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Em um ano, aluno vai da reprovação na 1ª fase ao 1º lugar em direito na USP

João Vitor Silva Rodrigues, 18, foi o primeiro colocado no curso de direito da USP - Arquivo pessoal
João Vitor Silva Rodrigues, 18, foi o primeiro colocado no curso de direito da USP Imagem: Arquivo pessoal

Thiago Varella

Colaboração para o UOL, em Campinas

02/02/2016 20h16Atualizada em 03/02/2016 23h43

Quando estava prestes a terminar o 3º ano do ensino médio, João Vitor Silva Rodrigues fez o mesmo que muitos jovens: prestou o vestibular. No seu caso, a única escolha foi o curso de direito na USP (Universidade de Sâo Paulo).

O vestibular é dos concorridos e com fama de difícil, elaborado pela Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular). A lista de aprovados foi divulgada nesta terça (2).

Após uma vida de estudo em escolas públicas, João Vitor não tinha muita confiança em um bom desempenho.

Na primeira tentativa, a Fuvest 2015, ele fez 46 pontos e ficou longe da 2ª fase. Naquele ano, a nota de corte foi 58. Para a seleção de 2016, os candidatos tiveram que acertar 59 das 90 questões para ir à segunda fase. A concorrência foi de 24,47 candidatos por vaga.

Um ano depois, o jovem de 18 anos atingiu seu objetivo de ser aprovado para estudar no Largo São Francisco, casa do tradicional curso de direito da USP, no Centro de São Paulo. O "detalhe" é que ele passou em primeiro lugar.

Achei que tinha coisa errada

“[O primeiro lugar] foi uma surpresa. Quando vi no site, achei que tinha alguma coisa errada. Tirei uma foto e mandei para um professor confirmar para mim. Minha ficha ainda nem caiu”, afirmou o jovem.

A frustração do ano anterior fez João Vitor obter uma rotina e uma disciplina invejáveis. Não que fosse um mau aluno. Mas a base que adquiriu nas escolas municipais de São Caetano, na Grande São Paulo, onde estudou toda sua vida, não foi suficiente.

Por isso, a primeira atitude do jovem em 2015 foi tentar uma bolsa de estudos em um cursinho. Conseguiu apenas 30% e já achou a prova para conseguir o desconto difícil. Mesmo assim, não desanimou. Encarava, diariamente, uma hora de trem e metrô até o cursinho Poliedro, na Vila Mariana, em São Paulo.

No primeiro mês, estava perdido

Chegava por lá por volta das 6h20, tomava café, e começava a aula às 7h. Ficava sentado, prestando atenção em tudo, até às 12h40, almoçava pelas redondezas, e voltava ao cursinho, de onde só saía por volta das 20h, depois de uma maratona de exercícios e de ter todas as dúvidas sanadas pelos professores. Os livros para a Fuvest, ele lia na viagem de metrô e trem para casa.

Os primeiros meses foram complicados. João Vitor tinha clara noção de que estava defasado em relação aos colegas.

“Em fevereiro, comecei a estudar. Estava perdido. Não tinha ideia do que falavam na aula. A maioria dos colegas era de escola particular com mais bagagem do que eu”, contou.

“Em um mês, entrei no ritmo deles. Por meio dos simulados, eu via qual era meu nível. Eram provas específicas para a Fuvest. Nos primeiros, eu tirava média de 3, de zero a 10. Por fim, minha média era de 7 ou 7,5. Fui vendo meu crescimento e tendo uma ideia de pontos fracos e fortes”, completou.

Em junho, com a vida dedicada ao vestibular, João Vitor passou por um baque. Em um sábado de manhã cedo, quando ia a pé para a estação de trem, foi abordado por um assaltante que levou sua mochila e, consequentemente, todas as anotações feitas em sala de aula.

“Todas as minhas anotações, folhas, cadernos e rascunhos eu perdi. Desanimei bastante. Contei para os professores e eles me deram todo o apoio. Passei as férias de julho reescrevendo tudo com base nas fotos das folhas dos cadernos dos meus colegas”, relembrou.

Música também era uma opção

Por pouco, João Vitor não optou por outro curso. Durante oito anos, o jovem estudou música em uma instituição de sua cidade. Hoje, ele é violinista e toca em uma orquestra de São Caetano. Por isso, o curso de música por muito tempo foi uma opção.

“Desde a oitava série, eu tenho a vontade de estudar direito, mas sempre ficava no impasse com música. Agora, penso em me formar em direito, passar em um concurso público, obter uma certa estabilidade e, então, voltar a estudar música”, explicou.

Claro que a música não vai ficar de lado. Em 2015, por causa do vestibular, João Vitor teve de dar um tempo com a orquestra. Mas, agora, já avisou o maestro que vai dividir o violino e as apresentações com sua vida de estudante universitário.?