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Redação Unicamp 2000
Tema A - redação 3
Nome: CAROLINA RAQUEL DUARTE MELLO JUSTO Cidade: CAMPINAS-SP Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS ECONÔMICAS (N) Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE ESTABELECIMENTO PÚBLICO
A água como problema social Historicamente, a água
tem recebido diversas representações, significações
e valorações pelos povos no mundo. Há um ponto, contudo,
em que não há divergência entre eles: a importância
essencial da água para a sobrevivência humana.
Com base neste ponto, as
muitas culturas atribuíram as mais variadas gradações
de funções da água para a sociedade, desde as que
valorizam seu caráter divino-mitológico, passando pelas que
privilegiam seu papel essencialmente econômico para o desenvolvimento
(como no caso da fertilidade do solo, necessária à agricultura,
base das grandes civilizações antigas como Egito e Mesopotâmia)
até aquelas que a enfatizam como símbolo da higiene, da limpeza
e da "civilidade" - na Alemanha Nazista, os judeus eram comparados com
ratos, eram tidos como sujos não pertencentes à civilização
humana. Para diferenciar-se deles, a limpeza e a higiene foram colocadas
como lema para os alemães. Até recentemente, neste país,
ainda era costume a lavagem das ruas com desinfetantes e shampoos perfumados... Percebe-se aqui, portanto,
uma questão fundamental quando se fala em água: o seu aspecto
social. O problema primordialmente colocado sobre a água,
nos dias atuais, e que aparece normalmente como "ambiental" é, antes,
um problema social. A poluição dos mananciais e/ou a escassez
de água são problemas socialmente construídos
e, logo, requerem uma solução do mesmo tipo. No século XVIII,
de acordo com a construção da cultura burguesa, a água,
assim como a limpeza e a higiene de que é símbolo, passaram
a ser valorizadas como elementos de distinção entre as classes
superiores e as inferiores da sociedade. Nos dias de hoje, quando se observa
que os índices de mortalidade infantil, derivados das más
condições de saneamento básico, são bem maiores
entre as populações faveladas do que os observados para as
camadas mais altas da população, verifica-se que o "divisor
das águas" entre elas permanece também pelo tipo de acesso
à água: a exposição das camadas mais pobres
à água suja, contaminada, não-tratada é um
sinal das desigualdades sociais e deve ser combatida, inclusive, porque
ela é fator de perpetuação das discriminações
sociais, já que os pobres continuam a ser vistos, por conta
disso, como "incivilizados". E nisso há o gérmen de uma cultura
de intolerância. Assim, a preservação
e tratamento de mananciais é uma questão de caráter
público e que como tal deve ser tratada. Requer, portanto, a construção
de uma cultura que rompa com a visão puramente utilitarista sobre
a água e com a de que a solução para os problemas
que ela envolve sejam atributos de técnicos, engenheiros e
autoridades específicas. Sendo problemas sociais, todas as discussões
sobre a água requerem um debate público para o seu equacionamento. A solução
conjunta para o "problema da água" é uma questão de
integração cidadã. A água, como necessidade
essencial à vida, é um direito universal, o qual cabe ao
Estado garantir. Mas, na medida em que este tem falhado no desempenho de
seus papéis, cabe à população organizada fazer
valer os seus direitos na prática (e não apenas formalmente).
E isto requer uma "publicização" e uma conscientização
geral do problema da água na sociedade, para que esta se envolva
como um todo neste problema e para que se tomem, de forma conjunta, decisões
que visem à sua solução da melhor maneira possível.
Uma solução que não se limite à satisfação
de segmentos da sociedade.
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