Literatura

Aprenda a identificar as figuras do barroco literário

Thaís Nicoleti de Camargo*
Especial para a Folha de S. Paulo

O barroco literário é normalmente identificado com a predominância de certas figuras de linguagem nos textos. As célebres antíteses e os paradoxos, além de inversões sintáticas, anadiploses, quiasmos etc., caracterizam a literatura do Seiscentismo. O uso de todos esses recursos, no entanto, obedece a um objetivo prévio, conforme com uma atitude própria dos escritores da época.

Essa atitude consiste na busca da agudeza, termo usado à larga no período barroco. Pode-se dizer que a agudeza é a manifestação de uma inteligência vivaz. Consiste em dizer algo que, como resultado de processos engenhosos, sobrepuja o mero raciocínio lógico.

No raciocínio agudo, atuam em conjunto três, por assim dizer, capacidades: o engenho, o artifício e a concordância. O engenho não se satisfaz com uma boa e evidente conexão silogística. Conquanto esta seja necessária, o engenho está em descobrir algo de raro e artificioso na relação entre duas coisas. O silogismo apresenta relações, de certa forma, naturais; o engenho é mais do que isso. Ele produz uma realização artística; produz, portanto, um prazer estético. O princípio da concordância é o que assegura a lógica da relação entre termos extremos, opostos.

Um bom exemplo desse "modus operandi" está no conhecido poema de Gregório de Matos Guerra, o soneto "Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,/ Da vossa alta clemência me despido;/ Porque, quanto mais tenho delinquido,/ Vos tenho a perdoar mais empenhado.// Se basta a vos irar tanto pecado,/ A abrandar-vos sobeja um só gemido:/ Que a mesma culpa, que vos há ofendido,/ Vos tem para o perdão lisonjeado.// Se uma ovelha perdida e já cobrada/ Glória tal e prazer tão repentino/ Vos deu, como afirmais na sacra história,// Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,/ Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,/ Perder na vossa ovelha a vossa glória".

Convém observar que o poeta fez um achado. Pede perdão a Deus de forma absolutamente engenhosa: ele pecou para dar a Deus a oportunidade de provar a bondade; se não houvesse o pecado, como Deus poderia perdoar e, assim, revelar Sua imensa bondade? O pecado, segundo esse arrazoado, favorece a Deus, que se engrandece no perdão. O raciocínio é baseado na parábola da ovelha desgarrada.

A ideia, do ponto de vista formal, desenvolve-se numa linguagem rebuscada, igualmente engenhosa, como comprovam as inversões sintáticas, as rimas, os recursos linguísticos.

Dessa organização estrutural e da sagacidade do poeta resulta a agudeza barroca.

Thaís Nicoleti de Camargo*
Especial para a Folha de S. Paulo

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