Casal com mais de 60 anos: ela faz pedagogia, e ele é calouro de matemática

Eduardo Schiavoni

Colaboração para o UOL, em Ribeirão Preto

  • Sabrina Machado Fabretti/Arquivo pessoal

    Os universitários Ana Balbuena, 63, e seu marido, Eliseu Machado, 69

    Os universitários Ana Balbuena, 63, e seu marido, Eliseu Machado, 69

Filhos criados, aposentadoria garantida, tempo para curtir os netos e curtir os prazeres da vida. Essa rotina, comum para a maioria dos que integram a chamada melhor idade, está longe de ser a realidade para esse casal de Araraquara.

Aos 69 anos e depois de ficar mais de 40 anos afastado dos bancos escolares, Eliseu Rodrigues Machado começou a cursar matemática no Instituto Federal de São Paulo, campus de Araraquara, nesta quinta-feira (11). E a mulher dele, Ana Balbuena, 63, já iniciou as aulas do terceiro ano de pedagogia. 

Engenheiro mecânico natural de Santo André, no ABC paulista, Machado ingressou ainda adolescente em uma fábrica do setor automotivo. Depois da graduação, desenvolveu seu trabalho nessa indústria até que, pouco mais de 20 anos atrás, decidiu ter um negócio próprio, em parceria com a mulher. 

Foi só com a aposentadoria de ambos, ocorrida em abril de 2015, que Machado considerou a hipótese de voltar a estudar."Depois de 22 anos trabalhando com comércio, eu estava sem saber como preencher meu tempo, sentia falta daquela rotina. Foi quando minha filha mais velha insistiu para que eu prestasse o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). No começo eu resisti um pouco, mas depois acabei gostando", conta.

Ele conta que desenvolveu um sistema de estudos, que envolvia cinco horas diárias de dedicação -- muitas vezes em companhia da filha Sabrina Machado Fabretti. "Eu aproveitei para atualizar meus conhecimentos e foquei muito em redação, que eu nunca tinha feito na vida. Sempre gostei de matemática e, como era uma carreira que era oferecida em Araraquara, optei por ela". 

Seis meses depois, o resultado da dedicação foi confirmado. Enquanto curtia as férias com a família em Monguaguá, no litroal paulista, Machado recebeu o telefonema de Sabrina, que deu a boa notícia: o desempenho dele havia sido suficiente para conseguir uma vaga na unidade de São Carlos do Instituto Federal de São Paulo. São Carlos fica a pouco mais de 40 km de Araraquara.

"Foi uma alegria muito grande, mas eu tive que voltar da praia para fazer a matrícula. Aí, eu acabei ficando aqui para resolver o resto das coisas", conta ele, que recebeu até trote dos três filhos. "Eles vieram, fizemos um churrasco. Só não deixei rasparem minha cabeça. Já pensou?", brinca.

Em seu primeiro dia de aula, Machado não se assustou com idade dos colegas de graduação, a maioria na casa dos 20 anos. "Não tive nenhum problema, todos me receberam muito bem. Acho que essa mescla entre experiência e juventude faz muito bem para todo mundo", conta.

Exemplo

Machado conta que o exemplo da mulher, Ana Balbuena, foi fundamental para que ele se decidisse a voltar a estudar. Em 2011, pouco depois de fazer 58 anos de idade, Balbuena procurou uma escola estadual e decidiu terminar os estudos do ensino médio. Depois de receber o diploma do EJA (Educação de Jovens e Adultos), ela prestou vestibular em uma faculdade particular de Araraquara, passou e hoje cursa o terceiro ano de pedagogia.

"Eu sempre gostei de estudar, e me vi atraída pela sala de aula. Não sei se quero dar aulas para uma classe de alunos, ser a professora responsável, mas acho que posso ajudar, com minha experiência. Dar um reforço para os alunos, que hoje quase não têm chances", conta. "O que posso dizer é que sou muito feliz estudando, adoro mesmo", diz Balbuena.

O casal já sabe, entretanto, que a vida acadêmica dos dois terá um preço: o tempo que passam juntos será reduzido. Machado fará o curso pela manhã, enquanto Ana cursa o período noturno. "Sobra só a tarde, mas sempre tem trabalho, trabalho em grupo, a rotina de estudos. Mas isso não é um problema não, a gente já se viu bastante a vida toda", conta Ana, entre risos

Anjo

Tanto Ana quanto Eliseu fazem questão de ressaltar a importância da filha Sabrina na decisão de voltarem aos bancos escolares. "Ela incentivou tanto a mim quanto ao Eliseu. Tenho certeza que, se não fosse a insistência dela, o amor que ela tem por aprender, nós não estaríamos estudando", relata a mãe.

Machado concorda com a mulher. "Foi ela quem me convenceu. Comprou apostilas, estudou comigo. No começo resisti um pouco, mas ela soube me conquistar", explica.

A filha, por sua vez, se desmancha em elogios para os pais. "Minha mãe é uma das melhores alunas da classe. Dedicada, não tem média menor que oito. E meu pai adora matemática e ama desafios. Ele vai se dar super bem", prevê Sabrina, que faz questão de ressaltar que a educação pode ser uma excelente opção de atividade para a turma mais velha. "Se todos os filhos incentivassem seus pais, os idosos não iam ter depressão, iam se sentir mais úteis e mais felizes", opina.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos