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"Eu sou igual as freiras" ou "igual às freiras"?

Atualizada em 2 de junho de 2009

Frei Betto em Londrina: "Eu sou igual as freiras".

Essa era uma das manchetes de um grande jornal da região de Londrina, cidade onde moro há cinquenta anos. Lida em voz alta, a frase, aparentemente, não apresenta problema algum, pois a inadequação está na ausência do acento indicador de crase, cuja leitura se efetiva de igual modo ao a, sem tal acento, ou seja, pronuncia-se a, havendo ou não o acento indicador de crase; não se deve pronunciar aa. Muito bem. Explicada a pronúncia, vamos à questão do acento indicador de crase:

O internauta deve ter percebido que insisto em escrever acento indicador de crase, e não simplesmente crase. A explicação se encontra no fato de crase ser um fenômeno, e não o nome do acento. Crase é a fusão, ou contração, de duas vogais idênticas. A palavra provém do grego Krasis, cujo significado é ação de misturar, mistura de elementos que se combinam num todo. Crase, na gramática, é a junção da preposição a com os artigos femininos a ou as.

Por exemplo: O verbo assistir, no significado de ver, exige a preposição a (Quem assiste, assiste a algo); se o complemento de assistir for, por exemplo, as peças teatrais desse diretor, deveremos colocar o artigo as, como já o fiz, já que se trata de um substantivo feminino plural determinado. A frase será, portanto, escrita assim:

  • Assisti às peças teatrais desse diretor.

    Crase também pode ser a junção da preposição a com os pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo, a, as. Sobre isso discutiremos em outra coluna.

    Para saber se devemos ou não usar tal acento, temos de saber as seguintes regras:

    1) Só ocorre o acento indicador de crase diante de palavras femininas, com exceção de quando estiver subentendida a expressão maneira de ou moda de. Por exemplo:
     
  • Roupas à Clodovil = Roupas à moda de Clodovil.

    2) Se surgir palavra indicadora de destino (ir a algum lugar, ida a algum lugar vir a algum lugar, vinda a algum lugar, voltar a algum lugar, volta a algum lugar, chegar a algum lugar, cair a algum lugar, comparecer a algum lugar, dirigir-se a algum lugar. Essas palavras não admitem a preposição em), substitua-a por outra que indique procedência (vir de algum lugar, voltar de algum lugar, chegar de algum lugar...). Se, na substituição, surgir da, coloca-se o acento indicador de crase diante da indicação de destino. Por exemplo:
     
  • Vou à Bahia, com o acento, pois Venho da Bahia;
  • Cheguei a São Paulo, sem o acento, pois Venho de São Paulo.

    3) Se não houver palavra indicadora de destino, substitua a palavra feminina por outra masculina. Se, na substituição, surgir ao, coloca-se o acento indicador de crase diante da palavra feminina. Por exemplo:
     
  • Obedeço às regras, com o acento, pois Obedeço aos regulamentos;
  • Conheço as regras, sem o acento, pois Conheço os regulamentos.

    A frase apresentada pelo jornal deve conter o acento indicador de crase.

    Vejamos: igual é um adjetivo que exige a preposição a (Quem é igual, é igual a algo). Freiras é um substantivo feminino que exige o artigo as, então: Eu sou igual às freiras.

    Se usarmos as regras estudadas acima para comprovar a existência do acento, teremos:
     
  • freiras é um substantivo feminino plural que exige a o artigo as, e não há verbo indicador de destino.

    Troquemos, então, freiras por outra palavra masculina: padres, por exemplo: Eu sou igual aos padres.

    A frase, então, deveria ser assim reescrita:

    Frei Betto em Londrina: "Eu sou igual às freiras".