organizar? Destinei-lhe um depósito na periferia de Iquitos, na margem do rio. Compareça sempre à paisana. Ninguém deve ficar sabendo que o local tem qualquer tipo de vinculação com o Exército. Entendido?

- Sim, meu general - ergue e baixa a cabeça o boquiaberto capitão Pantoja. - Só que, quer dizer, eu não estava preparado para uma coisa dessas. Vai ser, sei lá, como mudar de personalidade.

- Faça de conta que foi nomeado para o Serviço de Inteligência - sai da janela, aproxima-se dele, concede-lhe um sorriso benevolente o comandante Beltrán -, que sua vida depende de sua capacidade de passar despercebido.

- Vou procurar me adaptar, meu general - balbucia o capitão Pantoja.

- Também não é conveniente que more na Vila Militar, de modo que procure uma casinha na cidade - passa o lenço pelas sobrancelhas, orelhas, lábios e nariz o general Scavino. - E lhe suplico que não mantenha relações com os oficiais.

- O senhor quer dizer relações de amizade, meu general? - impressiona-se o capitão Pantoja.

- De amor é que não vai ser - ri ou ronca ou tosse o padre Beltrán.

- Estou consciente de que é duro, de que vai ser difícil - concorda com amabilidade o general Scavino. - Mas não há outro jeito, Pantoja. Devido à sua missão, o senhor entrará em contato com toda a ralé da Amazônia. A única maneira de evitar que o fato atinja a instituição é o senhor mesmo se sacrificando.

- Curto e grosso: tenho que esconder minha condição de oficial - avista ao longe um garoto nu subindo numa árvore, uma garça rosa e manca, um horizonte de matagais que flamejam o capitão Pantoja. - Vestir-me como civil, andar com civis, trabalhar como civil.

- Mas pensar sempre como militar - dá uma pancadinha na mesa o general Scavino. - Designei um tenente para funcionar como elo de ligação entre nós. Vocês vão se encontrar uma vez por semana e através dele estarei a par de suas atividades.

- Não se preocupe nem um pouco: serei um túmulo - empunha o copo de cerveja e diz saúde o tenente Bacacorzo. - Estou informado de tudo, meu capitão. Podemos nos encontrar às terças-feiras, está bem para o senhor? Acho que nossas reuniões podem ser sempre em barzinhos, botecos. Agora o senhor vai ter que freqüentar muito esses ambientes, não é mesmo?

- Ele me fez sentir um delinqüente, uma espécie de leproso - passa em revista os macacos, papagaios e pássaros dissecados, os homens que bebem em pé no balcão o capitão Pantoja. - Como diabos vou começar a trabalhar se o próprio general Scavino me sabota? Se meus superiores são os primeiros a me desanimar, a me pedir que disfarce, que não me deixe ver?

- Você saiu tão contente para o Comando e mais uma vez volta com cara de tonto - se estica, lhe dá um beijo no rosto Pochita. - O que aconteceu, Panta? Você chegou tarde e levou uma bronca do general Scavino?

- Vou ajudá-lo em tudo o que for possível, meu capitão - oferece-lhe lasquinhas de chonta frita o tenente Bacacorzo.

- Não sou especialista, mas vou fazer o possível. Não se queixe, muitos oficiais dariam qualquer coisa para estar na sua pele. Pense na liberdade que vai ter; o senhor mesmo resolve seus horários, seu sistema de trabalho. Fora outras coisas gostosas, meu capitão.

- Vamos morar aqui, neste lugar tão feio? - olha as paredes descascadas, as divisórias sujas, as teias de aranha do teto dona Leonor. - Por que não lhe deram uma casa na Vila Militar, que é tão bonita? De novo a sua falta de coragem, Panta.

- Não vá imaginar que estou ficando derrotista, Bacacorzo, só que ando terrivelmente atrapalhado - prova, mastiga, engole, murmura delicioso o capitão Pantoja. - Sou um bom administrador, isso sou. Mas me tiraram do meu elemento e agora estou me sentindo um peixe fora d'água.

- O senhor já deu uma olhada no seu centro de operações? - enche novamente os copos o tenente Bacacorzo. - O general Scavino baixou uma circular: nenhum oficial de Iquitos tem permissão para se aproximar desse depósito do rio Itaya, sob pena de trinta dias de prisão incomunicável.

- Ainda não, amanhã cedo eu vou - bebe, limpa a boca, segura um arroto o capitão Pantoja. - Porque, vamos ser bem francos, para desempenhar essa missão a contento seria preciso ter experiência no assunto. Conhecer o mundo da noite, ter sido um pouco farrista.

- Você vai assim para o Comando, Panta? - se aproxima dele, apalpa a camisa de manga curta, fareja a calça azul, o bonezinho Pochita. - E a farda?

- Infelizmente não é o meu caso - se entristece, esboça um trejeito envergonhado o capitão Pantoja. - Nunca fui de aprontar. Nem quando era rapaz.

- Não vamos poder freqüentar as famílias dos oficiais? - esgrime o espanador, a vassoura, um balde, sacode, limpa, varre, se espanta dona Leonor. - Vamos ter que viver como se fôssemos civis?

- Imagine que nos meus tempos de cadete eu preferia ficar na escola estudando nos dias de saída - evoca nostálgico o capitão Pantoja. - Dando duro em matemática, principalmente, a matéria de que eu mais gosto. Nunca ia a festas. Pode parecer mentira, mas só aprendi a dançar as coisas mais fáceis: o bolerinho e a valsa.

- Nem os vizinhos podem saber que você é capitão? - esfrega vidros, enxágua assoalhos, pinta paredes, assusta-se Pochita.

- De modo que o que está acontecendo comigo é gravíssimo - olha em torno com apreensão, fala-lhe bem junto do ouvido o capitão Pantoja. - Como é possível que uma pessoa que jamais teve contato com visitadoras na vida organize um Serviço de Visitadoras, Bacacorzo?

- Uma missão especial? - encera portas, empapela armários, pendura quadros Pochita. - Você vai trabalhar com o Serviço de Inteligência? Ah, já estou desvendando todo o mistério, Panta!

- Imagino esses milhares de soldados à espera, confiantes em mim - examina as garrafas, se emociona, sonha o capitão Pantoja -, contando os dias e pensando já vêm, já vão chegar, e o meu cabelo se arrepia todo, Bacacorzo.

- Que segredo militar porcaria nenhuma - arruma guarda-roupas, costura cortininhas, tira o pó dos abajures, liga lâmpadas dona Leonor. - De segredo com a mamãezinha? Conte, conte!

- Não quero decepcioná-los - angustia-se o capitão Pantoja. - Mas que droga, por onde vou começar?

- Se você não contar, vai ter - estende camas, dispõe tapetes, enverniza móveis, arruma copos, pratos e talheres no aparador Pochita. - Nunca mais beliscõezinhos naquele lugar, nunca mais mordidinhas na orelha. Como você quiser, benzinho.

- Pelo começo, meu capitão - anima-o com um sorriso e um brinde o tenente Bacacorzo. - Se as visitadoras não vêm até o capitão Pantoja, o capitão Pantoja deve ir até as visitadoras. É o mais simples, acho.

- Espião, Panta? - esfrega as mãos, contempla o aposento, murmura como já melhoramos esta pocilga não é mesmo dona Leonor Pochita. - Como nos filmes? Ai, amor, que emocionante!

- Vá dar uma voltinha esta noite pelos bairros putanheiros de Iquitos - anota endereços no guardanapo o tenente Bacacorzo. - O Mao Mao, o 007, o Gato Zarolho, o São Joãozinho. Para se acostumar com o ambiente. Eu adoraria ir junto, mas o senhor sabe como é, as instruções de Scavino são categóricas.

- Aonde vai nessa estica, filhinho? - dona Leonor faz que sim, que ninguém o reconheceria, Pochita, merecemos um prêmio. - Minha nossa, que capricho, até gravata. Você vai torrar de calor. Uma reunião de alto escalão? À noite? Que engraçado você fica de agente secreto, Panta. Está bem, shhht, shhht, vou calar a boca.

- Pergunte em qualquer um desses lugares pelo China Porfirio - dobra e guarda o guardanapo no bolso do outro o tenente Bacacorzo. - É um sujeito que pode ajudá-lo. Consegue "lavadeiras" a domicílio. O senhor sabe do que estou falando, não é mesmo?

- Por isso ele não morreu afogado, nem queimado, nem enforcado, nem apedrejado, nem esfolado - geme e chora sobre a cintilação das tochas e o rumor das preces o irmão Francisco. - Por isso foi cravado num lenho, por isso preferiu a cruz. Ouça quem quiser ouvir, entenda quem quiser entender. Irmãs! Irmãos! Batam três vezes no peito por mim!

- Boa noite, ã-ham, hmmm, atchim - assoa o nariz, senta-se na banqueta, apóia-se no balcão Pantaleón Pantoja. - Isso, uma cerveja, por favor. Acabo de chegar a Iquitos, estou me familiarizando com a cidade. Mao Mao é o nome deste lugar? Ah, por isso as flechinhas, os tótens, agora estou entendendo.

- Aqui está, geladinha - serve, seca o copo, aponta o salão o garçom. - Isso, Mao Mao. Não tem quase ninguém porque hoje é segunda-feira.

- Tem uma coisa que eu gostaria de saber. Ã-ham, hmm, hmmm - limpa a garganta Pantaleón Pantoja -, se for possível. Só para minha informação.

- Onde encontrar mocinhas? - forma uma argola com o polegar e o índice o garçom. - Aqui mesmo, só que hoje elas foram ver o irmão Francisco, o santo da cruz. Veio do Brasil até aqui andando, dizem, e também que é milagreiro. Mas olhe quem está chegando. Ei, Porfirio, venha cá. Lhe apresento este senhor que está interessado em informações turísticas.

- Puteilos e gatinhas? - pisca um olho, faz uma reverência, estende a mão o China Porfirio. - Cralo, senhol. É um plazel. Em dois minutos exprico tudo. Vai custal só uma celvejota. Balato, né?

- Muito prazer - aponta a banqueta ao lado para que o China se instale Pantaleón Pantoja. - Claro, claro, uma cerveja. Não vá ficar imaginando coisas, meu interesse não é pessoal, é uma coisa técnica.

- Técnica? - se engasga o garçom. - Espero que o senhor não seja dedo-duro.

- Puteilos são pouquinhos - mostra três dedos o China Porfirio. - À sua saúde e boa vida. Dois decentes e um hololoso, pala mendigos. E tem ainda as gatinhas que vão de casa em casa, pol conta póplia. As "lavadeilas", sabia?

- Ah, é? Que interessante - estimula-o com sorrisos Pantaleón Pantoja. - Pura curiosidade, eu não freqüento esses lugares. O senhor tem ligações? Quer dizer, amizades, contatos com esses lugares?

- O China está em casa sempre que tem puta por perto - ri o garçom. - O pessoal chama ele de Fumanchu de Belén, não é mesmo, compadre? Belén, o bairro das casas flutuantes, a Veneza da Amazônia, o senhor já deu uma volta por lá?

- Já fiz de tudo na vida e não me alependo, senhol - sopra a espuma e bebe um golaço o China Porfirio. - Não ganhei dinheilo mas ganhei expeliência. Bilheteilo de cinema, motolista de lancha, caçadol de coblas de expoltação.

- E foi despedido de todos os empregos por ser putanheiro e aprontador, irmão - acende-lhe um cigarro o garçom. - Cante para este senhor o que a sua mãezinha profetizou!

China que nasce pobletão
Mole ladlão ou cafetão

Canta e se homenageia às gargalhadas o China Porfirio. - Ai minha mãezinha linda que está no santo céu. Como só se vive uma vez, vamos vivê-la, não é mesmo? Passamos pala a segunda geradinha da noite, senhol?

- Está bem, mas... ã-ham... - ruboriza-se Pantaleón Pantoja. - Tenho uma idéia melhor. Que tal trocar de cenário, meu amigo?

- Seu Pantoja? - transpira mel dona Chuchupe. - Com imenso prazer, pode passar, esteja em casa. Aqui tratamos todo mundo bem, tirando os bundões dos milicos, que pedem desconto. Oi, chininha bandido.

- O senhol Pantoja é de Lima e é amigo nosso - beija rostos, belisca traseiros o China Porfirio. - Vai ablil uma coisinha pol aqui. Você sabe, selviço de luxo, Chuchupe. Esse anão se chama Chupito e é a mascote do local, senhol.

- Explique direito: capataz, barman e leão-de-chácara, fiadaputa - distribui garrafas, recolhe copos, cobra contas, liga o toca-discos, manda mulheres para a pista de dança Chupito. - Quer dizer que esta é a primeira vez que o senhor vem à Casa Chuchupe?

Não há de ser a última, o senhor vai ver. Hoje não há muitas moças porque elas foram ver o irmão Francisco, o tal que ergueu aquela grande cruz na margem do lago Morona.

- Eu também estive lá, uma multidão inclível e os punguistas batalhando na maiol - distribui adeusinhos o China Porfirio. - O imão é bom de papo. Não dava pala entendel dileito, mas todo mundo se emocionava.

- Tudo o que cravas no lenho é oferenda, tudo o que acaba na madeira sobe e aquele que morreu na cruz recebe - salmodia o irmão Francisco. - A mariposa multicor que alegra a manhã, a rosa que perfuma o ar, o morcego de olhinhos fosforescentes na noite e até a farpa que se enfia por baixo das unhas. Irmãs! Irmãos! Plantem cruzes por mim!

- Que cara de homem sério! Mas muito sério ele não deve ser, se anda com esse China - limpa uma mesa com o braço, oferece cadeiras, se açucara Chuchupe. - Mande, Chupito, uma cerveja e três copos. A primeira rodada é por conta da casa.

- Sabe o que é uma chuchupe? - assobia, mostra uma pontinha da língua o China Porfirio. - A selpente mais venenosa da Amazônia. Imagine o que essa senhola não diz do gênelo humano pala melecel esse aperido.

- Fique quieto, seu esfarrapado - tapa-lhe a boca, enche os copos, sorri Chuchupe.

- À sua saúde, seu Pantoja, bem-vindo a Iquitos.

- Uma língua vipelina - aponta as treliças nuas das paredes, o espelho avariado, as proteções vermelhas das lâmpadas, as franjas dançantes da poltrona multicor o China Porfirio. - Só que é uma boa amiga e esta casa, mesmo estando um pouquinho passada, é a melhol de Iquitos.

- Mas dê uma olhada no material que ficou - vai apontando Chupito -: moreninhas, brancas, japonesas, até uma albina. Chuchupe tem muito bom olho para escolher seu pessoal, meu senhor.

- Que música boa, dá coceira nos pés - levanta-se, pega uma mulher pelo braço, arrasta-a para a pista, dança o China Porfirio. - Uma licencinha pala sacudil o esquereto. Venha cá, meu violãozinho.

- Posso lhe oferecer uma cerveja, dona Chuchupe? - força um sorriso sem graça e murmura Pantaleón Pantoja. - Eu gostaria de lhe pedir alguns dados, se não for incômodo.

- Que sem-vergonha mais simpático esse China, anda sempre duro mas como alegra a noite - amassa um papel, arremessa-o na direção da cabeça de Porfirio, acerta em cheio Chuchupe. - Não sei o que ele tem, todas são loucas por ele. Olhe só como ele se desloca.

- Coisas relacionadas com o seu, ã-ham, estabelecimento - insiste Pantaleón Pantoja.

- Claro, com muito gosto - fica séria, concorda, faz uma autópsia dele com o olhar Chuchupe -, mas eu não sabia que o senhor tinha vindo para falar de negócios, achei que era outra coisa, seu Pantoja.

- Estou com uma dor de cabeça horrível - se agacha, cobre-se com os lençóis Pantita. - Estou indisposto, com calafrios.

- Imagine se não ia doer, como você não havia de estar, aliás acho ótimo - sapateia Pochita. - Você se deitou pelas quatro e chegou torto, seu idiota.

- Vomitou três vezes - atarefa-se entre panelas, escovões e toalhas dona Leonor -, deixou o quarto todo cheirando, filhinho.

- Você vai me explicar o que significa isso, Panta - aproxima-se da cama, solta chispas pelos olhos Pochita.

- Eu já disse, amor, é coisa do trabalho - queixa-se entre travesseiros Pantita. - Você sabe de sobra que eu não bebo, que não gosto de noitadas. Fazer essas coisas é um suplício para mim, nega.

- Quer dizer que vai continuar fazendo? - gesticula, faz beicinho Pochita. - Deitar-se ao amanhecer, embriagar-se? Pois está muito enganado, Panta, pode ficar sabendo que está muito enganado.

- Vamos, não briguem - controla o equilíbrio do copo, da jarra, da bandeja dona Leonor. - Ande, filhinho, aplique estes paninhos frios e engula este Alka-Seltzer. Depressa, com as bolhinhas.

- É o meu trabalho, é a missão que me deram - desespera-se, afina, perde a voz Pantita. - Eu odeio isso tudo, você tem que acreditar. Não posso lhe contar nada, não me obrigue a falar, seria gravíssimo para a minha carreira. Tenha confiança em mim, Pocha.

- Você andou com mulheres - começa a soluçar Pochita. - Os homens não ficam bebendo até de manhã sem mulher por perto. Tenho certeza de que você andou com mulheres, Panta.

- Pocha, Pochita, minha cabeça está rachando, estou com dor nas costas - aperta um pano contra a testa, enfia a mão debaixo da cama, aproxima um penico, cospe saliva e bile Pantita. - Não chore, assim eu me sinto um criminoso, e eu não sou, juro que não sou.

- Feche os olhinhos, abra a boquinha - aproxima uma xícara fumegante, franze a boca dona Leonor. - E agora este cafezinho quentinho, filhinho.

(*) Cholas: mestiças de índio com branco. O termo, de uso muito popular, tem uma conotação pejorativa. (N. T.)

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