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Pleonasmo: "vício" ou estilo?

Thaís Nicoleti de Camargo
Especial para a Folha
Não é raro ouvirmos que alguém "subiu lá em cima" ou "saiu lá fora". Certamente, reconhecemos tais formas como viciosas, e, muitas vezes, elas se transformam em motivo de riso. No nível culto da língua, são inadmissíveis. Que pensar de alguém que tenha sofrido uma "hemorragia de sangue" ou participado de um "plebiscito popular"? A esse tipo de construção chamamos pleonasmo, palavra grega que significa superabundância.

Quantas vezes já ouvimos alguém dizer que houve um "consenso geral"? Ora, consenso é a opinião geral. É o mesmo problema que ocorre com a "opinião individual de cada um" e com a "unanimidade de todos". "Encarar cara a cara", "repetir de novo", "enfrentar de frente" são tão redundantes quanto o "erário público" e o "vereador municipal".

Se esses pleonasmos beiram o ridículo, outros há no idioma perfeitamente aceitáveis. São comuns, em bons escritores, construções com duplo objeto, de grande poder expressivo. Em uma frase como: "A carta, não a recebi", o objeto direto é anteposto (a carta) e repetido depois como pronome oblíquo ("a"). A este chamamos objeto direto pleonástico. A frase ficou muito mais enfática que: "Não recebi a carta".

Quem já não ouviu falar que alguém "viveu uma vida de cão" ou "dormiu o sono dos justos"? Nessas frases, ocorre o que se conhece, gramaticalmente, como objeto direto interno. Um verbo intransitivo adquire transitividade e tem o seu objeto direto representado por um núcleo semanticamente ligado a ele, acrescido de um qualificativo. O uso do adjetivo ou da locução adjetiva torna único aquilo que pareceria óbvio.

Há outras construções pleonásticas também aceitas, como é o caso da dupla negativa, em frases do tipo: "Não disse nada" ou "Não havia nenhuma pessoa lá". Mais elegantes, entretanto, soam as formas: "Nada disse" ou "Não havia pessoa alguma lá". Note que o pronome indefinido "algum", posposto ao substantivo, assume valor negativo.

Como você pode perceber, nem sempre o pleonasmo é um vício de linguagem. Vezes há em que é um poderoso recurso de estilo. No belo "Soneto da Fidelidade", diz Vinicius de Morais: "De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ (...) E em seu louvor hei de espalhar meu canto/ E rir meu riso e derramar meu pranto (...)".

Em Manuel Bandeira, no "Poema Só para Jaime Ovalle", lemos: "Chovia uma triste chuva de resignação". O limite entre o "defeito" e o estilo pode parecer tênue. Mas, com um pouco de sensibilidade, fica fácil distinguir um do outro.
*Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL e autora dos livros "Redação Linha a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula" (Manole).
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