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22/11/2005 - 14h34
Odontologia é curso com custo alto
Simone Harnik
Da Folha de S.Paulo
Todos os dias, ela acorda por volta das 5h30, quando o sol nasce, pega ônibus, metrô e vai para a labuta. Mas, diferente do "Cotidiano" de Chico Buarque, Juliana Marotti, 23, não faz tudo "sempre igual". A cirurgiã-dentista recém-formada pela USP divide a semana entre dois cursos, dois estágios para se aperfeiçoar, além da clínica em que trabalha.
O esforço para se integrar ao mercado, no entanto, não é a primeira dificuldade imposta aos que querem cuidar do sorriso da população. "É muito caro estudar odontologia, mesmo em faculdade pública. É preciso comprar todo o instrumental. Ou a pessoa tem um capital inicial ou precisa conseguir trabalho para manter os estudos", diz Juliana. Como o pai também é dentista, a jovem conseguiu economizar uma parte dos cerca de R$ 7.000 gastos com equipamentos durante a faculdade. "Mas não é tudo que pude pegar do meu pai, tive de adquirir muita coisa nova." Transposto o primeiro obstáculo financeiro, Juliana aplica tempo e dinheiro em cursos de estética e de implante para aprimorar sua técnica. Dentística (área que abrange os procedimentos para embelezar os dentes, como o clareamento) e implantologia são duas das áreas mais promissoras e procuradas pelos graduados. Ela trabalha três dias por semana em uma clínica com salário fixo e ainda faz dois estágios sem remuneração, um sobre uso de laser e outro sobre escultura dental. "Há três anos, faço o estágio didático de escultura dental. Não ganho nada financeiramente, mas isso conta pontos para a hora do mestrado. A gente tem de investir a vida toda na odontologia." E, como se não bastasse, Juliana dedica os sábados para aulas de alemão. Na faculdade, ela foi uma das alunas que apresentaram pesquisa científica na Europa. O idioma pode facilitar futuros estágios. Mesmo com tanta correria e atividades, ela garante que a profissão tem benefícios claros. "Quando você tem sua clínica, pode administrar o seu tempo, organizar os dias em que trabalha ou não. Isso é uma grande facilidade", diz. E aponta que fundamental para a escolha do curso é gostar do contato humano. "Odonto não trata de uma boca. Trata de pacientes. O fato de ver o resultado, a satisfação, é muito bom." Concorrência O acúmulo de atividades e a necessidade de novos conhecimentos dos dentistas se justificam. Há cerca de dez anos, com o aumento do número de faculdades, a concorrência aumentou muito e exige mais preparo dos profissionais. É o que afirma o presidente do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, Emil Adib Razuk. "Em 1996, tínhamos 27 faculdades no Estado. Agora, são 50", diz. "Mas, como a procura diminuiu, cinco faculdades já não abriram salas de odonto." Mesmo assim, a relação de dentistas por habitantes é alta no país: há um profissional para 913 cidadãos. Em São Paulo, o mercado dos profissionais é ainda mais estreito: para cada dentista, 582 pessoas em média. Segundo o responsável por cirurgia buco-maxilo-facial da Unicamp, Luis Augusto Passeri, o Brasil concentra mais faculdades do que os Estados Unidos, o Canadá e a França juntos. "É um mercado muito disputado, e o Brasil tem profissionais bem formados. Não existe discrepância profissional com outros países. Além disso, o preço é muito mais compatível, o que faz com que estrangeiros venham para o país para fazer tratamentos." O professor afirma que o perfil da profissão mudou ao longo do tempo. "Antigamente, o principal problema era a cárie, que diminuiu muito após as águas receberem flúor", diz. Depois, a ortodontia, para a correção da arcada, foi barateada e se popularizou. Ao todo, a odontologia tem 19 possibilidades de especialização, das quais a que exige maior treinamento é a cirurgia buco-maxilo-facial, com três anos de residência. Mesmo assim, segundo Passeri, o dentista sai com uma formação mais completa para trabalhar do que o médico, que depende mais da residência. |