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Quero ajudar meu povo, diz índia aprovada em medicina em duas federais

Arquivo Pessoal
Dara Ramires Lemes mora na aldeia Te'yi Kuê, em Caarapó (MS), e foi aprovada em medicina em duas universidades públicas Imagem: Arquivo Pessoal

Celso Bejarano

Do UOL, em Campo Grande (MS)

2015-01-29T17:17:46

29/01/2015 17h17

Moradora da aldeia Te’yi Kuê, nos arredores de Caarapó (a 274 quilômetros de Campo Grande), Dara Ramires Lemes, 19, tem motivos de sobra para comemorar: a guarani- kaiowá foi aprovada em medicina em duas universidades públicas, a UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria).

Nas duas instituições, Dara ficou em primeiro lugar entre os candidatos que disputavam uma vaga pelo sistema de cotas. Decidiu pela universidade gaúcha, onde eram 121 candidatos para apenas duas vagas.

Desde os sete anos, ela sonha em ser médica para cuidar de seu povo. “Esse é um dos meus objetivos, ajudar minha comunidade, mas também pretendo trabalhar em outros lugares. Montar um consultório, quem sabe”, diz a estudante, que vai morar no alojamento da universidade. 

Filha de uma professora e de um comerciante, a indígena foi alfabetizada aos 4 anos e estudou o ensino fundamental e o médio em escolas públicas na aldeia onde vivem cerca de 5.000 índios. A região, assim como outras reservas indígenas do sul de MS, enfrenta sérios problemas, como altas taxas de homicídio, suicídio e disputas de terra entre índios e fazendeiros.

Rotina de estudos

Aos 17 anos, Dara tentou ingressar na faculdade de medicina, mas não foi aprovada. Decidiu então entrar em um cursinho pré-vestibular particular.

“Eu queria estudar integralmente, mas o custo era alto demais para minha família. Com isso, resolvi fazer só o [cursinho] noturno. Tive que me esforçar em dobro. Pelo cursinho noturno meu pai pagava R$ 290 por mês, fora o ônibus [deslocamento de 50 km de distância da aldeia]. Embora fosse caríssimo, garanti ao meu pai que, se ele pagasse, eu iria passar. Ele e minha mãe me apoiaram. E graças a Deus deu tudo certo”, disse Dara, que tem mais três irmãos.

“Estudava até 10 horas por dia intercaladamente. Meu pai tem uma venda na aldeia e eu cuidava para ele. Quando não vinha ninguém, eu estudava. Fazia muitos exercícios por dia, simulados e via bastante vídeo-aula no Youtube. Não perdia tempo. Se sobravam 10 minutos, para mim era lucro. Quando não entendia alguma matéria, eu estudava de madrugada depois do cursinho”, diz a estudante.

Arquivo Pessoal
Dara jogou no Atlético Mineiro antes de ser aprovada em medicina em duas federais Imagem: Arquivo Pessoal

Jogadora de futebol

O sonho de ser médica, quase foi deixado de lado por outra ambição, a de ser jogadora de futebol. “Amo esse esporte. Joguei no Atlético Mineiro quando tinha 16 anos. Joguei a Copa do Brasil Feminino, Copa Mineiro, taça BH e outros torneios. Jogava de meia-atacante, meia-direita e às vezes de volante (apesar de odiar essa posição)”, diz Dara, que chegou a mudar para Minas Gerais.

Decepcionada com a vida de atleta, ela resolveu voltar a morar em Caarapó e seguir em busca da medicina. “Eu tinha que estudar, e não dava para conciliar futebol e o sonho de ser médica, então desisti e tornei esse esporte um hobby”, disse Dara, que é torcedora do Corinthians.

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