Redação

Redação Unicamp 2000

  Redação acima da média - Tema B / Vestibular Unicamp 2000

 

 

    
Nome:   CHRISTIANNE BASÍLIO E SILVA 
Cidade: RIO DE JANEIRO-RJ 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA ELÉTRICA (D) 
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PÚBLICO 
 

Conspiração

"... e, na brancura asséptica de nossos
banheiros, fingimos esquecer das imensas,
verdadeiras Venezas de merda (sic) que 
correm debaixo de nossas casas, de nossas
ruas e de nossos parlamentos."
Milan Kundera, in A insustentável leveza do ser

 

 

     "Que irônico!", pensou Policarpo, que não fazia senão ler jornais e revistas desde que se aposentara, poucos meses antes; "logo hoje, aniversário de nossa Constituição regente, será que ninguém reconhece?". Do alto de seu arraigado e ingênuo patriotismo, indignava-se com o fato de que só uns poucos arquivistas e historiadores, além dele, teriam feito a mesma observação ao ler a notícia veiculada no Correio Popular daquela manhã, segundo a qual cem mil pessoas da região ficariam sem água por três dias, por conta de um derramamento proposital de combustível na rede de esgotos que deriva do rio Atibaia, um verdadeiro crime ambiental. Mas, se refletisse melhor, retirando os óculos auriverdes, veria que semelhantes atentados à pátria mãe gentil ocorrem todos os santos dias, e a única coisa nisso tudo que tinha data específica para acontecer era a promulgação da nossa Constituição, portanto a única culpada pela coincidência infame de datas, ora essa! De qualquer forma, não pensou nisso: seu cérebro, excitado com a proximidade - Policarpo morava em Campinas, a minutos de Paulínia pela General Tavares - e as proporções do crime, vagueava por entre os enredos fantásticos dos muitos livros policiais e de mistério que lera, de Raymond Chandler a Dorothy Parker, de Aghata Christie a Conan Doyle, de Edgar Wallace a Allan Poe, e começava a maquinar se bancar o detetive não seria a solução ideal para espantar de vez o marasmo em que sua vida submergira desde sua recente aposentadoria.

 

     Ao cabo de alguns minutos, decidiu-se; ato contínuo, levantou-se da poltrona e, pegando as chaves do carro, tomou dali o rumo da rua.

 

     O local a que se dirigiu foi o próprio escritório da CETESB, onde trabalhava um antigo conhecido seu, que, achando até um pouco de graça no pedido, prontamente o conduziu ao lugar onde trabalhavam os técnicos empenhados em apurar a origem do óleo poluente. Conversando com eles, pôde ver que, usando critérios e métodos de detecção avançados, eles já haviam descoberto que o material viera de um conjunto habitacional em Paulínia próximo à REPLAN. No entanto, seria necessária uma investigação policial para identificar de que casa específica ele teria partido; os contatos já haviam sido feitos com a polícia municipal de Paulínia e a estadual, mas cada qual alegou estar o caso fora de sua alçada, atribuindo-o à outra, e era nesse pé que a investigação se encontrava, naquele momento.

 

     Finda a explanação, um súbito palpite perpassou a mente de Policarpo, fazendo-o estremecer. E esse palpite segredou-lhe ao ouvido que não seriam necessárias senão simples entrevistas, que ele estaria apto a realizar. Cismado, pediu aos técnicos o endereço do conjunto, que eles lhe deram sem nada esperar. Com ele nas mãos, despediu-se de todos, e para lá rumou.

 

     Muitas foram as prosas e muitos cafezinhos gentilmente oferecidos que Policarpo em vão ouviu e tomou, durante toda a tarde, até que, já caindo a noite, chegou a uma casa cuja dona, quando indagada a respeito, em poucas palavras confirmou seu funesto palpite: "O senhor está falando daquela 'lataiada' velha que meu pai guardava no galpão? Aquilo não prestava não... Meu velho era meio doido, trabalhava na refinaria e cada semana trazia uma porcaria daquelas p'ra cá. Meu irmão disse que aquilo era como um tal de paiol pronto p'ra explodir, que eu tinha que me livrar daquilo. Então, como eu sei que faz fogo, joguei tudo fora, um por um, na 'privada'!"

 

     Policarpo permaneceu silencioso. O que ele pensara ser um crime ambiental era na verdade parte de uma conspiração muito maior, gigante pela própria natureza, com a qual não estava preparado para lutar; um plano verdadeiramente diabólico tramado para subjugar todo um povo, delatado pela extrema ignorância da mulher à sua frente, dos milhões como ela que por aí grassam. O patriotismo que por meio século conservara começou a fenecer em sua alma. Suspirou. Amava o Grande Irmão. 

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