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"Quando se pretende (ou se pretendem?) avaliar os efeitos..."

Atualizado em 29/01/2015, às 18h18

Por Dílson Catarino*:

"Quando se pretende avaliar os efeitos de uma decisão, deve-se avaliar primeiramente os motivos dessa decisão." 

Essa frase seria perfeita num exame vestibular, pois cobra do estudante o conhecimento de uma das matérias da Gramática da Língua Portuguesa mais temidas por qualquer brasileiro que necessita escrever um texto: concordância verbal.

Perceba que há duas estruturas verbais muito parecidas: "se pretende avaliar" (ou "se pretendem avaliar") e "deve-se avaliar" (ou "devem-se avaliar"). Para saber como efetivar a concordância, deve-se ter conhecimento de análise sintática. Vamos à teoria:

O pronome "se" exerce várias funções sintáticas em uma oração. Ele pode ser Parte Integrante do Verbo, Objeto Direto, Objeto Indireto, Partícula Expletiva, Índice de Indeterminação do Sujeito e Partícula Apassivadora.

Será denominado Parte Integrante do Verbo quando acompanhar verbo pronominal, que é aquele que não dispensa o pronome em hipótese alguma. Como exemplo, os verbos arrepender-se, zangar-se, queixar-se e abster-se. Cada pessoa (eu, tu, ele, nós, vós, eles) tem seu próprio pronome integrante: me, te, se, nos, vos, se:

Eu me arrependo, tu te arrependes, ele se arrepende, nós nos arrependemos, vós vos arrependeis, eles se arrependem.

Será Objeto Direto ou Objeto Indireto quando complementar verbo transitivo direto ou verbo transitivo indireto, sendo, neste caso, pronome reflexivo, o que indica que o sujeito pratica a ação sobre si mesmo, ou que há dois elementos: um praticando a ação sobre o outro, que pratica a ação sobre o primeiro.

Cada pessoa tem seu próprio pronome reflexivo: me, te, se, nos, vos, se: Eu me cortei, tu te cortaste, ele se cortou, nós nos cortamos, vós vos cortastes, eles se cortaram.

Verbo transitivo direto é aquele que exige um complemento sem preposição: cortar algo; comprar algo; recolher algo. Verbo transitivo indireto é aquele que exige um complemento com preposição: precisar de algo; assistir a algo; crer em alguém.

Será Partícula Expletiva, também chamada de Partícula de Realce, quando acompanhar verbo intransitivo com sujeito claro. Verbo intransitivo é aquele que não necessita de complemento; aquele que sozinho indica a ação do sujeito, como morrer, correr, dormir.

Cada pessoa tem sua própria Partícula Expletiva: me, te, se, nos, vos, se: Eu me morro de ciúmes de Clarice; Ele se foi para Cuba.

Será Partícula Apassivadora quando acompanhar verbo transitivo direto com complemento não preposicionado, que se transformará em sujeito paciente. Se o sujeito estiver no singular, o verbo também ficará; se o sujeito estiver no plural, o verbo também ficará. Somente o pronome "se" será partícula apassivadora:

Alugam-se casas; Compra-se carro batido; Estão-se transferindo os presos.

Quando o "se" for partícula apassivadora, a oração estará na voz passiva. A maneira mais fácil de saber se há PA é transformando a oração em passiva analítica:

Alugam-se casas = Casas são alugadas por alguém; Compra-se carro batido = Carro batido é comprado por alguém; Estão-se transferindo os presos = Os presos estão sendo transferindo por alguém.

Será Índice de Indeterminação do Sujeito quando acompanhar verbo transitivo indireto com objeto indireto, verbo de ligação com a qualidade do sujeito, verbo transitivo direto com complemento preposicionado ou verbo intransitivo sem sujeito claro. Nesses casos, o verbo ficará sempre na terceira pessoa do singular:

Precisa-se de empregadas; Aqui se é feliz; Ama-se a Deus; Paraná, aqui se trabalha.

Voltemos agora à frase apresentada: Quando se pretende (ou se pretendem?) avaliar os efeitos de uma decisão, deve-se (ou devem-se?) avaliar primeiramente os motivos dessa decisão.

Ambas as estruturas verbais possuem dois verbos: "pretende avaliar" e "deve avaliar". Quando houver dois ou mais verbos, indicando apenas um fato ou somente qualidade do sujeito, há o que chamamos de locução verbal, como ocorreu na frase "Estão-se transferindo os presos". Há dois verbos indicando apenas uma ação - transferir. A locução verbal deve ser analisada como se analisa um verbo isolado. Por exemplo:

  • "O diretor acompanhou o desenvolvimento dos trabalhos". 

-Verbo: "acompanhou";

-Sujeito: Quem acompanhou? Resp.: o diretor;

-Predicação verbal: acompanhou algo: verbo transitivo direto;

-Complemento verbal: acompanhou o quê?: "o desenvolvimento dos trabalhos" = objeto direto.

  • "O diretor tem acompanhado o desenvolvimento dos trabalhos". 

-Locução verbal: "tem acompanhado";

-Sujeito: Quem tem acompanhado? Resp.: o diretor;

-Predicação verbal: tem acompanhado algo: locução verbal transitiva direta;

-Complemento verbal: acompanhado o quê? "o desenvolvimento dos trabalhos = objeto direto.

A primeira estrutura verbal da frase apresentada não forma uma locução, já que há dois verbos indicando dois fatos: "pretender" e "avaliar". A segunda estrutura verbal forma uma locução verbal, já que "dever" não é um fato isolado, tendo, portanto, dois verbos indicando um fato só: o de avaliar.

A segunda frase, então, será assim analisada:

  • "...deve-se avaliar primeiramente os motivos dessa decisão". 

-Locução verbal: deve avaliar;

-Predicação verbal: deve avaliar algo: locução verbal transitiva direta;

-Complemento verbal: deve avaliar o quê? "os motivos dessa decisão": complemento não preposicionado.

O pronome "se", então, é partícula apassivadora, e o complemento verbal não preposicionado se transforma em sujeito. Como o sujeito está no plural, o verbo também deverá ficar:

  • "...devem-se avaliar primeiramente os motivos dessa decisão". 

Passando-se a oração para a passiva analítica: Os motivos dessa decisão devem ser avaliados por alguém.

A primeira frase tem de ter análise diferente, já que não forma locução verbal. Cada verbo tem de ser analisado isoladamente:

  • "Quando se pretende (ou se pretendem?) avaliar os efeitos de uma decisão..." 

Primeiro verbo: "pretende";

Predicação verbal: pretende algo: verbo transitivo direto;

Complemento verbal: pretende o quê? "avaliar os efeitos de sua decisão": complemento não preposicionado.

O pronome "se", então, é partícula apassivadora, e o complemento verbal não preposicionado se transforma em sujeito. Como o sujeito é uma oração, o verbo "pretender" deve ficar no singular. A frase apresentada, então, deve ser assim estruturada:

"Quando se pretende avaliar os efeitos de uma decisão, devem-se avaliar primeiramente os motivos dessa decisão" 

*Professor de gramática da língua portuguesa, literatura e redação, desde 1980.