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"A gente podia sair, não é mesmo?"

Atualizada em 04/02/2015, às 15h43

Por Dílson Catarino*:

A gente podia sair, não é mesmo?

Que você acha disso, caro internauta? A gente podia ou não podia sair, hein? Alguns devem estar pensando: "Qual é a 'pegadinha' gramatical de hoje?"

Pois digo-lhe logo. O que ocorre é que o verbo "poder", no caso apresentado, está conjugado no tempo chamado de pretérito imperfeito do indicativo (eu podia, tu podias, ele podia, nós podíamos, vós podíeis, eles podiam).

Esse tempo, porém, indica ação ocorrida no passado, não totalmente concluída no momento da fala (Ela, naquele dia, não podia sair de casa), ou ação passada habitual (Ela, naquela época, não podia sair de casa todos os dias sem se preocupar com o filho).

Como você pode perceber, a frase apresentada não tem indicação alguma que possa justificar o uso do verbo no pretérito imperfeito do indicativo. Então como deveríamos construir a frase?

Ela deveria ser estruturada com o verbo "poder" no futuro do pretérito do indicativo (eu poderia, tu poderias, ele poderia, nós poderíamos, vós poderíeis, eles poderiam), tempo que antigamente era chamado de condicional e que é empregado para exprimir uma ação ou um fato futuro hipotético dependente de algum acontecimento (Se você terminasse a tarefa em tempo, poderia sair), ou atenuar uma expressão por respeito ou polidez (A senhora poderia dar-me licença?).

Percebe-se que a frase apresentada contém o futuro hipotético, portanto tem de ser construída com o verbo "poder" no futuro do pretérito do indicativo.

Outro detalhe é a palavra "gente", usada para momentos informais. Não há qualquer problema usá-la em situações cotidianas entre amigos, mas, como o nosso interesse é a língua padrão, o ideal seria elaborar o período com a primeira pessoa do plural, ou seja, "nós". A frase, então tem de ser assim reescrita:

Nós poderíamos sair, não é mesmo?

*Professor de gramática da língua portuguesa, literatura e redação, desde 1980.