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Fuvest: tema de redação cita exposição Queermuseu e aborda limites da arte

Bruno Aragaki

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Reprodução

    Uma das pinturas da série "Criança viada", de Bia Leite, que integrava a exposição Queermuseu, em Porto Alegre

    Uma das pinturas da série "Criança viada", de Bia Leite, que integrava a exposição Queermuseu, em Porto Alegre

"Os limites da arte" foram o tema da redação deste ano na Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), o processo seletivo da USP (Universidade de São Paulo). A informação foi revelada pelos primeiros candidatos a deixarem os locais de prova neste domingo (7) -- os cadernos oficiais serão divulgados às 19h pela organizadora do concurso.

Segundo os participantes, ao apresentar o tema para o texto que deveria ser escrito, a banca examinadora trouxe a polêmica em torno de exposições como a do Queermuseu - interrompida em 10 de setembro por protestos de quem viu incitação à pedofilia na mostra. Também foram citadas a instalação Bandeira Branca, de Nuno Ramos, que manteve urubus presos em gaiolas, e as obras do inglês Marc Quinn, que utilizou o próprio sangue em seus trabalhos.

A Queermuseu, que apresentava obras sobre gênero e sexualidade, foi suspensa pelo Santander Cultural em Porto Alegre após pressão de grupos conservadores que a consideravam ofensiva por promover pedofilia, zoofilia e blasfêmia.

"Achei o tema muito interessante. Eu defendi que a arte não deve ter limites, já que ela é e sempre foi uma ferramenta de expressão. Querer limitar a arte é fechar os olhos para as coisas que já acontecem", disse o candidato a uma vaga no curso de Geociências e Educação Ambiental, Rafael Rezende, 20.

Aspirante a uma vaga no curso de Editoração, a candidata Mariana Paixão, 27, seguiu linha de raciocínio parecida. "A arte não existe apenas para mostrar o 'bonito' e o 'certo', existe para representar a vida e nos fazer repensar nossos conceitos", disse. 

"Eu acho que quem argumentou o contrário pode ser prejudicado, pois é muito difícil falar sobre censura da arte com argumentos que façam sentido na sociedade atual, com toda a luta por inclusão e liberdade que está ocorrendo", completou a candidata. 

Nas redes sociais, o tema foi recebido com reações que foram da comemoração à ironia:

O importante é a argumentação

Para o professor de português do Cursinho da Poli, Claudio Caus, um tema tão polêmico "pode levar a certos extremismos, seja do candidato de posição mais conservadora, como de posição mais progressista", disse ao UOL.

Mas "mais importante do que sua posição é a capacidade de sustentá-la com argumentos",opinou o supervisor de Língua Portuguesa do curso Anglo, Sergio Paganim.

"Quando o tema de redação é, como este, polêmico, que suscita paixões, a prova testa a capacidade argumentativa do candidato. Para ir bem, é importante se apoiar em fatos, nos textos de apoio oferecidos, e não em preconceitos", afirmou Paganim.

Além da prova de redação, os candidatos enfrentam hoje dez questões dissertativas de língua portuguesa e literatura. O exame deste domingo inaugura a segunda fase de um dos vestibulares mais disputados do país.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Candidatos fazem a prova no primeiro dia da segunda fase da Fuvest em São Paulo

Menor abstenção em 8 anos

Segundo a Fuvest, 1.689 candidatos faltaram à prova deste domingo -- o que equivale a uma abstenção de 7,75%, o menor índice registrado na abertura da segunda fase, desde 2010. A cidade de São José dos Campos, no interior paulista, registrou a maior taxa de ausentes (11,81%). Na capital, o índice foi de 7,84%.

Para esta etapa, foram convocados 19.960 candidatos, dentre os 137.581 inscritos para as 8.402 vagas na USP. Também fazem o exame 2.100 treineiros - estudantes que ainda não completaram o ensino médio.

Aplicado em 35 escolas no Estado de São Paulo, o processo seletivo da Fuvest prossegue nos próximos dias. Na segunda-feira (8), haverá questões de história, geografia, matemática, física, química, biologia e inglês; na terça-feira (9), será a vez de disciplinas referentes à carreira pretendida.

A primeira lista de aprovados será divulgada no dia 2 de fevereiro.

Com cotas, sem Santa Casa

Esta é a primeira vez que o vestibular da Fuvest  reserva vagas para alunos de escolas públicas e para candidatos autodeclarados PPI (pretos, pardos e indígenas).

Em 2018, 37% das vagas devem ser destinadas a alunos da rede pública. Dentro dessa cota, deverão ser reservadas as vagas para PPI segundo a proporção da presença dessa população no Estado de São Paulo. A USP ainda disponibilizará outras 2.745 vagas pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), do MEC (Ministério da Educação).

Outra novidade é a ausência da Santa Casa, que tradicionalmente oferecia suas 120 vagas para o curso de medicina pela Fuvest.

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