Roubo de obras de arte: Crime ameaça patrimônio cultural brasileiro

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Picasso, Van Gogh, Leonardo da Vinci, Cézanne e Renoir. Em comum, além de serem gênios da arte, também tiveram suas obras, avaliadas em milhões de dólares, roubadas de museus de toda a Europa. No Brasil, igrejas, museus e coleções particulares também são alvos dos ladrões.

Quatro telas dos mais importantes artistas brasileiros, Cândido Portinari (1903-1962) e Tarsila do Amaral (1886-1973), além do pintor carioca Orlando Teruz (1902-1984), foram roubadas no último dia 10 de maio de uma casa no bairro dos Jardins, região nobre de São Paulo. O valor das pinturas foi estimado em R$ 3,5 milhões.

Os quadros "Cangaceiro" (1956) e "Retrato de Maria" (1934), de Portinari, "Figura em Azul" (1923), de Tarsila, e "Crucificação de Jesus", de Teruz, pertencem à ex-mulher do empresário Henry Maksoud, dono do Hotel Maksoud Plaza. Segundo a polícia, o crime teria sido encomendado.

Dois dias depois, as pinturas foram abandonadas em uma rua situada próximo à sede da TV Record, na região da Barra Funda, zona oeste da capital. A polícia chegou ao local depois de receber uma denúncia anônima. A autenticidade dos quadros ainda vai ser verificada, assim como sua integridade: é preciso descobrir se eles não foram danificados.



Masp

Segundo o banco de dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 1.545 bens culturais em todo país estão desaparecidos, sendo 619 roubados ou furtados de São Paulo e 539 do Rio de Janeiro. Outros 127 foram recuperados pela polícia.

Os itens incluem desde pinturas, estatuetas e livros até moedas raras. As peças foram levadas de museus, igrejas e galerias de arte. Não entram na estatística, portanto, coleções particulares como a da família Maksoud.

Os últimos crimes ocorridos em São Paulo, na Pinacoteca, em 2008, e no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 2007, fizeram com que os museus reforçassem os esquemas de segurança, o que pode ter levado os bandidos a atacarem as residências que abrigam acervos.

Da Pinacoteca, foram roubadas obras de Di Cavalcanti (1897-1976), Pablo Picasso (1881-1973) e Lasar Segall (1891-1957). Já do Masp, os ladrões levaram pinturas de Portinari e Picasso, avaliadas em R$ 100 milhões. Todas as peças foram recuperadas pela polícia e voltaram a ser expostas.



Lucros

O roubo de obras de arte é considerado um dos comércios ilegais mais lucrativos do planeta, ao lado do tráfico de armas e de drogas, com ganhos anuais de até U$ 6 bilhões (R$ 12 bilhões), segundo estimativas da Arca (Association for Research into Crimes Against Art [Associação para Investigação de Crimes contra Arte]).

Os crimes são praticados por quadrilhas especializadas que agem em todo mundo. Segundo a Interpol, a polícia internacional, os roubos de objetos culturais atingem principalmente países desenvolvidos. França e Itáliatêm o maior número de casos registrados, seguidos de Alemanha, Bélgica, Rússia e República Tcheca.

O que tornou o negócio lucrativo, de acordo com a Interpol, foi:


  • a demanda no mercado de artes por peças que valem milhões de dólares;
  • a abertura de fronteiras com a globalização;
  • a melhoria nos sistemas de transporte e
  • a desestabilização política de alguns países, que faz com que museus sejam pilhados, como aconteceu no Oriente Médio e no Leste Europeu.

    Não existe uma estatística confiável no mundo, porque boa parte das obras não consta de catálogos oficiais e poucos países têm dados mais detalhados. Na ausência de tipificação criminal, os casos são registrados como furto ou roubo comuns. Também há indícios de que os crimes financiem terroristas e envolvam máfias russas, chinesas e italianas.

    Colecionadores Depois dos ladrões receberem encomendas e praticarem os roubos, eles guardam a mercadoria por um período de "quarentena", até que possam ser levadas para fora do país com segurança. O destino, em geral, são antiquários, galerias e receptadores nos Estados Unidos, China e Europa.

    Como algumas obras roubadas - as mais famosas e caras - fazem parte do patrimônio cultural, estas são catalogadas e listadas pela polícia. Por isso, os colecionadores que as compram são obrigados a mantê-las escondidas em suas mansões e castelos, longe dos olhos do público. Eles sequer podem mostrar aos amigos, sob o risco de serem denunciados.

    As peças também são adquiridas para fins de lavagem de dinheiro. Traficantes, por exemplo, recebem grande quantidade de dinheiro em espécie, sem poderem comprovar a origem. Por isso, compram obras de arte, cujo valor é variável, para depois revendê-las. Assim, o dinheiro se torna legal e pode ser usado em transações bancárias.

    "Mona Lisa" Pablo Picasso possui um dos conjuntos de obras mais bem cotadas no mercado e também o número de pinturas mais roubadas de museus em todo o mundo, segundo dados da fundação The Art Loss Register (Registro de Arte Perdida). No ano passado, duas obras do artista espanhol, avaliadas em US$ 4 milhões (R$ 8,4 milhões), foram furtadas de uma exposição na Suíça e continuam desaparecidas.

    Mas o maior furto de uma obra de arte ocorreu em 14 de abril de 1991, quando ladrões levaram 20 telas do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), avaliadas em US$ 500 milhões (R$ 1 bilhão), do Museu Van Gogh, em Amsterdã. Eles abandonaram as telas meia hora depois, dentro de um carro.

    Nem mesmo o quadro mais famoso do mundo, a "Mona Lisa", do pintor renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519), cujo valor é inestimável, escapou dos bandidos. Em 22 de agosto de 1911 o quadro desapareceu do Museu do Louvre, na França. Dois anos depois, a obra foi recuperada na Itália. Ela havia sido furtada por um ex-funcionário do museu que alegou querer repatriar a pintura do gênio italiano.

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor universitário.

Bibliografia

  • ""Thomas Crown - A arte do crime" (1999): o filme conta a história de um milionário entediado (Pierce Brosnan) que leva um quadro de Monet, avaliado em US$ 100 milhões, do museu Metropolitan de Nova Iorque. Ele passa a ser perseguido por uma agende de seguros (René Russo), por quem se apaixona.
  • "O Ladrão de Arte" (editora Intrínseca): romance do historiador e escritor norte-americano Noah Charney sobre uma série de obras primas que desaparecem de museus europeus, dando início a uma investigação nos bastidores do mercado artístico.


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