Literatura

Narrativa romântica pode camuflar a verdade

Thaís Nicoleti de Camargo*

Especial para a Folha de S. Paulo

A prova do Enem de 2001 propôs ao estudante questão em que deveria indicar, em trecho selecionado do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, a passagem em que o narrador faz uma crítica ao romantismo.

O fragmento escolhido traz a descrição de Virgília, amante de Brás Cubas: "Naquele tempo contava apenas 15 ou 16 anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação".

O narrador avisa o leitor de que não vai "sobredourar a realidade" nem "fechar os olhos às sardas e espinhas". Assim, não só revela sua disposição de retratar a realidade sem disfarces como denuncia a atitude romântica de camuflar a verdade.

Ao criarem as personagens femininas, os românticos não poupavam adjetivos nem deixavam de lado comparações e metáforas que, às vezes, beiravam o exagero e hoje soam ingênuas. O realismo foi uma resposta crítica ao romantismo, que evocava um mundo apartado da realidade, imune às suas mazelas.

O desejo de idealizar a vida real fez surgir um repertório de imagens que, não raro, se tornaram lugares-comuns, já que usadas à exaustão. Aurélia Camargo, a heroína do romance "Senhora", de José de Alencar, é mostrada ao leitor como "uma nova estrela" que "raiou no céu fluminense", "a rainha dos salões", "a deusa dos bailes", "a musa dos poetas".

Já de Ceci, a bela e pura jovem que encantará o coração do índio Peri, o mesmo Alencar dirá: "Os lábios vermelhos e úmidos pareciam uma flor da gardênia dos nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite (...). Sua tez alva e pura como um froco de algodão tingia-se nas faces de uns longes cor-de-rosa, que iam, desmaiando, morrer no colo de linhas suaves e delicadas".

Tipicamente romântica é a descrição que faz Bernardo Guimarães de Margarida, a beldade que encantará o jovem seminarista: "(...) Os olhos grandes e escuros tinham essa luz suave e aveludada, que não se irradia, mas parece querer recolher dentro da alma todos os seus fulgores à sombra das negras e compridas pestanas, como tímidas rolas, que se encolhem escondendo a cabeça debaixo da asa acetinada (...). A boca (...) era vermelha, fresca e úmida como uma rosa orvalhada. (...) Era, enfim, o tipo o mais esmerado da beleza sensual, mas habitado por uma alma virgem, cândida e sensível. Era uma estátua de Vênus animada por um espírito angélico".

No conto "Uma Senhora", Machado de Assis espicaça os românticos e seus clichês quando descreve dona Camila: "(...) os braços, que eu não digo que eram os da Vênus de Milo, para evitar uma vulgaridade".

A caracterização da mulher sofre uma transfiguração ao mesmo tempo em que o compromisso com a verdade se torna uma bandeira da literatura.

Thaís Nicoleti de Camargo*

Especial para a Folha de S. Paulo

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